Acirrada, a campanha ao Senado em São Paulo, que vinha deixando a pauta de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em segundo plano, voltou ao tema com mais força nesta semana, após a revelação das conversas do ministro Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A direita, como esperado, surfa no caso para reverter o quadro desfavorável apontado pelas pesquisas até agora. Mas, também na esquerda, existe a leitura de que o assunto deve dominar o debate público nas próximas semanas, inaugurando uma “nova eleição”, e exige posicionamento claro. Não por acaso, as ex-ministras Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede), apoiadas pelo presidente Lula (PT), gravaram vídeos para as redes sociais destacando a gravidade dos fatos que vieram à tona e defendendo a continuidade das investigações. Elas fazem parte da chapa do PT, liderada por Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda e candidato ao governo do estado, que repetiu ter evitado Vorcaro quando estava no governo e afirmou que o caso deve ser “passado a limpo” para preservar o pleito deste ano. Um auxiliar com trânsito nas campanhas diz que a decisão de Tebet por se posicionar cedo foi acertada, porque a “omissão deve cobrar um preço grande” na disputa ao Senado em todo o país. Ainda assim, é necessário, na opinião desse aliado, marcar uma posição distinta da extrema direita, defendendo as investigações sem julgamentos precipitados e cobrando também a divulgação de fatos envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL), principal rival de Lula este ano e que pediu milhões a Vorcaro para bancar o filme “Dark horse”, cinebiografia de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A candidata do PSB, inclusive, promoveu anúncios digitais com falas sobre o caso. Ela pede a abertura de inquérito contra Moraes, mediante autorização do plenário do Supremo, além da derrubada do sigilo em todo o processo. Marina Silva, por sua vez, divulgou uma gravação apenas no dia seguinte, sob o mote de que “ninguém está acima da lei”. A ex-ministra do Meio Ambiente também cita diretamente o nome de Moraes, alegando que as conversas reveladas são “gravíssimas e precisam ser esclarecidas”, e dedica parte do conteúdo para questionar a possibilidade de as eleições serem contaminadas por visões extremistas, que deslegitimem o próprio papel constitucional do STF. Direita otimista Já na direita, os candidatos confiam em seu crescimento nas pesquisas a partir do noticiário da última semana. Guilherme Derrite (PP), ex-secretário estadual de Segurança Pública que tinha como principal plataforma ao Senado o combate à violência, afirma que dará mais “ênfase” ao caso e tentará demarcar sua diferença em relação à esquerda ao garantir aos eleitores que votará a favor do afastamento de ministros do STF — na prática, o processo depende da vontade do presidente da Casa. — Não vi nenhuma das candidatas de esquerda se posicionar favoravelmente a impeachment de ministros da Suprema Corte. Eu já fiz essa declaração inúmeras vezes publicamente, de que o Senado Federal tem que se posicionar frente aos abusos — declarou o candidato ao GLOBO. O levantamento mais recente da Quaest apontou empate triplo na liderança da corrida ao Senado em São Paulo: Derrite aparece com 12%, mesmo patamar de Marina Silva, e com um ponto a mais do que Simone Tebet, que tem 11%. André do Prado (PL), presidente da Assembleia Legislativa do Estado e segundo nome da chapa do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), marca 7%, pouco à frente do deputado federal Ricardo Salles (Novo), 4%, que foi ministro de Bolsonaro, mas concorre de modo independente. Prado equilibra-se entre se apresentar como o “braço direito” do governador e acenar ao público bolsonarista mais ideológico. Ele confirmou presença no ato de Sete de Setembro convocado por Flávio Bolsonaro (PL), na Avenida Paulista, e gravou propaganda ao lado do candidato à Presidência da República e do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), a quem diz representar nas urnas. “Está muito claro que as relações do Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes não são republicanas”, declara Prado em um corte de uma entrevista divulgado nas suas contas. Observadores políticos apontam que Salles poderia ser o principal beneficiário da pauta, porque adota o perfil antissistema há bastante tempo. No entanto, ele conta com a menor estrutura de campanha entre os três candidatos da direita. Derrite, neste caso, despontaria com a maior visibilidade. Já em relação a Prado existem dúvidas sobre o quanto a pauta combina com sua figura pública, bastante vinculada a Tarcísio, uma vez que o próprio governador procura transmitir ares de moderação.
O levantamento da Quaest também mostrou que a maior parte do eleitor está indeciso quanto às duas vagas ao Senado, o que leva a cerca de 27% dos votos ainda sob dúvida. Outros 18% declararam que pretendem votar em branco ou anular o voto. Historicamente, apontam especialistas, o voto ao Senado é um dos que o eleitor decide por último, o que pode explicar viradas improváveis em São Paulo e outros estados.
Na esquerda, porém, ainda há esperança de eleger as duas candidatas, mesmo em cenário em que escândalos no STF dominem os debates. Há quem associe o crescimento de Augusto Cury (Avante) na eleição presidencial — com um perfil de outsider, mas discurso moderado — a uma sinalização de que o eleitor cansou de abordagens mais radicais (como a do presidenciável Renan Santos, do Missão). Nesse sentido, poderia sair ganhando quem se comporta como “adulta na sala”.
O Globo