‘Culto do orgasmo’: fundadora de empresa que promovia prática é condenada a 9 anos; entenda o caso

 

Fonte:


A criadora e ex-CEO da empresa de bem-estar sexual OneTaste, Nicole Daedone, foi condenada a 9 anos de prisão por um esquema de trabalho forçado: funcionárias eram coagidas a ter relações sexuais com investidores e clientes. A juíza Diane Gujarati, do Tribunal Distrital dos EUA, afirmou que Daedone causou danos “duradouros, senão irreparáveis” a ex-funcionárias. A empresa se apresentava como tendo uma dedicação subversiva à libertação sexual feminina. A proposta era oferecer um estilo de vida comunitário, ministrando aulas da chamada ‘meditação orgásmica’ para ajudar a alcançar o empoderamento feminino.

Caso sem precedentes: lobo invade área comercial na Alemanha, fere mulher e força autoridades a decidir entre soltura ou abate

Leia também: Justiça dos EUA decide que universidade pode manter posse de diários de ex-assessor de Mao Tsé-Tung

— O que ela estava fazendo não era sobre iluminação ou operar em uma dimensão diferente. Era criminoso — disse Gujarati.

Além da pena, Nicole terá 12 milhões de dólares confiscados, valor equivalente ao valor de venda da companhia em 2017. Daedone, de 58 anos, não mudou sua expressão enquanto a juíza proferia a sentença. Cherwitz, sua co-ré, recebeu uma sentença de mais de seis anos ainda na segunda-feira.

Além da pena, Nicole terá 12 milhões de dólares confiscados, valor equivalente ao valor de venda da companhia em 2017

Daniel Boczarki / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP

Jennifer Bonjean, advogada de Daedone, acompanhada por apoiadores em uma coletiva de imprensa do lado de fora do tribunal, disse que planeja recorrer da condenação. Anjuli Ayer, CEO da OneTaste, chamou o dia de “assustador para a liberdade”.

— Nós simplesmente ficaremos ao lado de Nicole enquanto ela cumpre essa pena — defendeu Bonjean.

Em seu auge, a OneTaste operava centros em cidades como São Francisco, Nova York e Austin, no Texas, oferecendo sessões de sua prática característica de meditação orgástica — a estimulação ritual do clitóris de uma mulher por 15 minutos. Em 2017, Daedone vendeu a OneTaste por 12 milhões de dólares (equivalente a $62 milhões de reais na cotação atual) para Ayer.

Culto ao orgasmo

Daedone, que fundou a OneTaste em 2004, disse que o objetivo era abordar a lacuna na satisfação sexual entre homens e mulheres. O nome OneTaste, segundo ela, deriva de uma expressão budista, que disse se traduzir como “assim como o oceano tem um único gosto de sal, também o tem o gosto da libertação”.

O ritual de “meditação orgásmica” envolvia uma mulher, nua da cintura para baixo, deitada sobre almofadas enquanto um homem acariciava seus genitais. Em um discurso no TEDx em 2011, Daedone disse que as pessoas chegavam às aulas da OneTaste com uma “sensação de fome que corroía”.

“Existe um transtorno de déficit de prazer neste país”, disse Daedone durante o discurso. “Mas eu realmente acho que existe uma cura, e essa cura é o orgasmo.”

Empresa ‘cultivava uma cultura de medo e intimidação’

Sob a liderança de Daedone e Cherwitz, segundo ex-funcionárias que testemunharam contra elas, a OneTaste cultivava uma cultura de medo e intimidação. As funcionárias eram instruídas a prestar serviços sexuais a potenciais investidores, realizar tarefas domésticas nas casas comunitárias da OneTaste e destruir relacionamentos românticos — enquanto Daedone e Cherwitz viviam de forma luxuosa, beneficiando-se desse trabalho, disseram as funcionárias.

Uma mulher testemunhou que Cherwitz a forçou a receber meditação orgástica. O sexo na OneTaste, escreveram os promotores à juíza em dezembro, também era um “meio de incentivar a produtividade”.

Esquemas de trabalho forçado frequentemente envolvem ameaças concretas contra as vítimas, como violência física, chantagem ou a retenção de documentos de viagem dos trabalhadores. No entanto, Daedone e Cherwitz não ameaçaram fisicamente as funcionárias para que permanecessem na OneTaste, mostraram as evidências e depoimentos no julgamento. Em vez disso, as funcionárias disseram que se sentiram coagidas psicológica e emocionalmente a aceitar as doutrinas da OneTaste como um modo de vida, e que trabalhar lá as levou à falência.

Obedecer a Daedone e Cherwitz era necessário para ascender na organização, testemunharam as mulheres. Apoiadores da OneTaste afirmaram que o caso era inédito e alegaram que se tratava de uma perseguição direcionada contra pessoas que acreditavam em um estilo de vida alternativo.

Os promotores rejeitaram categoricamente a ideia de que a acusação tivesse como alvo as crenças da OneTaste. Durante a argumentação final do governo no julgamento, Kayla Bensing, promotora assistente dos EUA, disse que Daedone “não estava sendo julgada por suas palestras”.

— É irrelevante perante a lei se elas realmente acreditavam na missão do orgasmo — disse Bensing aos jurados.

Ela também afirmou que um esquema de trabalho forçado pode existir mesmo que as mulheres fossem fisicamente capazes de sair. Ao longo dos anos, Daedone expandiu seu império para incluir eventos com jantares, uma editora de livros e um programa que fornecia comida gratuita para pessoas em situação de rua em Nova York.

Após anos de reformulação desde as acusações, a empresa voltou a oferecer instruções presenciais de meditação orgástica. Ao mesmo tempo, o grupo passou a incluir a reforma do sistema de justiça criminal como parte de sua missão.

— O julgamento apenas fortaleceu a convicção de todos e a disposição de lutar — afirmou Ayer.

Ayer e outros membros da OneTaste buscaram aproximação com figuras da mídia de direita e do círculo do presidente Donald Trump, aparentemente seguindo uma estratégia usada por pessoas que conseguiram clemência. Eles encontraram afinidade com Douglass Mackey, um ativista conservador condenado por conspiração contra direitos por compartilhar memes enganosos antes da eleição de 2016. Sua condenação, que membros da OneTaste dizem ter sido injusta, foi anulada pelo Tribunal de Apelações do 2º Circuito dos EUA no ano passado.

A OneTaste buscou aconselhamento jurídico com Alan Dershowitz, o advogado de defesa que usou seu acesso a Trump para obter perdões e comutações de pena durante o primeiro mandato do presidente. Trump concedeu clemência a diversos aliados — ou pessoas que contrataram seus aliados, muitas vezes por altos valores. Em entrevista, Dershowitz se recusou a dizer quanto a OneTaste lhe paga, mas afirmou estar profundamente preocupado com o caso e querer lutar pela liberdade de Daedone e Cherwitz.

“Estou preocupado que esse seja o tipo de processo que pode facilmente ser direcionado a outros grupos”, disse ele, citando grupos religiosos que poderiam ser alvo por suas crenças.

Ao final do jantar, as mulheres foram convidadas a fazer doações para financiar mais encontros. Se contribuíssem com 100 dólares (aproximadamente R$500, na cotação atual), receberiam um exemplar do livro de Daedone. Esses eventos são separados da OneTaste, disse Ayer, mas ela demonstrou otimismo quanto aos esforços da organização para se revitalizar. Ainda assim, o próximo passo, afirmou, continua sendo sobre Daedone e Cherwitz.

— Meu objetivo é conseguir justiça para minhas amigas — disse Ayer.