Crises e pauta moral impulsionam bolsonarismo e fazem PT perder espaço no Rio após vitórias em eleições presidenciais

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Quando Luiz Inácio Lula da Silva venceu a eleição de 2022, o discurso de petistas do Rio, onde o atual presidente foi derrotado, era unânime. Uma vez de volta à Presidência, e a partir da reedição de alianças com o centro, ele conseguiria reduzir danos no estado que outrora votou em massa no PT em eleições presidenciais e frear o domínio do bolsonarismo.

Quatro anos depois, o vaticínio se mostrou equivocado, e a força da família Bolsonaro em seu berço político se manteve sólida. Entrave: Nova derrota de Paes reforça obstáculo a prefeitos da capital na corrida pelo governo do Rio

Entrevista: 'Nunca funciona dizer que a economia vai bem se o eleitor não sente isso', aconselha Karl Rove, arquiteto das vitórias de Bush O padrão do estado em disputas nacionais seguiu alguma coerência entre 1989 e 2014.

Com exceção de 1994, ano do Plano Real e no qual o tucano Fernando Henrique Cardoso venceu em 25 estados brasileiros, o Rio votou majoritariamente nos ex-governadores Leonel Brizola e Anthony Garotinho, ambos como representantes da cultura política do trabalhismo, e em Lula e Dilma Rousseff.

Foi em 2018 que a guinada se deu de forma brusca à direita — e assim parece ter se firmado. Na comparação com 2022, Flávio Bolsonaro (PL) foi mais votado que o pai no primeiro turno no Rio e repetiu uma distribuição geográfica dos votos que fez Lula ficar mais limitado a bairros das zonas Sul e Norte da capital, apesar de também ter perdido nela, e conseguir em Niterói a única vitória na Região Metropolitana, que concentra sete em cada dez eleitores.

O filho do ex-presidente recebeu 53% dos sufrágios; o petista, 39%. Além de a família Bolsonaro ter o estado como origem política, alguns consensos entre analistas e políticos para explicar o terreno fértil encontrado pelo bolsonarismo no Rio incluem o protagonismo da segurança pública, tema no qual o discurso da direita é mais sedutor, e o percentual acima da média nacional de evangélicos — são 32%, contra 26,9% no país.

Uma vez que pautas “morais” entraram em cena, o Rio virou à direita junto com o país e não recuou. Mais de um aliado de Lula relata já ter ouvido o presidente manifestar incômodo com a mudança.

Ele cita o volume de entregas que fez no estado em seus mandatos e se sente injustiçado. — Não há apenas uma única variável que explique o que torna o Rio um terreno fértil para o avanço do bolsonarismo.

Há uma síntese de múltiplas determinações — afirma o cientista político Theófilo Rodrigues, professor do programa de pós-graduação em Sociologia Política do Iuperj-UCAM. Lula em ato de campanha no Rio de Janeiro

Marina Calderon Além das questões morais, o pesquisador recorda que a Lava-Jato, há pouco mais de dez anos, acabou tendo um impacto político e econômico especial no estado.

Lideranças como o ex-governador Sérgio Cabral, do MDB e aliado do PT, foram presas e perderam espaço, o que levou a um reordenamento de forças. Antes mesmo da onda bolsonarista, a capital elegeu o bispo licenciado Marcelo Crivella para a prefeitura, o que marcou uma inflexão à direita numa cidade que nas três décadas anteriores ficou com candidatos de centro-esquerda, centro e centro-direita.

Simultaneamente, dada a relevância de setores como o de óleo e gás, muito atingido pelas investigações, houve um boom de desemprego e uma desestruturação industrial, aponta Rodrigues, que também destaca que a percepção de insegurança cria um ambiente propenso a “discursos fáceis” na área.

Professora aposentada da FGV CPDOC, a historiadora Marly Motta segue linha parecida e reforça, “sem juízo de valor”, a leitura sobre os evangélicos. Recorda, por exemplo, que São Gonçalo, segundo maior colégio eleitoral, tem 35,6% de fiéis.

Outro olhar da pesquisadora recai sobre as mudanças no mundo do trabalho. O país está com o índice de desemprego na mínima histórica, mas o estado, depois da pandemia, não acompanhou a retomada do emprego formal e continuou com alto percentual de informalidade —38,4% em 2024.

— A informalidade gera uma tendência de simpatia pelo discurso do bolsonarismo — afirma. — No passado, quando havia uma relação mais formal com o trabalho, a relação do Rio era com o trabalhismo, o antigo PTB varguista, os sindicatos.

Mobilização no 2º turno No primeiro turno, a dificuldade de Lula no Rio ficou evidente pela pouca presença de Eduardo Paes (PSD), candidato ao governo, nos atos do petista.

Ele tentava ficar distante da eleição nacional para não atrair para si a rejeição ao presidente. Para as próximas semanas, o PT ainda não tem uma noção exata de qual será o grau de envolvimento do candidato derrotado ao governo, que não mencionou o presidente nos posicionamentos divulgados após o primeiro turno.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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