Quando olhamos para a História do Rio de Janeiro, parece que aquele pedacinho da Mata Atlântica onde hoje se destaca o Cristo Redentor já estava mesmo predestinado a ficar famoso — não só pela sua imponência natural, a 710 metros acima da Baía de Guanabara, mas também por sugerir, desde sempre, que seria um ótimo pedestal para alguma representação importante para a cidade. História: Inauguração do Cristo Redentor Com 14 estações na escadaria: Igreja planeja campanha entre fiéis para construir Via Sacra Não foi por acaso que, já no século XVI, portugueses que chegaram ao Rio de Janeiro batizaram o alto daquele morro de Pináculo da Tentação. Era uma referência a um monte muito alto onde, de acordo com a mitologia cristã, Jesus Cristo teria sofrido tentações por parte do demônio. Lá de cima, diz o Evangelho de Mateus, seria possível avistar todos os reinos do mundo. Pois foi assim que ficou conhecido o morro até o século XVIII, quando passou a ser chamado de Corcovado. Significado? Uns dizem que, de determinado ângulo, seu relevo se assemelha à corcova de um camelo, e há também quem diga que o nome tem a ver com “Cor quo vadis” (“Coração, para onde vou?”, em latim). Nesse caso, teria a ver com alguma jornada espiritual. Qualquer que seja a versão correta, certo é que, em 1859, o recém-chegado padre francês Pierre-Marie Boss sugeriu publicamente a criação de um monumento a Jesus Cristo naquele lugar privilegiado. Objetivamente, não deu em nada, mas a ideia ficou no ar. Logo após a abolição da escravidão, em 1888, cogitou-se construir no Corcovado uma estátua da Princesa Isabel — que, sensatamente, recusou o tributo de gosto duvidoso e sugeriu homenagear o que chamou de “o verdadeiro redentor”. Criou-se, então, um grupo para viabilizar a construção do que seria, em princípio, uma imagem do Sagrado Coração de Jesus no alto do morro. Àquela altura, com a Estrada de Ferro do Corcovado já em operação, o topo do morro já estava ocupado por um mirante, o Chapéu do Sol, espécie de coreto chique em ferro e vidro, fabricado na Bélgica, que serviria de point da elite carioca até as primeiras décadas do século XX. Os planos para a criação de um novo monumento no Corcovado, no entanto, foram esquecidos durante décadas, após a proclamação da República, em 1889. Somente em 1921 a ideia saiu da gaveta novamente. Desta vez, a regra era clara: a homenagem seria feita com uma estátua do Cristo Redentor, e a intenção inicial era que ela ficasse pronta a tempo nas festas de comemoração dos 100 anos da Independência, em 1922. Mas atrasou — e tudo o que se conseguiu fazer, naquele ano, foi o lançamento da sua pedra fundamental. ‘Cristo da bola’ Com o concurso aberto para escolha do monumento, foi eleito o projeto do engenheiro carioca Heitor da Silva Costa (1873-1947). Inicialmente, ele concebera um Cristo segurando uma cruz à esquerda e um globo terrestre com a mão direita. Mas ficou estranho, e o povo logo apelidou o projeto de “Cristo da bola” — consideremos que, naquela época, os cariocas já começavam a respirar futebol. Foi então que, inspirado numa antena em forma de cruz instalada no Corcovado, Heitor concebeu o Cristo Redentor na forma que conhecemos. Já não há, como no projeto anterior, a presença explícita da cruz católica — embora ela esteja evidentemente representada pelos braços abertos e o tronco ereto da estátua. E tem aquele detalhe relacionado aos pontos cardeais que não custa repetir: a cabeça do Cristo está de frente para o Leste, encarando o sol logo ao nascer, enquanto o braço direito fica para o Sul, as costas para o Oeste e o braço esquerdo, para o Norte. Não raramente, funciona como uma bússola para o observador... Após dois anos de intricados cálculos de engenharia, Heitor vai para Paris, onde contrata o escultor franco-polonês Paul Landowski para modelar a estátua, que toma forma entre 1924 e 1927. Os modelos são feitas em gesso, numa escala menor, trazidas para o Rio em navio e recriadas no tamanho real, já em concreto armado — que garantia a estabilidade e a resistência contra ventos de até 250 km/h. Nesse meio tempo, a partir de 1926, começaram as obras no cume do Corcovado. Não era exatamente o lugar mais tranquilo para se plantar um monumento tão grandioso, mas os operários prepararam o terreno sem descanso e sem qualquer acidente, apesar de trabalharem um platô tão estreito que teve até que ser dinamitado para abrir mais espaço para acolher a estátua e seus futuros visitantes. No fim de uma obra tão original e de dimensões sem precedentes no país, arte, arquitetura e engenharia resultaram num casamento perfeito. Há detalhes curiosos. Para o revestimento da estátua, depois de muito pesquisar materiais que resistissem a surpresas do tempo, Heitor teve um insight ao ver, em Paris, uma fonte revestida por um mosaico. Para compor essa extensa peça, pensou na estatita, a popular pedra-sabão. Deu certo: milhares de pastilhas triangulares com sete centímetros de espessura foram colados, por colaboradoras da sociedade carioca, sobre pedaços de tecido posteriormente aplicados à estrutura de concreto armado, revestindo a estátua. De longe, o conjunto parece ter sido esculpido em um bloco único de pedra; de perto, percebe-se claramente a textura das vestes, das mãos e do rosto do Cristo. O maior monumento em Art Deco do mundo foi finalmente inaugurado em 12 de outubro de 1931, com a presença do presidente Getúlio Vargas e muitas autoridades eclesiásticas. Esperava-se, para a noite da inauguração, que o cientista italiano Guglielmo Marconi acionasse os refletores de iluminação diretamente da Itália via ondas de rádio. Mas o mau tempo não permitiu a façanha, e o acionamento foi feito pelos técnicos locais. O resto é História. Em cifras A construção do monumental Cristo Redentor custou 2.500 contos de réis — equivalentes a cerca de US$ 4,56 milhões em valores de 2022, ou seja, R$ 24 milhões. Pela visibilidade que proporcionou ao país nos últimos 95 anos — sobretudo ao Rio, claro — valeu cada centavo. Essa conversão foi feita para o livro “O Cristo no Rio” (Izabel Noronha, 2022) por Afonso Arinos de Mello Franco Neto e André Arruda Villela, professores da EPVE/FGV. A construção foi viabilizada por doações feitas por empresas e cidadãos de todas as regiões do país, numa mobilização inédita, liderada pela Arquidiocese do Rio de Janeiro. E vale o recado: ao contrário do que muita gente pensa ainda hoje, o monumento não foi um presente do governo francês ao Brasil. Também é bom saber que o santuário localiza-se dentro do Parque Nacional da Tijuca, reconhecido internacionalmente por abrigar a maior floresta urbana replantada do mundo. A gestão do parque é feita pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), também responsável pela fiscalização das concessionárias que atuam no local. Em números A grandiosidade da estátua do Cristo Redentor merece ser detalhada em algumas medidas e curiosidades. Altura total (sem incluir as fundações): 38 metros. Altura do pedestal: 8 metros. Altura da estátua: 30 metros. Altura da cabeça: 3,75 metros. Comprimento da mão: 3,20 metros. Curiosidade: quem esculpiu as mãos da estátua, em Paris, a convite de um dos responsáveis por viabilizar o monumento, o franco-polonês Paul Landowski, foi a brasileira Margarida Lopes de Almeida — e ela usou suas próprias mãos como modelo. Distância entre os extremos dos dedos: 28 metros. Revestimento: milhares de pedras em quatro tons claros e em elementos triangulares de 2cm de lado. Peso da cabeça: 30 toneladas. Peso de cada mão: 8 toneladas. Peso de cada braço: 57 toneladas. Peso total do monumento: 1.145 toneladas.
Cristo Redentor, o casamento perfeito entre arte, arquitetura e engenharia
Fonte da notícia:
O Globo
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