Corte de árvores altera paisagem em diferentes bairros de Niterói
O cenário de quem costuma transitar pela Avenida Visconde do Rio Branco, na altura da Concha Acústica e do Instituto de Educação Física da Universidade Federal Fluminense (UFF), mudou no último fim de semana de abril, com o corte de cerca de dez árvores pela prefeitura, gerando críticas e reacendendo o debate sobre o manejo da arborização da cidade. Para Priscila Castelo, que mantém o hábito de correr diariamente no local, o impacto foi imediato.
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— Quando fui correr, fiquei espantada com o clarão que estava na pista. Tiraram quase todas as árvores do entorno, que davam sombra e serviam de refresco nos momentos de descanso. Minha indignação é com essa supressão contínua de árvores na cidade — lamentou.
O episódio não é um caso isolado. Nos últimos 12 meses, moradores vêm denunciando podas e cortes de árvores e da vegetação nativa em diferentes bairros. Há queixas citando a Avenida Almirante Ary Parreiras, em Icaraí; a Praça da Cantareira, em São Domingos; e a Avenida Rio Branco, no Centro.
Outro episódio de corte de árvores aconteceu em outubro do ano passado, quando um abaixo-assinado com mais de quatro mil nomes conseguiu impedir a derrubada de sete árvores adultas no terreno do Museu Antônio Parreiras, no Ingá. Na época, a Funarj, responsável pela gestão do espaço, justificou que a supressão das árvores no terreno vizinho ao museu era a única alternativa viável para a construção de um anexo administrativo. No entanto a prefeitura condicionou o corte à apresentação de laudos que comprovassem a real necessidade da supressão. Em dezembro, a Funarj informou que as intervenções ainda dependiam de análises técnicas. As árvorse continuam lá.
Segundo o professor de Arquitetura e Urbanismo da UFF, Pedro da Luz, uma rua com árvores pode ser até 10°C mais fresca do que uma rua sem vegetação. Isso acontece porque as copas funcionam como um escudo, impedindo que o sol incida diretamente no asfalto e aumente a sensação de calor.
— A gestão da cidade precisa ter mais cuidado com sua cobertura vegetal, pois uma árvore leva muito tempo para crescer e substituir outra que foi cortada. Além disso, a podagem excessiva deixa as árvores assimétricas, o que contribui para quedas e má formação — explica o professor.
Cidade premiada
Além do refresco, segundo Da Luz, as árvores ajudam a evitar alagamentos durante chuvas fortes, um problema frequente em Niterói.
— As árvores são capazes de absorver a água do solo, sendo um elemento fundamental na drenagem e na prevenção de enchentes. Se tivéssemos mais árvores e áreas de jardins, o solo absorveria uma parte substancial do volume produzido pelas chuvas, impedindo o acúmulo de água nas calçadas, que geram inundações — explica.
O urbanista ressalta ainda a importância do monitoramento do crescimento das árvores da cidade, desde o plantio, evitando podas agressivas e garantindo seu desenvolvimento pleno, algo que, segundo a prefeitura, já está sendo feito através de uma tecnologia de tomografia, aplicada de forma direcionada em árvores com sinais de fragilidade na cidade, que demandam um diagnóstico mais aprofundado.
A Secretaria municipal de Conservação e Serviços Públicos (Seconser) afirmou que retirou “apenas árvores de pequeno porte, de espécies exóticas em estado de fragilidade ou com risco de tombamento”, na região do Parque Poliesportivo da Concha Acústica.
O órgão informou ainda que já está sendo feita a substituição por espécies nativas da Mata Atlântica, como por exemplo ipês-amarelos, que têm mudas mais robustas.
De acordo com a prefeitura, a cidade é modelo na gestão de árvores, conquistando, em 2023, o selo Cidade Amiga da Árvore, concedido pela Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (Sbau); e, em março de 2026, o Tree Cities of the World (Cidade Árvore do Mundo), cuja proposta é destacar as cidades que gerenciam bem suas florestas urbanas.
“Esse reconhecimento é fruto de um trabalho contínuo que já resultou no plantio de mais de 150 mil mudas na cidade nos últimos anos, reforçando o compromisso da gestão com a sustentabilidade”, finalizou a prefeitura , em nota.
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