'Culinária de favela é criatividade': Empreendedora de churros leva sabor e resistência ao Favela Gastronômica
Na cozinha, onde antes a necessidade falava mais alto, Andrezza Delfino encontrou caminho, renda e propósito. Moradora da comunidade Dois Irmãos, em Curicica, na Zona Oeste do Rio, a chef transformou a venda de churros, que era uma alternativa de sobrevivência, em um negócio que hoje atravessa bairros e conecta territórios periféricos por meio da gastronomia.
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Ao lado do companheiro, Jefferson Carneiro, Andrezza iniciou a trajetória empreendedora há nove anos. A ideia inicial era vender churrasco, mas foi durante pesquisas que ela encontrou nos churros a possibilidade de inovar e também de se reinventar.
Hoje à frente do Delírios Churros Gourmet, o casal atua em diferentes frentes: eventos, festas, atendimento ambulante e até fornecimento de massa para outros estabelecimentos. A marca circula principalmente por comunidades da Zona Norte e também pela Zona Oeste do Rio, ampliando o alcance de um negócio nascido na favela.
— Durante o processo eu me apaixonei pelos churros. Começamos do zero, vendendo na rua, nas pracinhas, e já no primeiro mês tivemos um retorno muito positivo. Isso abriu portas para festas e eventos e desde então nunca mais paramos — relembra.
É essa potência que ela leva para a terceira edição do Favela Gastronômica, que acontece nos dias 11 e 12 de abril, na Praça de Inhaúma, na Zona Norte do Rio. O evento reúne chefs de diferentes favelas da cidade em um grande encontro que celebra cultura, música e culinária periférica. Com entrada gratuita, o festival será realizado das 11h às 21h.
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A cozinha que veio da infância
A relação de Andrezza com a cozinha, no entanto, vem de antes do empreendedorismo. Ainda criança, ela aprendeu a cozinhar com a mãe e a avó, referências que moldaram não só o paladar, mas também a forma de enxergar a comida como afeto e responsabilidade.
— Minha mãe trabalhava fora, então eu precisava cuidar das minhas irmãs. A cozinha acabou sendo uma responsabilidade, mas também virou um espaço de aprendizado e conexão. Com o tempo, aquilo que começou por necessidade se transformou em amor — afirma.
Esse atravessamento entre memória, cuidado e criação também se reflete na forma como a chef define a gastronomia periférica.
— A comida de favela é criatividade, resistência e identidade. É transformar ingredientes simples em experiências incríveis. É sobre afeto, sobre comunidade, sobre fazer com amor mesmo quando falta recurso.
Mais do que um evento, o Favela Gastronômica se consolida como vitrine para iniciativas que movimentam a economia local e fortalecem redes dentro dos territórios. Para Andrezza, estar entre os nomes que compõem essa edição é também reafirmar o valor de uma gastronomia que nasce da vivência e da coletividade.
— É extremamente importante ocupar esses espaços, porque mostra que a favela também é potência, também é talento e também merece visibilidade. Quando a gente ocupa, abre caminho para muitos outros — declara.
