Criador do visual do game 'Final Fantasy' e de animes como 'Vampire Hunter D', Yoshitaka Amano abre mostra no Rio
Boa parte do público que passará pela mostra “Yoshitaka Amano – Além da fantasia”, desta quarta-feira (22) até o mês de junho, no CCBB do Rio, virá atraído pelo artista por trás da identidade visual e dos personagens da franquia de games “Final Fantasy”, lançada em 1987 e atualmente com 16 títulos. Outros visitantes virão pelas artes de mangás e animes como “Vampire Hunter D”, “Tekkaman: The Space Knight” e “Speed Racer” (os dois últimos quando Amano trabalhou na Tatsunoko Production, tradicional estúdio de animação japonês, de 1967 a 1982). Outros, ainda, podem ter tido contato com a obra do ilustrador de 74 anos por meio de suas colaborações, a exemplo do jogo de cartas colecionáveis Magic, personagens de editoras como DC Comics e Marvel, e da graphic novel “Sandman: Os caçadores de sonhos” (1999), parceria com o autor inglês Neil Gaiman premiada com o Bram Stoker de Melhor Narrativa Ilustrada.
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Maior exposição da carreira de Amano, com 218 obras, algumas inéditas, ocupando todo o segundo andar do centro cultural, “Além da fantasia” dará a oportunidade a todos os visitantes de conhecerem mais a fundo a produção do artista, sejam eles gamers, geeks e otakus (como são chamados os fãs de cultura pop japonesa) ou o público em geral, a partir de trabalhos em escalas e formatos variados e de uma sala imersiva na qual é possível estar cercado das cores e elementos gráficos que compõem os muitos universos criados por ele.
Dividida em sete núcleos temáticos, a mostra traz originais de início da carreira e trabalhos recentes, em diferentes técnicas, de desenhos a pinturas com tinta automotiva, nos quais é possível ver detalhes de seus traços e referências como as técnicas tradicionais japonesas, o surrealismo e a pop art. Para Amano, no entanto, não há diferença no que cria, independentemente de suporte ou finalidade.
— Não penso se o que vou fazer é para um videogame, uma revista, um anime. Faço tudo a partir do que está dentro de mim e do que expresso como arte. Não são coisas separadas, o que o público vai ver é a essência da minha arte — comenta Amano, durante a montagem da exposição no CCBB. — O “Final Fantasy” ganhou uma escala maior, e muitos dos seus elementos foram incorporados na minha produção. Olho para grandes nomes do passado, como Da Vinci, Michelangelo, não havia essa distinção de alta e baixa cultura, um artista fazia tudo. Ainda que se faça coisas diferentes, existe uma unidade.
Yoshitaka Amano na sala imersiva no CCBB do Rio
Guito Moreto
O projeto que trouxe Amano e sua família ao Rio — nesta terça-feira (21), na abertura para convidados, ele e o filho, Yumihiko, criaram duas obras, que ficarão expostas na rotunda até 11 de maio — teve início em 2024, quando foi inuagurada a primeira exposição no Farol Santander, em São Paulo, com curadoria de Antonio Curti. Na sequência, a mostra deu origem a montagens italianas em Milão e Roma, e passou pelo CCBB de Belo Horizonte, em dezembro do ano passado.
— Foi uma surpresa descobrir um público tão grande no Brasil. Sou muito grato porque, de São Paulo, as outras exposições vieram, também na Itália — ressalta o artista. — As crianças que aprenderam sobre mim quando comecei (nos anos 1960) tiveram filhos, hoje são outras gerações me acompanhando. A mostra tenta tornar tudo compreensível para as pessoas dessas diferentes gerações.
Sem preocupação com IA
Idealizador das exposições em São Paulo, Belo Horizonte, e, agora, no Rio, Antonio Curti diz que o projeto teve início com um e-mail enviado para o estúdio de Yoshitaka Amano, em 2022. Após algumas viagens ao Japão, a primeira mostra, no Farol Santander, contou com cerca de 90 obras, menos da metade das mostradas agora no CCBB.
— Foi aquela história clássica de “se não tentar, não vai saber o resultado”. Mandei o e-mail para o estúdio e, depois de uma resposta positiva, a conversa foi fluindo. Claro que já tinha o histórico das outras exposições minhas, o fato de já ter trazido artistas japoneses para o Brasil ajudou — conta o curador, que assinou, entre outras mostras, “Luz aeterna”, que passou pelos CCBBs de Brasília, Rio, São Paulo e Belo Horizonte, entre 2024 e 2025. — Acho que ele percebeu que era um interesse genuíno não só de um curador, mas de um fã de verdade. O Amano é meu artista favorito, sou cria de “Final Fantasy” e tantas outras coisas que ele fez. A gente desenvolveu uma relação carinhosa e de muita troca, tenho muito orgulho de nos chamarmos de amigo. Isso vai além dos trabalho, é algo que vou levar para sempre.
Antonio Curti entre ilustrações de 'Sandman'
Guito Moreto
Além de uma sala dedicada inteiramente às ilustrações de personagens e ambientes dos quase 40 anos de “Final Fantasy” e outra de colaborações — com versões para tipos consagrados como Superman e Batman (DC), Wolverine e Electra (Marvel), a capa da Vogue Itália ou desenhos trocados com o cantor David Bowie —, outro destaque da mostra é a sala imersiva, com projeções desenvolvidas pelo estúdio AYA,fundado por Curti e o artista de novas mídias Felipe Sztutman.
— Foi um processo muito interessante, porque o Amano está acostumado em ver suas criações em duas dimensões. Levei o conteúdo com um óculos de realidade virtual para o Japão, para simular o que seria a sala, e ele pode “entrar” nas suas obras, ver tudo em 3D — explica Curti. — Foi um voto de confiança enorme ele criar esse ambiente com a gente.
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Tendo começado na animação desenhando em folhas de acetato, Amano ainda mantém muito da fatura manual em sua produção, como o público poderá perceber diante da complexidade e delicadeza de seus traços. A inteligência artificial, capaz de criar animações em poucos minutos a partir de prompts (comandos) simples — e que recentemente gerou protestos, após a apropriação do estilo do Studio Ghibli, de Hayao Miyazaki, em trends virais —, não é algo com que se importe.
— No futuro pode não haver humanos e apenas IA, mas, falando do presente, no fim das contas não se trata de tecnologia, mas sim das imagens que estão na minha cabeça, dentro de mim. Esse é o trabalho mais importante e prazeroso, e é algo que a IA não pode fazer — destaca o artista. — Pode ser divertido ver alguém copiando meu estilo através da IA, mas isso não leva a desafios, a nenhum aprimoramento.
