Crítica: 'Days of ash', do U2, deixa Bono e companhia com a consciência limpa, mas os fãs mereciam mais
O U2 bateu ponto na sua cruzada pelos direitos humanos ao lançar de surpresa, na última quarta-feira (18), o EP “Days of ash”, sua primeira coletânea de músicas autorais desde 2017. São seis faixas que versam sobre guerra e paz, homenageando vítimas de conflitos violentos mundo afora. Embora o trabalho tenha chegado sem aviso, o teor de protesto das canções não é surpresa para ninguém. Desde “War” (1983), um dos melhores discos da banda irlandesa, a caneta de Bono sempre foi uma espécie de megafone em prol dos fracos e oprimidos, e é ótimo que assim seja. A arte sempre esteve mesmo a serviço da manifestação sociopolítica. Tudo certo. Mas canções de protesto sempre podem soar piegas, é um risco que se corre, ainda que seja marca registrada de seus autores a luta sincera por um mundo melhor. Quando não acompanhadas de melodias criativas, boas sacadas sonoras, quando priorizam o discurso deixando a inventividade musical de lado, viram chatice panfletária. É o que acontece aqui, em alguma medida, com “Days of ash”.
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Ninguém duvida das boas intenções de Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. O mundo agradece. É louvável, aliás, a coerência do grupo que sempre se posicionou do lado certo da História — ainda que certo, muitas vezes, seja um conceito relativo. Papo para outra hora. Fato é que, depois de quase uma década sem músicas novas, vá lá, talvez os fãs merecessem mais do ponto de vista melódico. “Days of ash” não empolga. A boa notícia é que a própria banda avisou, paralelamente ao lançamento do EP, que um novo álbum está por vir, ainda este ano. Mas os protestos “não podiam esperar”, disse Bono em comunicado no site oficial do U2. “São músicas que tinham pressa para chegar ao mundo, canções de desafio e consternação”, escreveu.
A coisa até começa muito bem com a ótima “American obituary”, primeira faixa do EP. Foi dedicada a Renee Good, americana mãe de três filhos morta por agentes do ICE, a truculenta Agência de Imigração dos Estados Unidos no governo Trump. Está lá o DNA daquele U2 pós-punk, enérgico, das guitarradas expansivas com o selo The Edge de preenchimento sonoro, lance fino para ouvir com um bom fone.
Mas tudo já desanda em “The tears of things”, uma crítica ao fundamentalismo religioso inspirada em um livro do frei franciscano Richard Rohr, onde Bono imagina um diálogo entre “Davi”, de Michelangelo, e o próprio artista. É lenta, melada, morosa, e tem recursos cafonas, como, lá pelas tantas, as vozes duplicadas que soam como robôs. “Song of the future”, a terceira do álbum, é um tributo a Sarina Esmailzadeh, adolescente de 16 anos que foi morta a pauladas pelas forças de segurança iranianas, em 2022. É chicletinho de rádio, à la Coldplay, não faz feio, mas passa batida.
Pausa para “Wildpeace”, um poema do poeta israelense Yehuda Amichai (1924-2000) que, lido pela cantora Adeola, se comporta como um interlúdio para o ouvinte respirar. Respiramos, e chegamos em “One life at a time”, quinta faixa do EP, feita em homenagem ao ativista e professor palestino Awdah Hathaleen, morto por um colono israelense na Cisjordânia em 2025. Ninguém vai poder julgar aquele que disser que é a música mais chata já lançada pelo U2.
Aí vem “Yours eternally”, última faixa do EP, com participação do músico britânico Ed Sheeran e de Taras Topolia, soldado ucraniano que serviu na guerra contra a Rússia e que é músico na banda Antytila. Miraram num hino de resistência da Ucrânia contra os russos, acertaram num jingle tosco de propaganda de paz entre os povos, todos de mãos dadas, camisas brancas, flores e algum QR code no canto da tela da TV. Outra chatice previsível que não pede repeat.
Bono e companhia podem estar dormindo com a consciência limpa, mas os fãs mereciam mais.
Ouça 'Days of ash', do U2
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