Crise no STF pode impactar Lula e Flávio, mas cenário segue aberto, segundo especialistas - QTU Questões do Universo

Crise no STF pode impactar Lula e Flávio, mas cenário segue aberto, segundo especialistas

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A um mês do primeiro turno eleitoral, a divulgação nesta terça-feira (1º) de mensagens sobre investigações sigilosas, trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, deve ter impacto direto na disputa presidencial.

Segundo especialistas, a nova crise no Supremo Tribunal Federal (STF) deve mobilizar a base de apoio do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, e tem potencial para trazer prejuízos à imagem do candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ao mesmo tempo, pode ajudar candidaturas fora da polarização política.
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O cientista político Rafael Cortez, sócio da consultoria Tendências, vê um potencial de impacto para a candidatura de Lula, porque vem se cristalizando na opinião pública uma associação entre o presidente e o Supremo, mas eventuais efeitos negativos dependerão da capacidade que a oposição, sobretudo a campanha de Flávio, terá de aprofundar esse desgaste.

"Vejo um potencial efeito [negativo], mas ele não está simplesmente dado.
Estrategicamente, caberá à campanha de Flávio conseguir explorar o tema politicamente, para que o eleitor não transforme o sentimento de que 'o mainstream está corrompido' em abstenção e, sim, em voto no candidato de oposição."

Cortez avalia que o episódio é prejudicial ao governo por causa da ideia que existiria uma "aliança informal" entre Lula e ministros do Supremo, que se desdobraria em uma perseguição aos bolsonaristas.
Por isso, ele entende que Flávio tende a conseguir explorar politicamente o assunto, uma vez que foi seu grupo que inicialmente apostou no discurso antissistema.

Para Cortez, a eleição está aberta e será definida pelo nível de comparecimento às urnas.
Nesse contexto, o episódio envolvendo o STF pode contribuir para baixar a abstenção e dar estímulo para um eleitor insatisfeito com Lula ir às urnas votar.
"As chances de grandes alterações no atual cenário são baixas, mas, numa eleição acirrada, pequenas movimentações são suficientes para produzir mudança de resultado."

O especialista considera que Lula enfrenta uma situação paradoxal: mesmo com a reprovação ao governo em níveis elevados, está à frente nas intenções de voto.
A explicação, segundo o analista, está mais nos erros da oposição.

"Se a avaliação do governo fosse positiva, poderíamos falar que não aconteceria nada [após os desdobramentos do caso Master no STF], mas não é o que está se passando.
O favoritismo do governo tem pés de barro e expressa mais uma falta de confiança do eleitorado na oposição do que um apoio ao presidente.
Ele [Lula] lidera, ainda que com margem apertada, a despeito de o eleitorado não gostar do seu governo."

Como existe uma parcela do eleitorado cansada da polarização e sem estímulo para comparecer, segundo a análise de Cortez, as novas denúncias envolvendo o STF podem afastar uma parte deles da abstenção e aproximá-los do voto em Flávio.
O cientista político lembra que o senador também é alvo de investigações do caso Master em andamento na Corte.
"No fundo, o que estamos vendo é como o STF se tornou permeável à radicalização política.
Aos olhos do eleitorado, os ministros têm hoje nomes políticos."

Para Cortez, o episódio pode fazer com que até mesmo eleitores com algum grau de rejeição a Flávio interpretem que as críticas do bolsonarismo à postura da Corte teriam algum fundamento.
"Isso pode fazer com que o eleitor que desaprova o governo possa migrar para Flávio, o que deixaria a disputa ainda mais equilibrada", especula.
Resta ao governo, segundo ele, tentar usar como "antídoto" a pauta econômica, com a proposta de fim da jornada 6x1 e a bandeira de defensor dos mais vulneráveis.

Segundo o analista, outros candidatos de oposição também podem se beneficiar, caso consigam manejar o sentimento antissistema de parte do eleitorado.
"Quem está apostando na crítica ao Supremo como estratégia eleitoral tende a ter um ganho.
Se vai ser suficiente para virar, aí é outra coisa."

Para a cientista política Graziella Testa, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), ao olhar para episódios e escândalos anteriores, o impacto político de casos como esse depende menos do fato em si e mais da narrativa que se consolidará sobre o tema e quem poderá ser visto como “vilão” ou “herói”.

Testa avalia que Flávio, que mantém uma posição pública de confronto com Moraes, tende a buscar dividendos eleitorais com o episódio, mas ponderou que não é possível estabelecer uma relação automática entre o caso e uma eventual mudança nas intenções de voto.

Segundo a cientista política, as críticas ao STF e a alguns de seus ministros estão atualmente mais concentradas em uma “clivagem político-partidária”, sobretudo entre setores ligados à direita.
“Não me parece que o sujeito que não sabe em quem vai votar está preocupado em relação ao Supremo.
Esse [tema] é um voto engajado de direita”, afirma.

Sobre uma eventual manifestação de Lula, ela evita fazer previsões sobre a estratégia da campanha.
Com base no histórico de declarações do presidente, porém, afirma considerar provável que Lula defenda a necessidade de aguardar o resultado das apurações antes de atribuir responsabilidades.
“É muito provável que ele vá dizer que vai esperar o resultado para entender se ele vai ser culpabilizado ou não em relação a isso”, diz.

A cientista política também vê pouca chance de que a campanha transforme o caso em um debate aprofundado sobre mudanças institucionais no Judiciário ou no STF.
Embora avalie que propostas nessa direção possam aparecer nos discursos, ela acredita que a dinâmica eleitoral tende a favorecer a personalização do conflito.

“A campanha é muito curta e precisa de mensagens muito certeiras.
Acho mais provável que haja um cálculo com relação à personalização, porque isso gera mais repercussão e tende a gerar um rendimento em termos de voto.”

Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas do Eurasia, considera que o prejuízo é maior para Lula porque ofusca agendas consideradas positivas que o governo espera realçar neste momento.
No entanto, a situação negativa pode ser amenizada por uma percepção generalizada de que a corrupção está associada tanto ao candidato do PT quanto ao do PL.

"Os eleitores enxergam que ambos não sendo críveis nesse tema da corrupção.
O caso [envolvendo Moraes e Vorcaro] não impacta diretamente o presidente Lula, mas é ruim porque traz uma agenda mais negativa e um noticiário pesado, quando a campanha do PT quer mostrar medidas que eles dizem que melhoraram a vida das pessoas.
Como nem Flávio nem Lula têm credibilidade no tema de corrupção, isso ameniza o impacto direto [para o petista], mas o noticiário negativo é ruim para o incumbente", diz.

De acordo com o especialista, o governo foi atingido num momento em que pretendia "vender o seu peixe", como a votação da proposta que acaba com a escala 6x1.
"O eleitor está pessimista com o futuro.
E você não quer o eleitor pessimista quando está buscando reeleição [caso de Lula].
Mas não estou enxergando isso como um fator que muda as probabilidades dessas eleições."

Além disso, as denúncias disputaram espaço com a revelação de que Vorcaro repassou ao filme "Dark Horse" mais recursos do que o valor admitido inicialmente pelo candidato do PL.
Segundo Garman, "não é simples para Flávio" se desvencilhar do episódio.
Ao mesmo tempo, o analista da Eurasia enxerga impactos institucionais mais amplos.
"O escândalo aprofunda a crise no Supremo e cria uma pressão enorme sobre Moraes."

O cientista político Carlos Melo, professor do Insper, diz que é preciso cautela para avaliar impactos eleitorais, já que "o escândalo de hoje é esquecido pelo escândalo de amanhã".
Na visão dele, economia e segurança pública são os pontos que mais preocupam os eleitores hoje, de forma que outras questões podem ter um peso marginal.

O eleitor independente não deve ser mobilizado por revelações como as desta terça-feira, na avaliação de Melo, porque já existe um cansaço com as ondas de denúncias, que atingem ambos os lados.
"O eleitor que é vinculado à bolha defende o seu a qualquer preço e, igualmente, ataca o outro.
Já o independente começa a olhar para isso tudo com um certo desprezo.
Temos bombas jogadas do quintal de um para o do outro, e assim um vai anulando o efeito do outro."