Crianças e adolescentes cheiram tíner na Cinelândia, são aliciados por adultos e praticam roubos; especialista critica omissão do Estado

 

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Mahatma Gandhi, cuja morte completou 78 anos no fim de janeiro (30), teve o nome eternizado na história mundial como um líder pacifista e com lutas para abolir estigmas sociais contra grupos subalternizados na Índia. Em seu país, chamava-os de Harijans ("filhos de Deus"), elevava as discussões sobre inclusão de pessoas em vulnerabilidade e deixou frases marcantes para a posteridade, entre elas “seja a mudança que quer ver no mundo”. O nome do ativista indiano batiza uma praça na Cinelândia, no Rio, cidade que bate recordes turísticos anualmente, mas tem parte de sua população local às margens, nas ruas, nas calçadas e nos rossios.

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Na Cinelândia, à luz do dia, em frente ao edifício Serrador — aquele dos mármores, dos granitos e da vista paradisíaca para cartões-postais da cidade e cuja sobras de reforma chegam a R$ 74,8 milhões. — um grupo de 15 crianças e adolescentes, além de três adultos, ocupa um trecho do gramado. Em horário de escola, numa quarta-feira, eles passam pela estátua de Gandhi e vão e vêm diariamente na direção de três adultos que os aliciam. Uma mulher e dois homens — um deles com tornozeleira eletrônica — recebem produtos que vêm das mãos dos menores e avaliam o valor. De cerca de oito metros, onde se posiciona a equipe de reportagem, é possível ver um cordão de ouro sendo pesado. Assim que entregam os objetos a um dos adultos, recebem uma garrafa com tíner e outros pequenos objetos. As crianças também chegam ali com outros objetos obtidos no entorno: lanches ou lençóis comprados por transeuntes ou com o dinheiro que pedestres doam.

Crianças dormem no gramado próximo à estátua de Gandhi, na Cinelândia

Domingos Peixoto

Diariamente, essas quase 20 pessoas se reúne numa das maiores e mais visíveis praças do Centro e cultivam um hábito que desde os idos dos anos 2000 não se via com tanta frequência. Os meninos e meninas cheiram tíner, solvente para tintas e vernizes que, por ser usado como droga inalável, que há 29 anos teve a venda proibida para menores para conter avanços, sobretudo entre crianças, adolescentes e adultos em situação de rua. As crianças e os adolescentes da Praça Mahatma Gandhi cruzam a estátua diariamente na direção dos três adultos que os aliciam, entregam dinheiro ou objetos e, em troca, recebem o líquido numa garrafa de plástico para inalação. Por mais de duas semanas, O GLOBO acompanhou, à distância, o grupo, que nesta semana tem ocupado os arredores da Praça XV.

Praça na Cinelândia vira ponto de inalação de tíner por crianças e adolescentes

A organização Visão Mundial indica que em 41% dos casos, o solvente de tinta é a porta de entrada para o vício entre crianças de 8 a 12 anos. Além das violências do abandono e das que reproduzem, as crianças de Gandhi aliciadas pelos adultos interessados em seus ganhos, estão expostas a mais riscos:

— Há risco de morte quando a pessoa faz uso excessivo dessas substâncias. E além dele, podemos dizer também risco indireto, porque se expõem a situações de violência física, sexual e patrimonial. Ela pode sofrer com um quadro de depressão profunda do sistema nervoso, levar num quadro de coma, depressão respiratória e eventualmente a morte — frisa Alvaro Pulchinelli, médico toxicologista e presidente do Conselho de Ex-Presidentes da SBPC/ML.

Roubos e perseguições

Uma estudante conta que, no dia 27 de janeiro, foi seguida por um menino de cerca de 16 anos. A universitária Aline Ramos, de 32 anos, costuma atravessar sozinha a Cinelândia a pé. Numa terça, foi abordada por um garoto que pediu que lhe comprasse um lanche. Apressada para embarcar no ônibus prestes a sair do ponto, ela negou. No momento em que chegou ao outro lado da calçada, o garoto tentou puxar o colar que ela usava.

– Eu saí do metrô e fui à farmácia. Quando saí, vi que meu ônibus estava parado no sinal. Aí o menino me abordou pedindo para eu comprar alguma coisa para ele comer. Ele veio atrás de mim e, quando cheguei ao outro lado da calçada, ele tentou puxar meu cordão. Eu virei assustada e pedi para parar. Ele me falou alguma coisa que não entendi e atravessou na direção da praça, onde se juntou aos outros.

Outra mulher foi vítima de uma tentativa de furto de celular. Dois dos meninos se aproximaram e tentaram puxar o aparelho, em vão. A pedestre agarrou um dos garotos pela camisa, tentou acionar guardas do entorno, sem sucesso.

Segundo a reportagem apurou, algumas das crianças e dos adolescentes vêm de regiões da Baixada Fluminense e de regiões periféricas do Rio. Muitos deles se dirigiam ao Centro sazonalmente, mas costumava ocupar praças de Copacabana e no Largo do Machado. O êxodo das crianças para a Praça Mahatma Gandhi foi reflexo do movimento dos “justiceiros”, grupos que passaram a agredir quem roubava em rua da Zona Sul entre 2023 e 2025.

A Lei nº 2779, de setembro de 1997, sancionada pelo governador Marcello Alencar, tornou expressamente proibida a venda de benzina, éter, tiner e acetona, a menores de dezoito anos de idade. consta no documento que a infração acarreta multa de até 10.500 UFIRs, que equivalem, segundo tabela da Secretaria de Fazenda do Rio, com correção para valores de 2025, R$ 49.883,40.

Nos anos 2000, quando nas ruas o consumo por crianças e adolescentes era expressivo, a polícia não podia reprimir o consumo porque cola de sapateiro, tíner e outros inalantes não constavam na lista de entorpecentes do Ministério da Saúde. Em 2005, uma resolução do Ministério da Saúde que considerava o Código Penal e normas da Secretaria Nacional Antidrogas enrijeceu as possibilidades de comercialização, cobrou rigor das empresas produtoras, determinou novos rótulos e estabeleceu controle de venda com fichas preenchidas com dados pessoais de quem comprava.

O advogado Gabriel Britto explica que, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente:

— É crime vender tíner a menores de 18 anos. A pena é detenção de 2 a 4 anos e multa, se o fato não constitui crime mais grave. A pena pode ser aumentada de um terço até a metade se a criança ou o adolescente utilizar ou consumir o produto.

Na Região Central do Rio, em 2026, a venda não tem controle. A não ser a que ocorre dentro do próprio grupo. Como mostra uma das imagens, uma mulher controla a entrega da droga a uma das crianças. Depois de a criança entregar o dinheiro de esmola, a adulta tira de uma mochila uma garrafa com um pequeno volume do solvente.

Ao notarem a presença da reportagem, alguns dos adultos tentam disfarçar. Um terceiro homem, de cerca de 50 anos com tornozeleira eletrônica, mantém-se mais afastado por quase todo o dia. Vai ao grupo em horários estratégicos: ele passa grande parte do tempo nos Jardins do MAM e vai aos adolescentes em momentos em que não há guardas por perto.

Equipes de assistência social, como O GLOBO acompanhou à distância, tentaram se aproximar para oferecer acolhimento de saúde e psicologia. Normalmente, eles desconfiam da aproximação. Mas ao longo das últimas semanas têm aceitado conversar também com pessoas de organizações do Terceiro Setor que chegam no intuito de ajudar. Para suavizar as abordagens, os especialistas ou integrantes das ONGs usam bola ou atividades lúdicas.

Sabrina Duraes Veloso, advogada e mestre em Direito com foco em Instituições Sociais, Direito e Democracia, explica como há falha do estado no cuidado com a criança e com o adolescente:

— Há uma falha do estado na proteção das crianças. Então, não é uma das atribuições da polícia reprimir o uso dessas substâncias, porque pela lei elas não são ilícitas. Mas seria um passo acionar o Conselho Tutelar se a criança estiver em risco. É essa entidade que atua nesse sentido, não com medida repressiva, mas de acolhimento. As pessoas em situação de rua, crianças inclusive, são invisíveis, inclusive para a lei. Porque ela prevê a proteção da criança, a proteção da saúde, a garantia dos direitos humanos. Tem toda uma normativa prevendo o acolhimento dessas crianças, mas no caso via assistência social. Só que essas alternativas legais são inócuas. Elas existem, mas não são para serem cumpridas. A lei os trata como sujeitos invisíveis. Por isso, as alternativas legais não são suficientes.

À margem dos direitos

O Estatuto da Criança e do Adolescente, que este ano completa 35 anos, define em seus artigos 136 e 95 que cabem ao Conselho Tutelar a supervisão de meninos e meninas que necessitem de serviços públicos de saúde, educação, serviço social, previdência e segurança. Também é do órgão do governo — o conselho é normalmente vinculado a prefeituras — a responsabilidade por atender a casos de violação de direitos de crianças ou adolescentes em situação de risco, ou ameaça. Com isso, cabe representação junto à autoridade judiciária nos casos de descumprimento injustificado de suas deliberações; e encaminhamento ao Ministério Público de fato que constitua infração administrativa ou penal contra os direitos dos menores de idade.

Semanalmente, os órfãos de Gandhi, são abordados por agentes do Segurança Presente — do governo do estado — para uma “dura”, quase como adultos. As abordagens envolvem perguntas sobre seu paradeiro ou comportamentos que têm nas ruas: inalação das drogas, por exemplo. Revistas não costumam acontecer, assim como não há grande atenção a acolhimento ou encaminhamento a cuidados.

Ao GLOBO, a secretaria de estado diz que "há cerca de um mês e meio" reforçou o policiamento no local, "usando o efetivo da própria Operação Segurança Presente e também através da Operação Verão", e alega ter solicitado ao Conselho Tutelar "uma reunião para discutir sobre medidas de impacto para a região".


Ainda que as imagens mostrem as cenas de adultos em volta das crianças e os flagrantes de furto, a secretaria, em nota, escreveu que "quanto aos adultos que circulam na região, não houve comprovação de venda de tíner ou mesmo exploração de menores durante abordagem. Também não foi identificado nenhum mandado de prisão em aberto em nome dos adultos que circulam pela região. Quanto aos objetos de posse desses adultos, não há registros de reclamações por roubo".

Sabrina Duraes critica a pouca vontade política de trabalho em prol do acolhimento da população de rua e lembra que, mundialmente, a discussão também ganhou ordem de prioridade na agenda 2030 da ONU, que defende a "erradicação a pobreza extrema para todas as pessoas, em todos os lugares".

— Lei nós temos. Não temos a efetividade nem a eficiência dessas leis. Nem para crianças, nem para as demais pessoas em situação de rua. Estamos em 2026 e falando de uma agenda para ser cumprida até 2030. Então, é algo que não é realizável. E este é um problema sistêmico. Do estado, da sociedade, de nós. É uma parcela que cada um tem, sustenta e aceita, na omissão, na invisibilidade, na invalidação dessas pessoas. Só que não existe normativa que responsabilize a omissão do estado. Então, ao fim do dia, em certa medida, ninguém é responsabilizado. Se a gente analisar, as crianças e os adolescentes já saíram da tutela dos pais, a família perdeu o poder. No fim do dia, não tem quem seja responsável, quem tome conta. E surge a lacuna. A lei é seletiva e existe para dar uma sensação de satisfação para a sociedade, mas não para atender suas finalidades.

Depois da “dura”, eles voltam à rotina: ao uso indiscriminado de thinner, refeições às próprias custas de esmolas e, após a comida, voltam a procurar novos alvos. Sob efeito da droga, vão como andarilhos por arredores da Lapa, da Carioca ou da zona Portuária. Alteradamente, puxam cordões ou objetos de valor nas praças. Se capturados por alguma das vítimas, se debatem até se soltarem. No grupo, uma das jovens está grávida. Ela também compõe o grupo de meninos e meninas de pouco mais de 10 anos e menos de 18 explorados adultos e à mercê de roubos e doações. Quando descansam, dormem ao redor da estátua de Gandhi. À espera de um novo dia igual.