Cremes que vêm da vaca: cosméticos usam sebo bovino e conquistam adeptos de ingredientes naturais

 

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Um subproduto da cadeia de carne bovina por muito tempo destinado apenas a graxarias e à indústria química, o sebo bovino ganha novos significados com o uso cada vez mais disseminado como cosmético. O movimento é puxado por consumidores que buscam alternativas naturais aos cremes com derivados de petróleo e tem conquistado um mercado de nicho e com alto valor agregado.

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— Dentro do segmento de cosméticos, há a presença muito forte do sebo bovino por conta do avanço do mercado de cosméticos naturais. Há muita marca de sabão artesanal surgindo, e isso acaba impactando a demanda — observa o vice-presidente da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (ABRA), José Carlos Carvalho.

Segundo Carvalho, esse mercado movimentou US$ 280 milhões em 2025 e deve alcançar US$ 290 milhões em 2026, chegando a cerca de US$ 460 milhões até 2034, com um crescimento anual de aproximadamente 5,8%.

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Em Minas Gerais, a psicóloga Renata Lott, junto com seu marido, Rudson Nassif, foi umas das primeiras a lançar um creme hidratante baseado em sebo bovino, motivada pela sua própria necessidade. Adepta de uma alimentação mais natural e buscando reduzir o uso de derivados de petróleo, ela passou por uma cirurgia estética que demandava o uso de creme hidrantes e não encontrava uma alternativa que se adequasse ao seu estilo de vida.

— Achei coisa muito simples, sempre com embalagem de plástico e o plástico era uma coisa que eu não queria. Então fiz para mim, coloquei num pote de vidro e ficou muito bom— recorda a empresária fundadora da MuBalm.

Estilo carnívoro

Na logomarca, o desenho de uma vaca com um coração já evidencia o ingrediente animal sem medo de críticas.

Renata Lott e Rudson Nassif, criadores da marca MuBalm

Arquivo pessoal

—Meu pai disse que éramos loucos, que o cheiro era muito forte, mas pouquíssimas pessoas notam cheiro de sebo no nosso produto— garante.

Isso ocorre porque a gordura animal usada para a produção do cosmético está longe do sebo comum, usado na cozinha. A matéria-prima usada nos cosméticos vem da gordura visceral (tallow, no inglês) dos bovinos, especificamente do rim, e de animais criados a pasto – o que garante uma qualidade superior, segundo as empresas.

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Além do ingrediente animal, Lott também incluiu na formulação do MuBalm óleos essenciais que, junto com o processo de clarificação do sebo, garantem um produto final com alta aceitação.

— Nosso público era bem restrito a pessoas que adotavam uma alimentação mais carnívora, mais ancestral, mas vejo isso mudando agora— afirma a empresária.

A alimentação carnívora foi a porta de entrada para a biomédica Simone Moreira Rodrigues iniciar a sua produção de cosméticos à base de gordura visceral bovina em São Paulo. A Pure Tallow, fundada por ela no ano passado, inclui no seu portfólio também desodorante e hidratante labial de origem animal.

— Tem um público específico que acha maravilhoso e que vem atrás para comprar. Mas, para uma pessoa que não conhece, realmente parece estranho— reconhece Rodrigues.

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Para impulsionar seu negócio, ela tem feito parceria com influenciadores do universo da carne e da alimentação carnívora para promover o uso de cosméticos com base animal.

— Bastante gente entra em contato e eu vou vendendo, mas ainda é um nicho pequeno— afirma.

O mesmo ocorreu com o gaúcho Edgard Rigo Mattana. Nascido e criado no campo, há três anos ele decidiu adotar uma dieta baseada em carnes para tratar uma doença autoimune e estendeu seu novo estilo de vida aos cosméticos.

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— Se o que estou ingerindo está me fazendo bem, por que não utilizar desse mesmo método no cuidado com a pele?— questiona.

Desde o início do ano, ele comercializa cosméticos artesanais à base de sebo bovino sob a marca Tauras, tendo como carro-chefe um desodorante em forma de creme.

— É um mercado novo, que está revivendo. As pessoas começaram a entender que não é só de ingredientes vegetais que dá para obter cosméticos— afirma Mattana.

Segundo a dermatologista e assessora do departamento de cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Alessandra Romiti, os cremes à base de tallow bovino têm a vantagem de serem naturais, mas não dispensam a necessidade de um diagnóstico com especialista antes de serem aplicados.

— Quem tem tendência, por exemplo, à pele oleosa, pode se prejudicar com o uso desses produtos— explica.

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Ela compara o aumento do interesse pelo sebo a outros ingredientes que já estiveram na moda, como os próprios óleos vegetais.

— Há uma tendência de uma busca por produtos naturais e acho que nesse movimento, nessa correnteza, o talow nasceu de novo, foi ressuscitado. Mas sem orientação profissional, a pessoa usa, pode ter problema e reclamar que o produto não é bom, mas às vezes não é porque o produto não é bom, às vezes não é bom para aquele tipo de pele da pessoa — ressalta.

Para a indústria de reciclagem animal, a nova tendência é mais que bem- vinda, dado que garante uma demanda adicional a um ingrediente animal que estava esquecido no ramo cosmético.

— É uma matéria-prima que vai ser utilizada num produto de maior valor agregado, então aumenta, evidentemente, o seu preço de venda, tendo um fim mais nobre, digamos assim— José Carlos Carvalho, da ABRA.