Enquanto o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, surfa na onda favorável das pesquisas, a escalada da crise no Supremo Tribunal Federal (STF) jogou a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva num dilema por causa de um de seus motes principais, o de que o petista seria um candidato "antissistema". Em paralelo, ampliou as críticas internas de letargia, e de que passou da hora de partir para o confronto. O episódio desta quarta-feira (9) ilustra o conflito interno. Por volta de 11h30, Lula postou em seu perfil oficial na rede X uma mensagem afirmando que o povo brasileiro merece "explicações e medidas imediatas" para a crise do Poder Judiciário. Voltou a criticar os "vazamentos seletivos", e defendeu o levantamento do sigilo de todos os envolvidos no caso Master. Foram mais de 24 horas para se manifestar, em um texto sem menção expressa à decisão da véspera, na qual o ministro do STF André Mendonça havia afastado o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues. Nesse intervalo, em outro despacho inesperado, o ministro Flávio Dino reverteu o ato do colega, reintegrando Andrei ao cargo. Ao longo do dia, o ministro de Relações Institucionais, José Guimarães, se manifestou pelo governo, criticando a decisão e comunicando que a Advocacia-Geral da União (AGU) iria recorrer. Contudo, nem Lula ou algum de seus interlocutores se posicionaram pela campanha sobre o gesto que, na visão de lideranças petistas, poderia configurar tentativa de interferência no processo eleitoral. Para aliados, o silêncio da campanha transmitiu a imagem de letargia e insegurança. O sentimento generalizado é de que Lula e o PT apanham calados. O ocorrido evocou a mesma paralisia que acometeu Lula e auxiliares mais próximos no fim de outubro do ano passado, quando uma megaoperação contra o Comando Vermelho (CV), nos complexos do Alemão e da Penha no Rio de Janeiro, levou 121 pessoas à morte, sendo quatro policiais. Foi a ação policial mais letal da história do Estado, que, porém, turbinou a popularidade do então governador Cláudio Castro (PL). Emparedado pela letalidade da operação, mas aplaudida pela população, Lula demorou quase 48 horas para se pronunciar. Somente na noite do dia seguinte, 29 de outubro, publicou uma mensagem no X, dizendo que não seria aceitável que o crime organizado continuasse "destruindo famílias, oprimindo moradores e espalhando drogas e violência". Como solução, defendeu uma alternativa que atingisse o núcleo do tráfico, mas sem expor ao risco pessoas inocentes. Uma fonte da campanha explicou que a crise do Judiciário deixa Lula numa saia justa, porque como presidente da República ele não pode subir o tom contra o chefe de outro Poder. Ao contrário, diante da percepção de que se trata da crise mais aguda do STF, Lula foi obrigado se colocar do lado do presidente da Corte, Edson Fachin, fazendo coro por uma solução institucional para a turbulência. Na comemoração do Sete de Setembro, Lula posou ao lado de Fachin, e dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Ele reuniu os chefes dos Poderes em uma fotografia para transmitir a imagem de união institucional. O problema é que esse posicionamento institucional fragiliza a retórica da campanha de que ele seria o candidato apto a enfrentar o sistema. Um dos jingles, o "Rap do Silva", diz justamente em um trecho que Lula "enfrentou o sistema e fez o povo prosperar". A menos de um mês da eleição, prossegue o impasse de que nas situações mais sensíveis, quando fica difícil para Lula se manifestar, seria necessário um perfil combativo para ir a público e atuar como porta-voz do candidato. Para a missão, tem sido citado o nome do ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, mas que não está totalmente dedicado à campanha. Outro grupo, entretanto, sustenta que o eleitor não quer saber de briga, e estaria mesmo interessado em conhecer as propostas dos candidatos. Nesse ponto, defendem a manutenção do que está colocado, em peças classificadas como "contundentes" e "propositivas".
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Crise no STF testa discurso 'antissistema' de Lula e amplia tensão na campanha
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