Cuba prepara população para a guerra enquanto EUA apertam cerco e fecham a válvula do petróleo: ‘Uma nação em colapso’
O governo cubano intensificou nos últimos dias a retórica de mobilização nacional e os preparativos internos diante do agravamento das tensões com os Estados Unidos, que atingem o nível mais alto desde a Crise dos Mísseis de 1962. Em Havana, exercícios militares passaram a ocupar espaço nos noticiários estatais, enquanto autoridades falam abertamente em uma eventual “guerra em todo o território”, com participação da população civil.
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O clima foi reforçado após declarações feitas em uma reunião na Embaixada dos EUA em Havana. Segundo testemunhas à CNN, o encarregado de negócios americano, Mike Hammer, disse a diplomatas e funcionários locais que deveriam arrumar as malas. Em seguida, afirmou que, embora Cuba reclame há décadas do embargo econômico de Washington, “agora haverá bloqueio de verdade”, com corte total do fornecimento de petróleo à ilha.
— Nada vai entrar. Não vai chegar mais petróleo — disse.
A pressão americana se intensificou após a captura do então presidente da Venezuela Nicolás Maduro por forças dos EUA, no início de janeiro, em uma operação que matou 32 militares e agentes de inteligência cubanos que atuavam na proteção do líder venezuelano. Mais de 100 venezuelanos e cubanos morreram na ação, que levou Maduro a um tribunal federal nos Estados Unidos para responder a acusações de tráfico de drogas, negadas por ele.
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A queda de Maduro retirou do poder o principal aliado político de Havana e interrompeu o fornecimento de petróleo venezuelano, responsável por mais de um terço das necessidades energéticas de Cuba. Desde então, apagões prolongados tornaram-se rotina na ilha, postos de combustíveis passaram a registrar filas de dias — e até semanas — e emissoras de rádio e televisão nas províncias suspenderam transmissões por falta de energia.
— Se a válvula do petróleo for realmente fechada, Cuba enfrenta um colapso econômico iminente. Sem petróleo, não há economia — disse à CNN o analista de energia Jorge Piñon, acrescentando: — Um furacão está chegando.
Novas ameaças
O endurecimento da política de Washington foi formalizado nesta semana, quando o presidente Donald Trump assinou um decreto autorizando a imposição de tarifas a países que forneçam — direta ou indiretamente — petróleo a Cuba. O texto determina que o governo americano identifique os fornecedores da ilha e avalie a aplicação de taxas adicionais sobre seus produtos exportados aos Estados Unidos.
Na ordem, Trump afirmou que as ações do governo cubano “constituem uma ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional americana, citando o alinhamento de Havana com países considerados hostis, o apoio a grupos classificados como terroristas, a repressão a opositores políticos e a corrupção. Em publicação nas redes sociais, o presidente foi direto: “NÃO HAVERÁ MAIS PETRÓLEO OU DINHEIRO INDO PARA CUBA — ZERO!”, escreveu.
— Cuba é uma nação em colapso, e é preciso sentir pena de Cuba — disse o republicano na noite de quinta-feira. — Eles trataram as pessoas muito mal. Muitos cubanos-americanos foram maltratados e provavelmente gostariam de voltar. Não acho que Cuba vá sobreviver.
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A mais recente ameaça de Trump volta a colocar o México, principal parceiro comercial dos EUA — e maior fornecedor externo de petróleo à ilha desde a queda de Maduro —, na mira. No início do mês, o governo mexicano recuou de planos para enviar um carregamento de petróleo bruto a Cuba. A presidente Claudia Sheinbaum afirmou que a decisão foi “soberana”, ao mesmo tempo em que declarou que seguirá demonstrando “solidariedade” aos cubanos.
Cenário ‘preocupante’
Enquanto o cerco econômico se fecha, o governo de Miguel Díaz-Canel reforça o discurso de resistência. Em imagens exibidas pela televisão estatal, soldados treinam civis para repelir uma eventual invasão. Durante uma demonstração militar com tanques e helicópteros da era Guerra Fria, o presidente diz a oficiais de alta patente que “a melhor forma de evitar qualquer tipo de agressão é que os imperialistas tenham de calcular qual seria o preço a pagar”.
No cotidiano, porém, o impacto da crise energética se espalha por toda a ilha. Apagões de várias horas deixam bairros inteiros às escuras, e alimentos estragam rapidamente. Dirigir na cidade tornou-se mais perigoso, já que semáforos frequentemente não funcionam em cruzamentos importantes. Em postos que vendem combustível em dólares, um tanque cheio chega a custar US$ 52 (R$ 270) — mais do que a maioria dos cubanos ganha em um mês.
— É realmente preocupante. Quando a luz acaba, a comida estraga. O que você comprou há um mês apodrece em dois ou três dias — disse o fotógrafo Dairon Blanco Urra, relatando à CNN que sua maior preocupação em meio aos apagões é a queda da já instável conexão de internet, o que o impede de enviar fotos a clientes. — Tenho de esperar quatro ou cinco horas para voltar, e isso me impede de avançar no trabalho. Como vou ganhar a vida assim?
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Movimento venezuelano
Enquanto isso, a Venezuela aprovou uma mudança na lei que facilitará a participação de empresas estrangeiras na indústria de petróleo do país, em uma iniciativa de Caracas para atender às exigências de Trump. A reforma, apoiada pela presidente Delcy Rodríguez, vai abrir o setor petrolífero venezuelano — controlado pela estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) — e permitir que empresas estrangeiras administrem campos de petróleo por sua conta em risco.
— Esta lei nos permite dar um salto qualitativo histórico para transformar as maiores reservas de petróleo do planeta na maior felicidade possível para o povo venezuelano — afirmou Delcy durante um evento que celebrou a aprovação da medida.
O presidente da Assembleia, Jorge Rodríguez, irmão da presidente interina, afirmou que a reforma vai “impulsionar o setor energético e promover a produção em campos ainda não desenvolvidos”. O Legislativo venezuelano aprovou por unanimidade a reforma na tarde de quinta-feira. Agora, o texto precisa ser sancionado e publicado para entrar em vigor.
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A aprovação da nova lei ocorreu no mesmo dia em que o governo Trump flexibilizou parcialmente sanções contra o setor petrolífero venezuelano, ao autorizar empresas americanas a realizar determinadas operações ligadas à exportação, compra, venda e transporte de petróleo do país. Washington deixou claro, desde a captura de Maduro, que deseja a entrada de companhias dos EUA no setor energético venezuelano.
— Cidadãos americanos poderão, muito em breve, ir à Venezuela, e estarão seguros lá — disse Trump. — [O país] está sob um controle muito forte. (Com Bloomberg)
