Creia para compreender! O Mistério não é uma ameaça, mas um convite
Estou mergulhado, nestes dias, numa grande exclamação: Deus!
Percebo que, muitas vezes, transformamos essa exclamação em interrogação. Talvez porque seja profundamente angustiante admitir a nossa própria ignorância. Somos limitados — e lidar com o que é maior do que nós nos desconcerta. Diante do Mistério, ou o adoramos ou o tememos.
Há algo de quase presunçoso quando tentamos explicar o Infinito com nossas pequenas categorias. Queremos entender, definir, enquadrar. Mas como traduzir o que nos ultrapassa? Como reduzir o Absoluto às medidas da nossa razão?
Talvez a pergunta não seja “como explicá-Lo?”, mas “como conviver com o inexplicável?”.
E aqui começa algo muito humano.
Exatamente aí nossa humanidade ganha contornos inegáveis. Trajamos a capa defensiva do racionalismo, que nos protege da insegurança que tanto tememos — fruto do nosso desconhecimento, que nos impede de experimentar a segurança ilusória do controle.
Questionamos, exigimos respostas, buscamos justificativas.
Vê-se movimento semelhante dentro do nosso próprio lar.
Diante daquilo que não controlamos e que nos surpreende, reagimos, por vezes, com agressividade, exigindo explicações na tentativa de manter o controle e preservar alguma sensação de segurança emocional.
No casamento, quando atravessamos uma fase desafiadora, em que a clareza e até mesmo o sentido nos escapam, exigimos do outro explicações, coerência e, sobretudo, correspondência às nossas expectativas.
Mas talvez a maturidade espiritual — e também emocional — seja reconhecer e aceitar que há coisas e situações que não se explicam no tempo e na forma que desejamos. E que o mais efetivo, muitas vezes, é simplesmente aprender a conviver com o inexplicável.
O Mistério não é uma ameaça, mas um convite.
Por isso, falar de Deus — seja em qualquer espaço, inclusive neste jornal — sempre fará sentido. Não como imposição religiosa, mas como reflexão sobre aquilo que sustenta a vida: o amor que salva, vivifica, espera, se renova e, sobretudo, se doa gratuitamente, sempre apontando para recomeços.
Famílias, casamentos e relacionamentos podem superar quase tudo — sobreviver a traumas, atravessar os obstáculos mais significativos — quando são nutridos por esse amor que procede do inconceitual; um amor que não se explica, mas se recebe e se desfruta pela fé que gera vida para a própria vida.
Como ressaltava Agostinho de Hipona: “Creio para que possa compreender.”
Então, creia e vá em frente!
