Crianças desafiadoras: como agir
sem cair em rótulos?

Crianças desafiadoras: como agir sem cair em rótulos?

 

Fonte: Bandeira



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"Como lidar melhor com uma criança muito desafiadora em casa? Recentemente, por exemplo, minha filha de 7 anos colocou uma pilha na boca e, no dia seguinte, mesmo após uma longa conversa, acabou comendo giz na escola. Como agir nessas situações de forma firme, mas também acolhedora?"

Tenho uma filha de 7 anos em casa e confesso que muitas vezes também fico meio perdida: até que ponto comportamentos desafiadores fazem parte da impulsividade da idade ou são um sinal de que algo precisa de mais atenção?

Nessa fase, muitas emoções ainda aparecem em forma de desafios e impulsos e, na maioria dos casos, elas são resultado de um cérebro imaturo. Também observo com frequência o efeito pós-telas: quando ela fica muito exposta, especialmente a vídeos curtos, tem mais dificuldade em lidar com frustração, esperar e tolerar um “não”.

Em um cérebro que ainda está em formação, o ritmo acelerado das plataformas digitais acaba criando uma expectativa constante por novidade, o que também pode aumentar a impulsividade.

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O mais importante é observar o contexto da criança (rotina, vínculos, limites e, claro, sua relação com as telas) sem cair imediatamente em rótulos ou diagnósticos precipitados.

Palavra dos especialistas 👩‍🏫👨‍🏫

Luísa Sabino - Psicóloga, neuropsicóloga, especialista em dependência digital e pesquisadora do NIDES (CT/UFRJ), fundadora do Instituto Mentis Digitalis

🧠 Quando falamos sobre uma “criança desafiadora”, é importante considerar, antes de tudo, o que exatamente está sendo chamado de desafio. Muitos comportamentos que preocupam os adultos fazem parte do próprio desenvolvimento infantil e da forma como a criança tenta explorar o mundo, testar ambientes, lidar com emoções ou comunicar algo que ainda não consegue expressar em palavras.

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🌱 Uma criança de 7 anos ainda está em intenso processo de amadurecimento emocional, cognitivo e comportamental. Impulsividade, oposição, curiosidade excessiva e dificuldade em lidar com limites podem aparecer em diferentes fases do desenvolvimento.

⚠️ Por isso, é importante termos cuidado com diagnósticos precoces ou interpretações rápidas sobre determinados comportamentos, especialmente em um momento em que há uma tendência crescente de patologizar aquilo que, muitas vezes, precisa primeiro ser compreendido dentro do contexto de vida da criança.

👀 Situações como colocar objetos na boca, desafiar orientações ou repetir comportamentos mesmo após conversas e combinados precisam ser observadas de forma mais ampla: como está a rotina dessa criança? Como ela dorme? Como está sua alimentação, sua relação com a escola, os vínculos familiares, os limites estabelecidos em casa, demais ambientes e as respostas dos adultos diante desses comportamentos?

🔄 Muitas vezes, sem perceber, as próprias contingências dos espaços acabam reforçando determinadas atitudes.

📱 Outro ponto importante hoje são os impactos da era digital no comportamento infantil. Crianças muito expostas a telas, vídeos curtos, excesso de estímulos e recompensas imediatas podem apresentar maior dificuldade em tolerar frustrações, esperar, sustentar atenção e lidar com o “não”.

🧩 O cérebro infantil ainda está em desenvolvimento e tende a se adaptar ao padrão de imediatismo das tecnologias digitais, o que pode intensificar impulsividade, ansiedade e busca constante por estímulos.

💛 Isso não significa culpabilizar os pais ou tratar a tecnologia como vilã, mas reconhecer que o ambiente digital participa diretamente da forma como as crianças aprendem a regular emoções e comportamentos. Muitas vezes, acolher, observar e compreender o contexto é mais necessário - no processo de cuidado - do que apenas tentar corrigir o comportamento em si.

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Colocar objetos na boca, desafiar orientações ou repetir comportamentos após combinados precisam ser observados de forma mais ampla

Freepik

Carolina Nassau Ribeiro - Psicóloga, doutora em Psicanálise e autora do livro Suicídio na Adolescência: uma abordagem psicanalítica

🧠 Antes de pensar em como responder a essa criança, vale perguntar: a quem esse ato está endereçado? Um comportamento repetido, como colocar uma pilha na boca ou comer giz mesmo após uma conversa, raramente é apenas teimosia. É um ato que se mostra ao outro, que busca uma tradução, uma resposta. Algo que ainda não ganhou palavras, mas que precisa ser escutado como um pedido.

🔄 E aqui está o ponto central: um pedido que não encontra resposta tende a se repetir, e pode se repetir de forma mais intensa. Não porque a criança seja mal-intencionada, mas porque o corpo insiste naquilo que ainda não foi escutado.

🫱 O que essa criança pede, com o corpo, é que o adulto sustente um ponto firme, não de punição, mas de presença. Menos explicação e mais escuta do que esses episódios comunicam: quando acontecem, em que contextos, depois de quê.

⚖️ O Transtorno Opositivo Desafiador é um diagnóstico que merece ser olhado com cuidado. O TOD nomeia comportamentos como "irritabilidade frequente", "discussão com adultos" e "recusa em seguir regras" e os transforma em transtorno.

💭 Mas um adolescente, ou mesmo uma criança, que questiona, recusa e confronta está em processo de construção da identidade e dos próprios valores. Será que podemos colocar isso na caixa de um diagnóstico que vai marcar esse sujeito pelo resto da vida?

🩺 Uma observação necessária: comportamentos de ingestão de substâncias não alimentares em crianças acima dos 2 anos merecem também avaliação pediátrica e avaliação da totalidade dos comportamentos da criança.

NO RADAR 👀 - 3 livros, 1 filme e 1 série sobre o tema

Rita, não grita! (Editora Melhoramentos)

Rita Magrela era gritadeira. Tudo era motivo para reclamações e berros. Os amigos se cansaram e ninguém mais convidava Rita para brincar. Aí, descobriu que era hora de deixar para trás aquela mania esquisita de gritar à toa. Só assim ela conseguiria reconquistar seus amigos…

Pedro vira porco-espinho (Jujuba Editora)

Do que se alimenta a raiva? Por que estamos calmos e de repente não estamos mais? Quando algo não acontece como ele espera, Pedro vira porco-espinho. Com uma metáfora divertida sobre as transformações do humor, o livro convida o leitor a refletir sobre a origem dos próprios sentimentos.

Quem foi? (Companhia das Letrinhas)

Um livro com ilustrações muito divertidas que mostra o cotidiano de uma família virado de ponta-cabeça com as travessuras de um menino que precisa aprender a lidar com as consequências de seus atos.

Lilo & Stitch

O clássico filme da Disney fala sobre uma garota havaiana em uma família nada convencional que adota um "cachorro" alienígena. A sequência, "Lilo & Stitch 2: Stitch Deu Defeito" (2005), mostra Stitch com instabilidades moleculares enquanto aprende sobre a "Ohana".

Bluey

Prima das protagonistas Bluey e Bingo da famosa série australiana, também da Disney, Muffin

aparece em episódios hilários. Vale assistir “Cone da Muffin”, “Vovó rabugenta” e “Faceytalk”, e entender mais sobre crianças cansadas, desreguladas, teimosas — e completamente reais.

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