Crescente atuação global do PCC desafia as autoridades brasileiras
Independentemente do que o governo americano venha a decidir sobre o enquadramento das facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, um fato é inegável: elas se tornaram multinacionais do crime. A expansão global do Primeiro Comando da Capital (PCC), a facção criada no início dos anos 1990 nas celas da penitenciária de Taubaté (SP), foi tema de reportagem recente no jornal americano The Wall Street Journal (WSJ), referência no mundo empresarial e financeiro. A organização criminosa é tratada como “um poder global na cocaína”. “Tornou-se um grupo verdadeiramente transnacional”, afirmou ao WSJ o procurador Lincoln Gakiya. Ele acredita que hoje o PCC é a organização criminosa que cresce mais rápido no mundo.
Editorial: Asfixia financeira é melhor método para combater PCC
PCC e Comando Vermelho (CV), facção fundada no Rio de Janeiro, usam as mesmas rotas amazônicas para transportar drogas de produtores como Colômbia e Peru a portos brasileiros. Mas, de acordo com a reportagem, o PCC parece estar à frente do CV na internacionalização, tanto que já se tornou alvo de autoridades estrangeiras. O Departamento do Tesouro americano congelou os bens de um de seus principais operadores financeiros, Diego Macedo Gonçalves do Carmo, acusado de lavar US$ 240 milhões para a organização. Em junho de 2019, ele esteve envolvido no assalto a uma agência do Banco do Brasil em Uberaba (MG) e, no final de 2022, foi condenado a sete anos de prisão por tráfico de drogas. Estava preso no Brasil quando bens de sua propriedade foram congelados nos Estados Unidos, em 2024. “Embora encarcerado, Gonçalves mantém-se ativo nos assuntos do PCC, dando instruções detrás das grades”, afirma comunicado do Tesouro americano.
Editorial: Diversificação de atividades do crime organizado é alarmante
Autoridades americanas citadas na reportagem afirmam ter identificado integrantes do PCC operando em estados como Flórida, Nova York, Nova Jersey, Connecticut e Tennessee. No ano passado, a procuradoria do estado de Massachusetts encaminhou denúncia contra 18 brasileiros ligados à facção, acusados de tráfico de armas e, um deles, do opiáceo fentanil.
Editorial: Crime organizado representa ameaça para a democracia
A internacionalização do PCC é constatada, também, por conflitos violentos em algumas das maiores cidades portuárias europeias, como Antuérpia (Bélgica), Roterdã (Holanda) e Hamburgo (Alemanha). Parceiros locais da facção estão em guerra para ampliar o mercado para a cocaína do PCC, despachada por navios de portos brasileiros — o principal deles é Santos. Há registros de ataques com granadas, tiroteios, tortura e sequestros.
Enquanto isso, o Estado brasileiro engatinha em alterações na legislação e está longe de ter articulação entre as forças de segurança pública capaz de enfrentar o crime organizado com sucesso e de forma continuada. A integração da atuação dos governos federal, estaduais e municipais na área de segurança é incipiente. Fora isso, o Brasil precisa cultivar conexões mais robustas com os países onde o PCC atua para a troca de informações necessárias a combatê-lo. As organizações criminosas são um desafio global.
