CrĂ­tica: Harry Styles encara a maturidade e acerta em disco fiel a si mesmo

 

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Aos 32 anos, jĂĄ bem distante dos tempos de One Direction, o cantor inglĂȘs Harry Styles nĂŁo Ă© mais nenhum garotinho. Ao mesmo tempo, ele Ă© um desses pop stars que se contam nos dedos de uma mĂŁo capazes de arrastar multidĂ”es — de crianças, adolescentes, adultos — para os estĂĄdios. Diante do desafio de um quarto ĂĄlbum solo, Styles parece ter escolhido a mais arriscada opção: ser fiel a si mesmo.

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“Kiss all the time. Disco, ocasionally”, que chegou esta sexta-feira ao streaming, cercado de expectativas, Ă© a perfeita expressĂŁo de quem tardia, mas serenamente, foi levado a reconhecer e enfrentar as encruzilhadas que a idade pĂŽs no caminho. E que, como o prĂłprio sobrenome faz supor, encarou a tarefa com um bocado de estilo.

O ĂĄlbum abre exatamente com “Aperture”, o single-aperitivo que ele lançou em janeiro. Um bem-vindo casamento de vulnerabilidades, mĂșsica pulsante das pistas de underground e elegantes referĂȘncias do rock e da mĂșsica eletrĂŽnica, a faixa entrega o tom geral do disco (embora haja mais coisas nele) e prepara o ouvinte para esse novo Harry Styles, que desfila pelas outras 11 cançÔes do disco.

“American girls” (mais lenta e introspectiva, embora igualmente tocada pelo espĂ­rito do pop alternativo) e “Ready, steady, go” (eletropop oitentista com violĂŁo, na medida para o crooner dar o seu recado sensual) vĂŁo aquecendo lentamente o disco, que entra definitivamente na pista de dança em “Are you listening yet”, com seu groove sĂłlido, letra com pegada de rap (“se vocĂȘ insiste em participar de um movimento / certifique-se de que haja dança”) e batuques ferozes de Tom Skinner, baterista do grupo The Smile (com Thom Yorke e Jonny Greenwood, do Radiohead).

Capa do ĂĄlbum “Kiss all the time. Disco, occasionally”, do cantor inglĂȘs Harry Styles

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Doce, com violĂŁo e um sentimento que se poderia dizer sessentista (apesar das eletrĂŽnicas), “The waiting game” leva o disco pelo caminho de uma sofisticação que se concretiza, de fato, em “Coming up roses”, balada com cordas camerĂ­sticas — a apoteose da beleza desse disco, que mantĂ©m o seu carĂĄter predominante em reflexivas faixas para a pista, como “Season 2 weight loss” (de beats expansivos, mas, no geral, controlada) e “Taste back”.

A certa altura, “Kiss all the time. Disco, ocasionally” faz um desvio mais brusco para a diversidade. “Pop”, meio perversa e com agressiva linha de teclados que poderia estar numa faixa do Depeche Mode, traz os questionamentos mais filosĂłficos de Harry Styles (“serĂĄ que estou me metendo em algo maior do que eu consigo lidar? / isso pode dar em qualquer coisa / eu faço, faço de novo/ Ă© para ser pop”). E em “Dance no more”, ele investe no departamento funky com graça suficiente para nĂŁo fazer feio diante da herança de Prince e Justin Timberlake (â€œĂ© como se a mĂșsica tivesse sido enviada dos cĂ©us / e nĂŁo houvesse diferença entre lĂĄgrimas e suor”).

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Um responsĂĄvel compromisso com o pop clĂĄssico se faz notar novamente em “Kiss all the time. Disco, ocasionally” na faixa “Paint by numbers”, uma muito bem executada balada de violĂŁo, com letra cheia de ironias (“foi uma tragĂ©dia quando vocĂȘ disse a ela que nĂŁo nem tenho trinta e trĂȘs anos?”, pergunta-se o cantor).

E o disco termina com a esperançosa “Carla’s song”, canção que se insere na sonoridade geral do ĂĄlbum, mas traz de bĂŽnus aquela eletrizante qualidade de hits do U2 e Coldplay e uma letra sagaz (“vocĂȘ tem sido um bebĂȘ dormindo sobre uma barra de chocolate / atĂ© seus olhos se abrirem para a luz cambiante do verĂŁo”).

Como as cançÔes desse disco vĂŁo se conjugar no show da nova turnĂȘ (que passa por SĂŁo Paulo em julho) ao lado de hits como “As it was” e “Watermelon sugar” Ă© um mistĂ©rio — nĂŁo no sentido da aflição, mas no da alegria com as possibilidades. Para o ouvinte, o que mais importa Ă© que Harry Styles apostou que seu pĂșblico amadureceria junto com ele e fez um disco bem coerente, com texturas, refrĂ”es, referĂȘncias, timing e uma sonoridade vibrante e clara para o diĂĄrio (escrito, muitas vezes, em cĂłdigo) das descobertas e jogos amorosos de um jovem adulto.

Cotação: Ótimo