O Cahier de L’Herne é uma publicação francesa dedicada a autores consagrados.
Em maio de 2022, meses antes de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, Annie Ernaux foi tema de um cahier e trouxe uma carta que ela recebeu de Simone de Beauvoir em 1974.
A jovem autora tinha acabado de publicar “Os armários vazios”, seu livro de estreia, que só agora ganha a primeira edição brasileira.
Beauvoir diz: “É normal ser incompreendida quando se escreve um livro voluntariamente um pouco ambíguo”.
Contudo, também afirmava esperar que isso não desanimasse Ernaux, porque, acreditava Simone, ela tinha “algo a dizer e muito talento”.
“Falo muito de seu romance”, finalizou Beauvoir.
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Ernaux já citou o quanto a leitura de “O segundo sexo”, quando tinha 18 anos, em 1958, foi para ela uma espécie de “revelação”, enraizando em si um “feminismo vibrante, que foi reforçado pelas condições de meu aborto clandestino”.
A própria Ernaux parece também reconhecer essa ambiguidade citada por Beauvoir.
Em seu primeiro trabalho literário, ainda não adotava o estilo autossociobiográfico que a consagraria a partir de “O lugar”, de 1983.
Além disso, Ernaux declarou acreditar, na época, estar “entrando mal, de maneira suja e incorreta” na literatura, zombando de sua família e se colocando numa “zona perigosa”, como declarou a Frédéric-Yves Jeannet em “A escrita como faca e outros textos”.
Mas foi com essa revolta descrita na obra que, ao mesmo tempo, Ernaux relata ter tomado “gosto” pela escrita e percebido ter algo a dizer.
Em “Os armários vazios”, a protagonista não é a autora, como em obras seguintes, e sim uma personagem chamada Denise Lesur, universitária que, grávida, está na casa de uma “fazedora de anjos” — nome dado às mulheres da época que ajudavam outras a abortarem clandestinamente na França.
O aborto foi descriminalizado no país em 1975 com a Lei Veil e, desde 2024, é direito da mulher na Constituição francesa.
Denise está ali para inserir uma sonda que provoque a expulsão do embrião.
Mesmo sendo uma peça de ficção, impossível não relacionar a cena ao que Ernaux relata anos depois em “O acontecimento” (2000), sobre sua experiência de aborto clandestino em 1963-1964.
Denise tem muita raiva e relaciona a gravidez indesejada à sua origem social, que vai sendo lembrada por ela ao longo da obra.
Os pais são donos de um café-mercearia, outro ponto em comum com os de Ernaux.
Lidavam com clientes bêbados, escandalosos.
Banho? A criança Denise só tomava uma vez por semana, aos sábados, “de pé na bacia de água com sabão que servia para lavar o corpo, os dentes, o negocinho, tudo na mesma água, sem enxaguar.
E minha mãe ainda usava essa água para esfregar o chão na segunda-feira seguinte, por causa do sabão dissolvido nela”.
Capa de 'Os armários vazios'
Divulgação
Mas é só quando Denise vai para uma escola particular, no ginásio, que ela percebe o mundo do qual veio, se envergonha e tenta romper com ele.
Ao sofrer bullying das meninas mais ricas, se compara com elas.
Eram “dois mundos” e atesta: “Com certeza minha casa é um circo.” Aos poucos, pelos estudos, vai percebendo de onde vem o abismo social entre ela, sua família e os colegas, professores, autores que lê.
Desenvolve um “pavor insano de se parecer com eles, meus pais”.
A Denise universitária e grávida, que aparece no livro relembrando sua trajetória, tem insights: numa cena diz achar que, embora as meninas da escola provavelmente nunca se expusessem como ela a uma fazedora de anjos, também não frequentariam, como ela, a universidade.
Excelente aluna, foi para a universidade como bolsista e ali, por exemplo, tomou banho de chuveiro pela primeira vez.
A educação que traz a revolta à tona também a faz “viver num mundo mais bonito, mais puro, mais rico (...) Tudo feito de palavras”.
Os leitores de Ernaux percebem muitas semelhanças entre o que é vivido e sentido pela Denise fictícia e pela Annie que mais tarde escreveria sobre sua vida e seus conteúdos.
Afinal, isso é o que sempre a interessou.
O aborto não é tratado de forma tão explícita como em “O acontecimento” e seus detalhes incômodos, revelados como episódios de transgressão e sacrifício.
Ali, a intenção de Ernaux é clara: chocar para que uma história superada (pelas leis, mas nunca por ela) seja contada para que nunca mais reine o silêncio sobre as violências sofridas pelo corpo.
Em “Os armários vazios”, Denise ainda desconhece as armas que tem, mas tem raiva, e é aí que se vê a força da literatura ernausiana.
Uma literatura que, como ela mesma disse em seu discurso ao ganhar o Nobel, tem como intenção “vingar” sua “raça” — a raça sendo as pessoas que compartilham de sua origem social.
Ernaux disse querer “escrever para entender os motivos dentro e fora de mim que tinham me distanciado de minhas origens”.
Ler “Os armários vazios” ajuda a entender muitos dos temas que mais tarde comporiam sua teia literária.
Mariana Timóteo é jornalista e mestra em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB)
Crítica: Primeiro romance de Annie Ernaux, que só agora ganha edição brasileira, mostra a força de sua narrativa
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