Crise da masculinidade? De curso de Juliano Cazarré a festival com Padre Júlio Lancellotti, eventos buscam orientar garotos e adultos
Anunciado por Juliano Cazarré para “fortalecer homens”, o evento “O farol e a forja”, após provocar inicialmente uma batalha nas redes sociais, voltou ao centro das atenções com o programa GloboNews Debate exibido terça-feira, comandado por Julia Duailibi e reunindo o ator, a psicanalista Vera Iaconelli e o consultor Ismael dos Anjos. No Instagram, artistas (em sua maioria, mulheres) criticaram a série de palestras anunciada pelo Jorginho Ninja da novela “Três Graças” com o argumento de que a iniciativa reforçava o discurso machista. Outros artistas defenderam o projeto de Cazarré, que se converteu ao catolicismo e passou a promover valores considerados conservadores.
A polêmica acontece num momento em que diferentes visões de masculinidade disputam espaço no debate público. Em meio a uma suposta “crise da masculinidade”, surgiu a ideia de que o homem contemporâneo estaria deslocado, sem referências claras diante de transformações sociais aceleradas, seja nas relações de gênero, seja no trabalho ou na vida afetiva.
O cenário de crise tem alimentado o crescimento da chamada machosfera, formada por grupos marcados por ressentimento e hostilidade contra mulheres. Movimentos como o “red pill” difundem a ideia de que os homens estariam sendo prejudicados por avanços e comportamentos femininos e que vínculos afetivos deveriam ser substituídos por estratégias de dominação ou afastamento.
O evento de Juliano Cazarré, que acontece entre os dias 24 e 26 de julho com inscrições pagas, apresenta-se como uma solução a essa crise. Sua proposta é trazer de volta os valores tradicionais e uma leitura normativa dos papéis de gênero. Palestrantes como o lutador Rodrigo Minotauro, a jornalista Monica Salgado e o pastor Anderson Silva vão discorrer sobre temas como queda da testosterona, vício em pornografia, armamento e dimensões do ser humano como animal e ser racional.
— Caminhamos muito para o relativismo, a ideia de que não existe certo ou errado, só opinião individual — diz Cazarré, em entrevista ao GLOBO por telefone. — Isso tem trazido depressão e ansiedade. Mais gente está buscando algo sólido e descobrindo que existe um valor na família tradicional, no matrimônio, na fidelidade, na castidade. O que eu quero propor é: vale a pena casar, vale a pena ser pai, vale a pena cuidar da família, trabalhar, ser responsável, cuidar da saúde. A resposta redpill é o contrário: use as mulheres, não se relacione com elas, veja-as como inimigas.
Visão ‘woke e identitária’
Segundo o ator, a visão “woke e identitária” da masculinidade passa por um esgotamento:
— Esse homem desconstruído, frágil, sensível, não defende as mulheres. Se esse homem vê uma mulher na rua apanhando, ele pega o celular e filma.
Com início no dia 29 deste mês no Museu de Arte do Rio e no Museu do Amanhã, com entrada gratuita, o Festival Masculinidades também busca respostas aos dilemas do homem contemporâneo, mas numa direção bem diferente. O evento, que explora “como novas visões sobre as masculinidades podem ajudar a construir futuros mais seguros, mais justos e mais cuidadosos”, terá bate-papos, dança, música e reunirá figuras celebradas por setores progressistas. Entre os nomes confirmados, estão Padre Júlio Lancellotti, o youtuber e drag queen Rita von Hunty e o líder indígena e ativista climático Ailton Krenak.
— Em contextos de insegurança, torna-se fácil para certos grupos dizerem que os homens estão perdendo e que isso acontece porque mulheres ou outros grupos estão ganhando espaço — diz
Gary Barker
Reprodução
Gary Barker, CEO e fundador da Equimundo, que organiza o evento dentro da programação da MenCare Changemaker Summit, Rio 2026.
— Essa é uma narrativa simplificadora. Na verdade, deveríamos pensar no que todos ganham com essas transformações e como os homens podem apoiar esses avanços.
Enquanto as iniciativas conservadores defendem restaurar referências fixas para o homem, Barker propõe flexibilizá-las.
— As normas tradicionais dizem: não chore, não peça ajuda, resolva tudo sozinho — diz o australiano. — Isso isola os homens e tem consequências graves. A ideia é incentivar uma masculinidade mais aberta, que cuida, que se expressa, que aceita mudanças, em vez de enxergá-las como perda. O patriarcado não é apenas um sistema em que homens têm poder sobre mulheres. Ele também implica que alguns homens e determinadas estruturas tenham poder sobre outros homens.
Nenhum dos cursos pretende ser resposta ao outro, mas ambos se dizem fruto de um mesmo sintoma social. Num momento em que o país é bombardeado com notícias sobre feminicídio, a masculinidade virou tema de debate entre os próprios homens, que passaram a reconhecer a necessidade de discutir seus papéis, angústias e referências num mundo em transformação.
— Já que os homens são parte do problema, também precisam ser parte da solução — diz Marcos Antonio Ferreira do Nascimento, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira. — Muitos homens interpretam como direito o que é privilégio. Exemplo: meninas são educadas desde cedo a se proteger da violência sexual; meninos, não. Isso já revela uma desigualdade na forma como ocupamos o espaço público.
Proliferação bem-vinda
Para o filósofo, cientista político e professor do Insper Fernando Schüler, o próprio surgimento de iniciativas tão distintas revela uma mudança de cenário.
— A discussão sobre o masculino ficou, por muito tempo, meio obstruída, em silêncio — observa. — Houve um avanço importante no debate sobre o papel da mulher, mas pouco se discutiu o papel do homem, como se ele já estivesse dado. É positivo que isso comece a mudar.
Schüler vê com bons olhos a proliferação de eventos e reflexões sobre masculinidade, mas faz uma ressalva:
— O risco está quando se tenta impor um modelo único. Existe um viés autoritário, tanto em leituras conservadoras quanto progressistas, de querer padronizar comportamentos e definir o lugar que as pessoas devem ocupar. Isso contraria a própria ideia de diversidade. O ideal é que essa discussão ajude a ampliar possibilidades, não a restringi-las.
