Crítica: Ficção científica bem-humorada,

Crítica: Ficção científica bem-humorada, 'Zumbido' mira mundo louco em que vivemos

Fonte: Bandeira da fonte

Em um mundo pós-pandemia, imagine se ao menos um terço das pessoas ao redor do mundo passassem a escutar um zumbido insistente.
É essa a premissa do livro “Zumbido”, de Vinícius Portella (autor do ótimo “A Grande Porção de Lixo do Pacífico e outros contos”, de 2024).
Nascido em Brasília, o escritor é também editor e já publicou artigos acadêmicos sobre cultura e tecnologia, além de um livro de contos e outros dois romances.
Agora, em seu novo livro, o zumbido é definido como “uma vibração de baixa frequência, às vezes trêmula e fraca, às vezes mais forte e rápida.
Ciciado insistente murmurando, conseguia de algum jeito parecer ao mesmo tempo grave e fininho, pequena enxaqueca do tamanho do mundo, a martelar os tímpanos, castigar as têmporas.
Muriçoca teimosa zunindo invisível no fundo de tudo”, conforme escreve o autor.
"Zumbido", de Vinícius Portella
Divulgação
A obra acompanha os desdobramentos desse fenômeno, mas de um ponto de vista científico, fazendo a ação se passar no Brasil, mais especificamente na cidade de Ressaquinha, em Minas Gerais, uma das cinco zonas do mundo onde o som é mais intenso.
Dois grupos de pesquisa viajam para o local: um representando países do Norte Global, como Itália, França, Inglaterra e Japão, e retratado na narrativa principalmente pelo americano Mark; e o outro, de países do Sul Global, como Irã, Índia e China, centrado na figura da brasileira Rosana.
Logo no início da narrativa entendemos que a crise do zumbido é também uma crise política e de informação.
O romance entre Mark e Rosana, por exemplo, ocorre em segredo — não apenas pelo fato de Rosana ser casada, mas por estarem alinhados a comitês diferentes, como Romeu e Julieta distópicos.
Ao longo da história, entendemos mais sobre a política global e acompanhamos os pesquisadores na busca incessante por respostas.
Em certo ponto, a ficção científica dá lugar à investigação sobre o que é o zumbido e de onde ele vem.
É curioso notar que, tanto no romance quanto em seu artigo científico, Portella cita o exemplo real de um ruído percebido por radiotelescópios em 1964.
No começo, os físicos não entendiam o que era aquele som captado e chegaram a limpar o equipamento, achando que pudesse ser alguma interferência.
Depois, descobriram que se tratava de “radiação cósmica de fundo em micro-ondas (...) Rastro do Big Bang.
A luz mais velha do universo”, segundo um pesquisador explica a Rosana enquanto teoriza que o zumbido pode significar algo maior.
Ecos ambientais
É possível notar o subtexto ecológico no livro de Portella desde o início da história.
Enquanto os governantes travam uma verdadeira guerra fria de acusações envolvendo o impacto da ação humana no planeta, o zumbido aproxima as pessoas que o escutam, mas logo se torna um assunto saturado para o restante da população.
“E não era de se surpreender que tantos seguissem pouco emocionados com aquela bizarrice, alternando entre a descrença e a impaciência diante de uma situação que lhes parecia invisível e irrelevante”, afirma o narrador em terceira pessoa logo no primeiro capítulo.
Nesse sentido, a obra aponta para a mesma direção de outras ficções científicas nas quais um evento sem explicações aparentes passa a intervir na rotina das pessoas como forma de alerta.
Alguns exemplos recentes disso são “Quando os prédios começaram a cair”, de Mauro Paz, em que desabamentos inexplicáveis desfiguram cidades ao redor do mundo; “O silêncio”, de Don DeLillo, que retrata um apagão tecnológico em todo o planeta; e “A extinção das abelhas", de Natalia Borges Polesso, em que a morte desses insetos é um prenúncio de problemas ambientais.
O mérito de todos esses livros, e agora também de “Zumbido”, é falar sobre o inimaginável, como afirma Ana Rüsche em seu livro “Quimeras do agora”, que investiga as relações entre literatura e Antropoceno: “uma das grandes questões da crise climática é a escala do acontecimento.
Parece inimaginável.
Assim, uma das colaborações da literatura e das outras artes é justamente fornecer imaginários possíveis para dar conta de introjetarmos o que se passa”.
Nesse sentido, o fato de a história do livro de Portella trazer o conhecimento científico para o Brasil pode ser visto como uma metáfora de ação que nosso país pode tomar como agente na crise climática, e não apenas como mero expectador.
Bruna Meneguetti é jornalista e escritora
Livros: Quatro lançamentos da semana (29/8/2026)