Crítica: Bad Bunny dá baile no país que se orgulha de comandar o baile

 

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Essa é a mistura do Brasil com Porto Rico - com simpatia, voz e emoção à toda prova, Bad Bunny fez história ao conquistar com o seu baile inesquecível uma multidão jovem, ainda mal saída de um carnaval. Multidão essa que lotou o Allianz Parque, em São Paulo, na noite de sexta-feira para testemunhar o primeiro show no país do artista mais ouvido no streaming em todo o mundo.

Poucos dias depois de sua consagração no Grammy e do acontecimento político-cultural que foi o show no intervalo do Super Bowl, Benito Antonio Martínez Ocasio, porto-riquenho de 31 anos, fez todas as honras ao público brasileiro - até camisa da seleção canarinha de futebol vestiu. Mas o que importou mais foi sua música - o bom casamento de modernidade e tradição que culminou, ano passado, com o lançamento do aclamado álbum "DeBÍ TiRAR MáS FOToS".

A abertura da noite foi feita uma hora antes da entrada de Bad Bunny, com o grupo porto-riquenho Chuwi, especializado em rirmos tradicionais afro-caribenhos - com direito a legenda em português para as letras, algumas liricamente políticas. Ele azeitou a noite para uma garotada cujos pais provavelmente achariam aquilo... a música dos seus pais!

Mas essa é a revolução que Bad Bunny vem promovendo, ao valorizar o orgulho das raízes da América Latina. Se depois de décadas de deglutição e reinvenção do pop, do rap e do reggae, hoje ser latino é o que dá o tempero, é hip, é cool, e um dos grandes cuipados é Benito.

"Bad Bunny não quer sair de Porto Rico", anuncia antes do show principal, no vídeo, em português, um casal brasileiro. O público tem que chamar ele! Eis a deixa para a letra de "La Mudanza", que faz o cantor surgir triunfal no palco. Mas ele fica, de início, em silêncio, só ouvindo os aplausos. E aí, de repente, a salsa come, com a sua banda de primeira categoria - um belo início para o baile inolvidable.

Com uma saudação a São Paulo, Benito deu sequência à parte mais tradicional do show, no palco principal. No hit "Callaíta", ele admitiu: não esperava que São Paulo ia ser tão emocionante assim. Uma citação de "Garota de Ipanema" ao cuatro, instrumento de cordas tradicional porto-riquenho, abriu "Pitorro de Coco". Já "Weltita" ("Quem quer dar uma voltinha por São Paulo?", convidou Bad Bunny) ganhou outros sabores com os integrantes do Chuwi. Ao som de bolero, ele abriu o coração em seguida: "Estou muito feliz, finalmente realizei o meu sonho de visitar o Brasil!". E caiu no "Baile Inolvidable" ("Dancem e amem sem medo, Brasil!") e num "Nuevayol" de salsa que acabou em reggaeton.

Pausa para o segundo ato, em que Bad Bunny vai para a Casita (a reprodução de uma típica casa porto-riquenho, na pista do lado oposto do palco principal). Ali, ele ressurge ao lado de amigos-figurantes, com a camisa 10 da seleção brasileira (e um 62 no escuso no peito) e um copo na mão. Aí é hora do reggaeton comer solto, em faixas como "Tití Me Preguntó", resvalando no trap e na house music.

É festa, festa, festa, que leva Benito até a subir no teto da Casita para continuar cantando (sem largar o copo). E a coisa termina em uma batucada, um verdadeiro partido alto porto-riquenho, que envereda por um "Mas que nada", de Jorge Ben, em espanhol. É a apoteose da grande celebração da família latino-americana.

De volta ao palco principal, Bad Bunny partiu com seu balé para um terceiro ato de reggaeton mais romântico, com "Ojitos Lindos" e "La Canción" - mas logo estava chamando novamente para a dança, em um momento de especial comoção, que foi "DTMF", faixa-título do seu mais novo disco, que a plateia não hesitou em cantar junto. "O passado só serve para saber o que mudar", recomendou o cantor, viajando na leveza da canção.

Sem participações especiais e com poucos artifícios além da boa música e do genuíno espírito festivo, Bad Bunny deu baile num país conhecido por comandar o baile. Que agora, com essa grandiosa demonstração de potência resumida em pouco mais de duas horas de show, o Brasil abra de vez ouvidos e corações para o que os hermanos têm a dizer.

Cotação: Ótimo