Óculos da Meta enviam vídeos sensíveis para moderadores humanos, diz jornal

 

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Uma investigação do jornal sueco Svenska Dagbladet, publicada em 27 de fevereiro, afirmou que vídeos capturados pelos óculos inteligentes Ray-Ban Meta Smart Glasses foram analisados por revisores humanos envolvidos no treinamento de sistemas de inteligência artificial da empresa. A reportagem ouviu mais de 30 trabalhadores de uma empresa terceirizada localizada em Nairóbi, no Quênia, responsáveis por classificar conteúdos utilizados para aprimorar modelos de IA. Segundo esses relatos, parte do material analisado inclui registros do ambiente ao redor dos usuários — alguns envolvendo situações consideradas privadas ou sensíveis.

Para especialistas que conversaram com o TechTudo, o caso evidencia pontos centrais da legislação de proteção de dados, como transparência no uso das informações, consentimento e responsabilidade sobre conteúdos que podem incluir terceiros. Os advogados Antonielle Freitas, DPO do escritório Viseu Advogados e integrante da Comissão Especial de Privacidade e Proteção de Dados da OAB-SP, Marcelo Cárgano, especialista em Privacidade e Proteção de Dados, e Victor Tales Carvalho, diretor da Comissão de Direito Digital da OAB-MG, apontam que a possibilidade de revisão humana de vídeos torna a discussão mais sensível do ponto de vista jurídico.

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Óculos da Meta enviam vídeos íntimos para moderadores humanos, diz jornal

Divulgação/Meta

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No índice abaixo, confira os tópicos que serão abordados nesta matéria do TechTudo.

Por dentro da denúncia do jornal SVD

O que é gravado pelos óculos inteligentes da Meta?

O que diz a lei sobre casos do tipo?

O que diz a Meta?

Outras polêmicas envolvendo Ray-Ban Meta e privacidade

Cuidados no uso de óculos inteligentes

Por dentro da denúncia do jornal SVD

De acordo com o jornal sueco Svenska Dagbladet, parte dos vídeos capturados pelos óculos inteligentes da Meta pode ser enviada para revisão humana como parte do processo de treinamento de inteligência artificial. A reportagem afirma que trabalhadores de uma empresa terceirizada em Nairóbi analisam clipes curtos registrados pelos dispositivos.

Segundo o jornal, esses profissionais atuam como anotadores de dados — responsáveis por assistir ao conteúdo e classificá-lo para ajudar a aprimorar sistemas de IA. Fontes ouvidas pela investigação disseram que o material inclui registros variados do ambiente captado pelos óculos.

Alguns trabalhadores relataram ao jornal ter visto gravações envolvendo momentos de vulnerabilidade ou intimidade das pessoas filmadas. De acordo com os depoimentos citados na reportagem, esse tipo de conteúdo aparece porque os dispositivos registram o ambiente ao redor do usuário quando determinadas funções são ativadas.

A Meta afirma que os óculos não realizam gravação contínua. De acordo com a empresa, as imagens são capturadas apenas quando o usuário inicia manualmente um registro ou quando utiliza recursos de inteligência artificial que dependem da câmera. Parte desse material pode ser utilizada posteriormente no treinamento de sistemas de reconhecimento visual.

Segundo reportagem, vídeos gravados pelo Ray-Ban Meta eram manipulados por humanos

Shutterstock

O que é gravado pelos óculos inteligentes da Meta?

Segundo os relatos citados na investigação do jornal SVD, os revisores humanos analisam diferentes tipos de cenas registradas pelos óculos inteligentes da Meta. De acordo com trabalhadores ouvidos pela reportagem, o material inclui registros do cotidiano dos usuários, como interações sociais, atividades domésticas e deslocamentos em espaços públicos.

O conteúdo analisado também pode incluir pessoas que não são usuárias do dispositivo e que aparecem nas imagens sem necessariamente saber que estão sendo filmadas. Como se trata de uma câmera vestível, os registros podem incluir pessoas que estão próximas ao usuário no momento da gravação, mesmo que elas não saibam que estão sendo filmadas.

Cenas cotidianas e íntimas eram gravadas, segundo denúncia

Divulgação/Ray Ban

O que diz a lei sobre casos do tipo?

Especialistas entrevistados pelo TechTudo afirmam que o episódio pode gerar questionamentos jurídicos relacionados ao tratamento de dados pessoais, especialmente quando as imagens envolvem terceiros ou situações de privacidade. Segundo a advogada da Comissão Especial de Privacidade e Proteção de Dados da OAB/SP Antonielle Freitas, cenas de nudez ou momentos privados são dados altamente sensíveis.

“Se os óculos registram pessoas nuas, em banheiro, se trocando ou em outros momentos de intimidade, estamos falando de dados altamente sensíveis e de situações em que existe uma expectativa clara de privacidade”, afirma.

A advogada explica que legislações como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) exigem que empresas adotem princípios como finalidade, necessidade e segurança no tratamento das informações. Caso conteúdos íntimos circulem internamente sem salvaguardas adequadas, autoridades reguladoras podem abrir investigações.

Outro ponto discutido envolve o consentimento. Para Freitas, aceitar termos de uso genéricos pode não ser suficiente em situações que envolvem acesso humano a vídeos pessoais. “Para algo tão sensível quanto permitir que terceiros assistam vídeos íntimos, o consentimento precisa ser muito claro, específico e destacado”, afirma.

Óculos inteligentes podem capturar imagens altamente sensíveis

Reprodução/Meta

O especialista em Privacidade e Proteção de Dados Marcelo Cárgano acrescenta que diferentes princípios da legislação de proteção de dados podem ser analisados dependendo do contexto. “A lei exige que a coleta e o tratamento de dados tenham uma finalidade legítima, específica e transparente. Se o uso das imagens vai além do necessário para o funcionamento do serviço, pode haver violação”, informa.

Segundo ele, a revisão por pessoas pode tornar a situação ainda mais sensível. A presença de revisores humanos assistindo aos vídeos amplia a percepção de exposição e pode influenciar a gravidade de eventuais sanções.

O que diz a Meta?

A Meta afirma que os Ray-Ban Meta Smart Glasses não realizam gravação contínua do ambiente ao redor do usuário. Segundo a companhia, os vídeos são registrados apenas em duas situações: quando o próprio usuário inicia manualmente a gravação ou quando ativa recursos de inteligência artificial que utilizam a câmera do dispositivo.

A empresa diz ainda que parte do conteúdo capturado pode ser usado para aprimorar seus sistemas de inteligência artificial. Nesse processo, amostras de vídeos podem ser analisadas por revisores humanos responsáveis para classificar os dados. Além disso, a big tech acrescenta que os dispositivos possuem indicadores luminosos para sinalizar quando a câmera está em uso.

Meta diz que óculos têm LED luminoso que indica gravação

Reprodução/Meta

Outras polêmicas envolvendo Ray-Ban Meta e privacidade

O debate sobre privacidade envolvendo os Ray-Ban Meta Smart Glasses já havia surgido em outras situações desde o lançamento do dispositivo. No Brasil, um dos casos mais comentados ocorreu quando o ator e humorista Paulo Vieira relatou ter sido gravado sem consentimento por uma pessoa que utilizava óculos inteligentes. O episódio circulou nas redes sociais e evidenciou a dificuldade de perceber quando alguém está registrando imagens com dispositivos vestíveis.

Além disso, o tema chegou ao processo eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu o uso de dispositivos capazes de capturar imagens dentro das cabines de votação nas eleições de 2026, incluindo óculos inteligentes com câmera, como forma de preservar o sigilo do voto.

Ator Paulo Vieira questionou limites de gravações sem consentimento com óculos inteligentes

Reprodução/Instagram

Também houve restrições ao uso desse tipo de equipamento em ambientes específicos. A companhia MSC Cruzeiros passou a proibir o uso de óculos inteligentes com câmera em seus navios, citando preocupações relacionadas à privacidade dos passageiros e ao risco de gravações em áreas sensíveis.

Cuidados no uso de óculos inteligentes

Os especialistas ouvidos pelo TechTudo acreditam que dispositivos com câmera integrada exigem atenção especial em relação à privacidade — tanto do próprio usuário quanto das pessoas ao redor. Segundo Antonielle Freitas, um dos principais cuidados é considerar que conteúdos registrados pelos óculos podem, em alguns casos, ser analisados por terceiros no contexto de treinamento de sistemas de inteligência artificial.

“Do ponto de vista do usuário comum, um cuidado importante é pressupor que o conteúdo pode ser visto por terceiros”, afirma. Isso significa evitar utilizar o dispositivo em momentos de nudez, em ambientes domésticos sensíveis ou em situações como consultas médicas e conversas confidenciais. A especialista também destaca que determinados locais, como banheiros, vestiários ou consultórios, têm expectativa clara de privacidade.

Freitas recomenda ainda revisar as configurações do dispositivo e limitar, quando possível, o envio automático de gravações para serviços em nuvem ou sistemas de treinamento de IA. Também pode ser útil apagar periodicamente vídeos que não tenham mais utilidade.

Já o diretor da Comissão de Direito Digital da OAB-MG, Victor Tales Carvalho, destaca que os usuários também precisam considerar o impacto sobre terceiros.

“O principal cuidado é ter consciência de que esses dispositivos podem capturar dados pessoais de outras pessoas sem que elas saibam”, afirma.

Especialistas explicam cuidados que devem ser tomados com os óculos inteligentes

Reprodução/Meta

Segundo o advogado, gravar imagens em ambientes privados ou situações sensíveis pode gerar responsabilidade jurídica se houver exposição indevida da imagem ou da privacidade de outras pessoas.

Marcelo Cárgano acrescenta que o usuário deve entender quais dados estão sendo coletados e como eles podem ser utilizados. Para isso, recomenda a leitura de termos de uso e políticas de privacidade antes de começar a utilizar o dispositivo.

O especialista também afirma que registrar imagens de outras pessoas sem consentimento pode trazer consequências jurídicas dependendo do contexto, especialmente quando envolve situações íntimas ou privadas.

Com informações de SVD, 9To5Mac e Apple Insider

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