Cuba acusa os EUA de extorquir países latino-americanos para asfixiar ilha
Cuba acusou nesta quinta-feira os Estados Unidos de “extorquir” países da América Latina e do Caribe para cancelarem seus acordos de cooperação médica com Havana com o objetivo de “asfixiar” a economia da ilha. O envio de brigadas médicas ao exterior constitui a principal fonte de entrada de divisas (atividades, setores ou produtos que geram entrada de moeda estrangeira em um país), aumentando as reservas cambiais do governo de Cuba, com 7 bilhões de dólares (R$35,5 bilhões na cotação atual) em 2025, segundo números oficiais.
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Só no ano passado, cerca de 24 mil médicos e outros profissionais cubanos de saúde trabalhavam em 56 países. Mas, nos últimos meses, Guatemala, Honduras, Jamaica e Guiana encerraram esses acordos que, em alguns casos, permitiram o envio de pessoal de saúde cubano por mais de 25 anos.
— O governo dos EUA persegue, pressiona e extorque outros governos para pôr fim à presença das Brigadas Médicas Cubanas em diversos países, sob pretextos enganosos — afirmou o chanceler cubano Bruno Rodríguez na rede X.
O chefe da diplomacia cubana destacou: “os objetivos do governo americano e da campanha diplomático-midiática que conduz são continuar cercando a economia cubana e cortar fontes de renda legítimas para asfixiar o povo de Cuba”.
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O governo do presidente Donald Trump aplica uma política de “pressão máxima” contra Cuba, que impede as exportações de petróleo para a ilha depois que forças americanas derrubaram, no início de janeiro, o presidente Nicolás Maduro, até então o maior aliado de Havana, e ameaça com sanções os países que enviem petróleo a Cuba. Essa medida aprofundou a crise econômica e energética em Cuba, que sofre frequentes e prolongados apagões.
Na semana passada, Trump abriu uma exceção ao permitir que um petroleiro russo entregasse 730 mil barris de petróleo à ilha, o primeiro carregamento que chegou ao país em três meses. O presidente republicano não esconde seu desejo de uma mudança de regime em Cuba, localizada a apenas 150 km dos Estados Unidos. Segundo Washington, a ilha representa uma “ameaça excepcional” por suas estreitas relações com Rússia, China e Irã.
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'Trabalho forçado'
Rodríguez se manifestou depois que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) publicou na terça-feira um relatório que denuncia graves violações de direitos humanos nas missões médicas internacionais de Cuba, como retenção de salários dos participantes, ameaças de penas de prisão de até oito anos para quem as abandone ou confisco de passaportes.
Em entrevista à AFP, o presidente da CIDH, Edgar Stuardo Ralón, afirmou que existem elementos para classificar como “trabalho forçado” e “tráfico de pessoas” várias práticas realizadas nesse programa.
— É uma situação de desproteção dramática que ignora o conceito de trabalho e tratamento dignos, como se (os participantes) fossem tratados de maneira totalmente abusiva, obrigados a seguir regras, transformados em entidades que não têm o mínimo inerente a toda pessoa — acrescentou Ralón.
De acordo com estatísticas oficiais cubanas citadas no relatório da CIDH, os profissionais da ilha recebem apenas entre 2,5% e 25% do que os países receptores pagam a Cuba pelos serviços médicos. Como consequência, o pessoal envolvido “não disporia de uma remuneração que lhes permita subsistir dignamente” nem “cobrir os custos básicos de vida”, assinala a Comissão.
O chanceler cubano insistiu que as brigadas médicas de seu país “realizam trabalhos solidários em locais de difícil acesso; ajudam no desenvolvimento de sistemas de saúde com recursos humanos experientes; e seu pessoal é contratado de forma voluntária, legal e soberana”, sob normas internacionais.
Em meio ao aumento das tensões entre Cuba e Estados Unidos, os dois países mantêm um diálogo que está em um estado “muito preliminar”, segundo disse na segunda-feira à AFP a vice-chanceler cubana Josefina Vidal, figura-chave no restabelecimento das relações bilaterais em 2015.
