Cunhado de Vorcaro relatou dor de barriga diante de cobranças para fazer repasses ao filme 'Dark Horse'

Cunhado de Vorcaro relatou dor de barriga diante de cobranças para fazer repasses ao filme 'Dark Horse' - Foto
Fonte da notícia: Valor Valor

Mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro pela Polícia Federal (PF) mostram que ele e seus auxiliares demoraram mais de um mês para conseguir fazer a primeira transferência para um fundo nos Estados Unidos para, supostamente, financiar o filme "Dark Horse" a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Nos diálogos, o cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, relata as dificuldades para a transação e chega a afirmar que estava com “dor de barriga” diante das cobranças.

As conversas mostram ainda que nem o próprio Vorcaro sabia que o pagamento estaria indo para um fundo e que só foi informado sobre isso pelo cunhado, em meio às dificuldades para conseguir realizar a operação.

Os diálogos obtidos pelo Valor demonstram que Vorcaro discutiu com o cunhado os repasses para o filme nas mesmas conversas em que acertavam pagamentos a advogados, empresários e políticos.

Zettel é apontado pela PF como operador financeiro de Vorcaro e, como as mensagens mostram, utilizava várias empresas em seu nome para fazer pagamentos ordenados por Vorcaro. Ele, no entanto, sempre pedia autorização do ex-banqueiro para fazer qualquer repasse, e também pedia ajuda a ele quando estava sem recursos para fazer pagamentos.

As conversas sobre os repasses para o “Dark Horse” - filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro - começam em 6 de janeiro de 2025, quando Zettel envia uma foto a Vorcaro e questiona: "1. É o filme? 2. Que empresa uso?”. O então banqueiro responde: “Uma sua”.

Dez dias depois, Zettel encaminha uma lista de pagamentos que estavam pendentes e afirma: “E o cara do ‘filme’ não sai da minha cola. Me mandou um fluxo gigante!”. A mensagem fica sem resposta.

Àquela altura, Vorcaro já havia indicado ao publicitário Thiago Miranda que ele deveria tratar dos repasses com Zettel. Foi Miranda quem fez toda a intermediação entre Flávio Bolsonaro e o então banqueiro para o filme.

No dia seguinte, Zettel volta a encaminhar a lista de pendências ao cunhado e a falar do filme: “Não esquece de mim!".

A mensagem fica sem resposta naquele dia e o cunhado volta a acionar Vorcaro em 20 de janeiro, com a mesma mensagem da lista de pendências. Sem resposta, Zettel então aborda Vorcaro de forma diferente no dia seguinte.

“Irmão, fala comigo! Me dá um norte? Mesmo que seja ‘não faz porra nenhuma até eu voltar’. Vorcaro então responde com “Oi” e afirma “vamos fazer tudo”. Na sequência, ele questiona quanto daria todo o valor a ser pago, e Zettel encaminha a relação de pagamentos e diz que o valor total ficaria em R$ 55,5 milhões.

Vorcaro então afirma: “O filme tá nesse negócio? Avisa todo mundo que vai na sexta tudo”. Zettel responde: “Não. Porque o fluxo é gigante…10 de 2.5 de dólares".

Eles não voltam a tratar do filme naquele dia e mudam de assunto. Em 28 de janeiro, Vorcaro aborda o assunto e aponta para o cunhado que o pagamento para o filme seria o mais importante “disparado”.

“Filme vc pagou?”, disse o então banqueiro. "Irmão, não vem 1 real tem 3 semanas… kkkkkkk Paguei foi nada…(sic)”, respondeu o cunhado. “Putz”, rebateu Vorcaro. Zettel então afirmou: “E filme não está na lista de 55.5”. Vorcaro estaõ disse: “Esse é o mais importante disparado. Não pode falhar mais”. Em resposta, Zettel propõe somar o valor do filme aos demais pagamentos.

“Soma o valor amanhã? Ou deixo de pagar algumas coisas?”, questionou. “Soma”, responde o então banqueiro, que recebe um “ok” de Zettel. Às 9h da manhã do dia seguinte, o cunhado relatou um novo problema.

“Tô com um problema… A empresa que eu criei não tem cadastro suficiente pra mandar os câmbios do filme. Posso mandar Super?”, em referência à empresa Super Empreendimentos, que ele usava para fazer os pagamentos a mando de Vorcaro.

“Nossa senhora”, respondeu o então banqueiro. “Me fala o que fazer… A não ser que você faça o Simonsen fazer o câmbio na canetada", pediu o cunhado. A mensagem ficou sem resposta.

Na sequência, há o registro de uma chamada por WhatsApp. Eles, então, trocam mensagens sobre outros pagamentos e o assunto do filme só voltou a aparecer na conversa às 19h36. “Preciso de vc: Saber se faz Caco. Saber que empresa paga filme. Se pode fazer amanhã o câmbio que me mandou hoje”, afirmou Zettel, em referência às pendências que tinha com o cunhado.

No dia seguinte, Zettel voltou a comentar com Vorcaro: “Mandei só o câmbio da SL até vc resolver”, em referência à empresa SL Consulting, que Vorcaro utilizava para pagar suas viagens e eventos de luxo no Brasil e no exterior com políticos e outros amigos.

Em resposta, Vorcaro perguntou “quanto é o do filme?". O cunhado então respondeu: “2M de dólares”.

Em 31 de janeiro, Vorcaro volta a cobrar o cunhado, que expõe seu incômodo com a dificuldade que estava tendo com o pagamento para o filme.

“Vc fez o filme?”, indagou Vorcaro. “Amigo, não faz assim que me dá dor de barriga…Estamos esperando você definir a empresa… E não veio nada de TED do câmbio e do Caco, e etc.”

“Não veio? A do filme?”, respondeu o então dono do Master. “Não… E vc tem que definir a empresa…Ou obrigar o Simonsen a fazer na minha”, respondeu Zettel, sem deixar claro quem seria Simonsen.

Nos dias seguintes, eles seguem conversando sobre outros assuntos e pendências e, em 5 de fevereiro, após receber recursos de Vorcaro, Zettel volta a relatar sua dificuldade em conseguir operacionalizar o pagamento para o fundo no exterior. “Filme tô tentando desde ontem. Câmbio do Master criando caso. Já mandei 1.000 documentos meus."

Em resposta, Vorcaro questionou para quem seria o pagamento e sugere utilizar a empresa Entre Investimentos, de Antônio Carlos Freixo Junior, conhecido como “Mineiro” e apontado como outro operador financeiro de Vorcaro. “Paga pra quem? Vamos fazer via Entre”, disse o então banqueiro.

“Meu sonho. Posso pedir pro Minas?”, respondeu Zettel, em possível referência ao empresário.

“Pode. E manda a grana”, autorizou Vorcaro. Ele também questionou: "Pra quem paga lá fora”. “Um fundo”, respondeu o cunhado. Ele então recebeu uma indagação do então banqueiro: “Fundo?”.

No dia 11 de fevereiro, mais de um mês depois de Zettel perguntar a Vorcaro sobre como seria o pagamento do filme, o banqueiro volta a cobrar se foi feito o câmbio para enviar o dinheiro ao exterior. O cunhado, então, relatou que Mineiro também estava tendo dificuldades.

“Passei pro Mineiro. Ele também estava com dificuldades. Tô na cola dele. Mas se vc mandar mensagem, me ajuda muito", afirmou. “Cara não é possível. Não acredito”, respondeu Vorcaro. “O câmbio não quer fazer”, explicou o cunhado. “Qual motivo”, indagou o então banqueiro. “Cadastro. As informações são meio estranhas”, respondeu Zettel.

Mineiro é Antônio Carlos Freixo Junior, que fechou um acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e se comprometeu a entregar mais detalhes dos repasses para o Dark Horse e também sobre os pagamentos que fazia a mando de Vorcaro.

Vorcaro insistiu que o pagamento teria que ser feito naquele dia: “Preciso resolver HOJE (sic). É possível?”. Zettel responde com um "ok". Somente no dia 14 de fevereiro é que o cunhado encaminha o comprovante da transferência de US$ 2 milhões que foi efetivada pela Entre Investimentos no dia anterior. Vorcaro não comenta nada sobre o comprovante.

As defesas de Zettel e Vorcaro foram procuradas e não retornaram. A reportagem também procurou a assessoria de Flávio Bolsonaro, que não se manifestou. O candidato do PL à Presidência é investigado pela PF por suspeita de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e corrupção envolvendo os repasses para o filme. Desde que o episódio veio à tona, ele nega irregularidades e alega que apenas fez um pedido de doação de recursos privados para um filme sobre seu pai, sem ter oferecido nenhuma contrapartida.

Fabiano Zettel Gabriel Reis/Valor

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