'Crianças parentalizadas': os riscos dos filhos que assumem a responsabilidade emocional pelos pais
“O impacto é absoluto e eterno; a ferida é tão profunda que sempre é preciso cuidar dela para garantir que cicatrize bem”. Essa é a primeira coisa que diz Lolita Campos, que se viu forçada a crescer pelas circunstâncias que a levaram a ser uma “criança parentalizada”, a amadurecer de repente, isto é, a assumir a responsabilidade emocional pelos pais. Segundo especialista, essas crianças têm mais chances de desenvolver ansiedade, depressão e problemas endócrinos e imunológicos na vida adulta
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Descrença em si mesma e falta de confiança
— Mesmo quando a pessoa conta com ferramentas para atravessar o momento, dói — explica a autora de sete livros.
Hoje, Lolita, que ainda vive o trauma à flor da pele, fala de um fio invisível que percorre todas as arestas: a descrença em si mesma e a falta de confiança.
— Uma pessoa deixa de acreditar em si mesma e, por isso, sempre há uma invalidação emocional constante após o abuso e uma busca permanente por validação externa; até em pequenas coisas do dia a dia — identifica a escritora. — Acho que a necessidade constante de validação externa acontece quando não se construiu uma própria.
Hipermaturidade transformada em superadaptabilidade
A psicóloga Pata Liberati resume da seguinte forma:
— Na vida adulta, essas crianças parentalizadas costumam ser pessoas superadaptadas. Elas se acostumaram a tapar os buracos emocionais de seus pais, algo que aprenderam em idade muito precoce. Essa hipermaturidade na infância fez com que aprendessem a se adaptar com facilidade. Na terapia, isso pode ser usado a favor.
— Essa superadaptabilidade pode se transformar em flexibilidade, capacidade de compreensão, sem que isso tenha um custo para a psique — expõe com esperança.
O grande aprendizado, segundo a psicóloga, é aprender a impor limites, “não porque não há outra opção, mas por escolha”:
— Esse é o grande desafio nesses casos, o melhor cenário, diante da possibilidade de se tornarem adultos infantilizados.
Mais chances de desenvolver ansiedade, depressão e problemas endócrinos e imunológicos
Patricia Faur é especialista em relações tóxicas. É referência em temas de dependência emocional, vínculos e estresse. Além de ministrar o diplomado em dependência emocional, é docente na Universidade Favaloro, onde coordena programas sobre Psiconeuroimunoendocrinologia (o estudo interdisciplinar que aborda como as emoções impactam diretamente na saúde física).
— Ser filho parentalizado (assumir a responsabilidade emocional pelos pais ou por um deles) não é de graça. Tem consequências. A primeira é que não há uma perda, mas uma falta. A gente perde algo e faz um luto pelo que perdeu, mas não é possível fazer luto pelo que não se teve. Por isso, a falta— afirma a profissional.
Ao faltar pais capazes de exercer a parentalidade, a criança cresce com uma ausência. Sentir-se insuficiente ou ter pensamentos como “eu não devo ter sido suficiente para que me amassem” ou “não devo ter sido boa o bastante para que não abusassem de mim” são comuns nesses perfis.
— Fazer coisas de adulto quando se é criança é o que, nas neurociências, se descreve como uma "carga alostática" ou "estresse crônico". Desde muito pequenos estão superadaptados, e isso não é apenas uma carga psíquica, o corpo também paga por isso — afirma. — No nível psíquico, faz com que a criança seja mais propensa a desenvolver transtornos de ansiedade e depressão, além de questões relacionadas ao psiconeuroimune, ou seja, problemas endócrinos e imunológicos, resultado do estresse prolongado desde a infância.
Algumas sequelas, na vida adulta, da parentalização na infância
Hipervigilância: estar sempre atento às necessidades e aos estados de humor dos outros (algo típico de crianças que crescem com pais imprevisíveis).
Baixa autoestima: sentir que, se não serve para algo ou não é “útil”, “bonito” ou “perfeito”, não tem valor.
Dificuldade para impor limites: têm dificuldade em dizer não, o que permite que pessoas abusivas identifiquem essa fragilidade e a explorem.
Tristeza profunda: a sensação de que a infância foi roubada, de não ter tido um adulto que oferecesse uma base segura, deixa um vazio emocional difícil de preencher.
