Crítica: Em São Paulo, ouvi Jorge Drexler. No Circo Voador, fui levado por ele
No meio de uma das músicas mais bonitas do show do uruguaio Jorge Drexler, que lotou a casa da Lapa na noite da última quarta, um ventilador industrial do Circo Voador soprava sem descanso perto do meu ouvido. Não era exatamente uma interferência sutil. Havia também gente se espremendo, latas passando de mão em mão, celulares erguidos, corpos disputando centímetros e aquele tipo de calor que transforma qualquer tentativa de contemplação em exercício de resistência. Cinco dias antes, em São Paulo, num Espaço Unimed também com ingressos esgotados, eu tinha ouvido basicamente o mesmo show sentado, confortável, com acústica impecável, vendo cada músico no palco e podendo perceber, com nitidez quase clínica, as delicadezas da banda que acompanha Drexler na turnê de Taracá.
Foi no meio do ventilador, curiosamente, que eu entendi melhor o show.
Não sou crítico musical, nem pretendo fingir que sou. Sou apenas um espectador razoavelmente obsessivo, desses que gostam de show como gostam de jogo, de bar, de rito coletivo. Gosto de ver uma banda bem montada, gosto de reconhecer quando um espetáculo foi pensado com inteligência, gosto de perceber quando um artista sabe exatamente o que está fazendo. E Drexler, muito mais do que a maioria dos compositores de sua geração, parece saber exatamente o que está fazendo até quando se permite perder um pouco o controle.
"Taracá", seu disco mais recente, é um retorno ao Uruguai, ao candombe, à roda, ao tambor, a uma ideia de pertencimento que não cabe apenas na geografia. É um álbum sofisticado, mas fincado na terra; cerebral, mas conduzido pelo corpo. Não por acaso, no palco, Drexler não aparece sozinho com suas canções. Ele vem cercado por músicos de Montevidéu, Valência ou Barcelona, que ajudam a transformar aquele repertório numa espécie de organismo vivo. Há percussões que parecem conversar com a memória, acordes que entram como comentários, vozes que ampliam as melodias, e uma gama de jovens musicistas que, além de tocar com precisão luminosa, cantam de um jeito que às vezes parece deslocar o centro emocional da apresentação.
Em São Paulo, tudo isso apareceu com uma clareza rara. O Espaço Unimed oferecia ao show a moldura ideal: som limpo, palco grande, silêncio respeitoso, público sentado, iluminação precisa, telões, tempo. Ate para leigos como eu, era possível escutar a arquitetura das músicas, perceber a beleza dos arranjos e o encaixe dos instrumentos. Foi um show bonito, elegante, tecnicamente superior. Um show para ouvir Drexler.
Mas havia ali também uma passividade inevitável, provavelmente o preço do conforto. A plateia admirava mais do que participava. Recebia mais do que devolvia. A música chegava inteira, perfeita, intacta. E por isso mesmo um pouco protegida demais do mundo. Era como observar um vinho excelente na taça e temperatura correta. Nada a reclamar. Quase tudo a elogiar. Mas nem sempre a perfeição deixa espaço para o acontecimento.
No Rio, aconteceu o contrário.
O Circo Voador não é só uma casa de shows; é uma entidade. Tem algo naquele vão aberto sob os Arcos da Lapa que muda a temperatura das coisas. O som pode não ser sempre o mais perfeito, o corpo pode cansar, a vista pode ser interrompida, o ventilador pode invadir um romance latino delicado sem pedir licença. Ainda assim, e também por isso, há ali uma sensação de risco que poucas casas preservam. O Circo não enquadra o artista. O Circo o convoca.
Um bastidor: aquele show quase não aconteceu ali. A turnê brasileira de "Taracá" havia sido anunciada primeiro em São Paulo, Porto Alegre e Curitiba, num formato muito mais próximo do esperado para um espetáculo daquele porte. O Rio veio depois. E veio porque Drexler quis o Circo. Depois de ouvir durante anos relatos de músicos amigos sobre a energia daquele lugar — e de já ter sentido um pouco disso numa participação em um show de Caetano Veloso ali mesmo — ele pediu para tocar naquele palco.
O Circo não era uma adaptação da turnê ao Rio. Era também parte da experiência que o artista procurava.
Frequento o Circo Voador desde que me mudei para o Rio, há quinze anos, e há muito tempo tenho a impressão de que, nas noites mais especiais, os músicos em algum momento se entreolham no palco como quem percebe que algo diferente está acontecendo ali. Não exatamente pela estrutura, nem pelo conforto, nem mesmo pela acústica — outras casas da cidade entregam tudo isso melhor. Mas pela sensação de combustão coletiva que aquele lugar produz.
E foi curioso perceber isso de novo no show de Drexler.
Algumas coisas pertenciam claramente ao roteiro. O uruguaio, por exemplo, repetiu nos dois shows o gesto de se ajoelhar diante da plateia ao receber os aplausos finais. Mas outras escapavam dele. Pequenos sorrisos involuntários, olhares trocados entre os músicos, certa surpresa diante da resposta do público. Havia algo acontecendo ali que parecia maior do que a execução perfeita do espetáculo.
Drexler pareceu entender isso desde o início. Errou mais no Rio. Letra, tempo, entradas. Em alguns momentos, especialmente nas canções em que voz, às vezes violão, e sempre palavra precisam correr juntos com a precisão de uma engrenagem, a energia da plateia parecia atravessar a execução. Mas esses pequenos tropeços não diminuíram o show. Pelo contrário. Tornaram Drexler mais humano, mais presente, mais disponível. Em São Paulo, ele parecia conduzir uma apresentação. No Circo, parecia ser levado por ela.
É uma diferença sutil, mas decisiva. Em São Paulo, a turnê de "Taracá" foi apresentada em sua melhor forma. No Rio, ela foi testada contra o calor do mundo. E venceu de outro jeito.
Houve um momento especialmente revelador. Em São Paulo, Drexler desceu do palco, caminhou pelo público apertado entre mesas e cantou no meio da plateia, num mini palco montado. Foi bonito, e a capela de “Otro Lado del Río”, o momento mais emocionante daquela noite fria na Barra Funda, deu certo justamente porque rompeu por alguns minutos a distância confortável entre artista e espectadores.
No Circo, imaginei que ele não repetiria o gesto. A casa, em pé, cheia, quente, parecia pouco propícia a essa engenharia delicada. Ele repetiu.
E, ao atravessar a multidão, parecia descobrir uma segunda camada do próprio show.
Não era mais apenas uma cena pensada para aproximar palco e plateia. Era uma travessia real. O artista no meio do povo, sem a proteção completa da estrutura, cercado por vozes, mãos, suor, celulares, afeto e desordem. Ali, a capela não soava como recurso cênico, mas como aposta. Como se a música, despida por alguns minutos de quase tudo, precisasse confiar no ambiente para continuar existindo.
Talvez por isso o repertório, quase o mesmo, tenha produzido sensações tão diferentes. Em São Paulo, a banda soava melhor. No Rio, respirava mais. Em São Paulo, as musicistas brilhavam pela precisão e pela elegância com que ocupavam seus espaços dentro de um conjunto muito bem equilibrado. No Rio, pareciam também reagir a alguma coisa que vinha de fora do palco.
Há uma tentação fácil de transformar isso em mais um capítulo da velha oposição entre Rio e São Paulo: a cidade da ordem contra a cidade da quentura, a plateia sentada contra a multidão em pé, o espetáculo bem servido contra a festa imperfeita. Seria injusto e preguiçoso. O show de São Paulo foi excelente. Em muitos aspectos, foi melhor. Melhor som, melhor estrutura, melhor condição de escuta. Se alguém quisesse entender tecnicamente a turnê de "Taracá", deveria ter estado lá.
Mas o show do Rio tocou em outra pergunta: o que faz uma apresentação ao vivo ser inesquecível?
Não é apenas ouvir bem. Existe uma dimensão do show que não cabe na ficha técnica nem na acústica perfeita. É a sensação de que algo irrepetível aconteceu naquela noite e naquele lugar, com aquelas pessoas. A sensação de que o artista não apenas executou uma obra, mas foi modificado por ela diante do público.
Drexler é um compositor de inteligência rara. Suas músicas frequentemente parecem nascer de perguntas: sobre o amor, o tempo, a identidade, o acaso, o corpo. Em "Taracá", essas perguntas encontram o tambor, a roda, a ancestralidade afro-uruguaia, uma ideia de comunidade. Por isso o Circo fez tanto sentido. Porque ali o disco deixou de ser apenas um retorno às raízes e se tornou, por algumas horas, uma experiência física de pertencimento.
O show do Rio durou meia hora a menos no relógio físico. Ainda assim, pareceu maior. São Paulo ofereceu mais contemplação, mais acabamento, mais nitidez. O Rio ofereceu urgência. Às vezes, a intensidade encurta o tempo e aumenta a memória.
Saí de São Paulo admirando a turnê. Saí do Circo tomado por ela.
Eis a diferença. No Espaço Unimed, eu ouvi Jorge Drexler com a nitidez que sua música merece. No Circo Voador, vi Jorge Drexler aceitar que uma canção, quando encontra uma multidão, pode deixar de pertencer inteiramente ao seu autor.
A perfeição é linda. Mas a presença, quando acontece, é imbatível.
