'Corredor de assédio': abordagens insistentes e até com xingamentos assustam passageiros que desembarcam no Aeroporto do Galeão
Após horas de voo num assento nem sempre dos mais confortáveis, a aterrissagem é capaz de despertar uma das melhores sensações no viajante. No Aeroporto Internacional Antonio Carlos Jobim, o Galeão, no Rio, porém, o alívio pode dar lugar ao estresse num curto espaço de tempo. O desembarque se tornou uma árdua missão para quem só deseja sair do terminal. Ao deixar a área restrita, sobretudo no setor de chegadas internacionais, os passageiros sofrem uma sequência de abordagens insistentes e, não raramente, intimidatórias de pessoas que oferecem táxi, carros de aplicativo, limpeza de calçados, chips de celular, passeios e até câmbio de moedas. Em recente coluna no GLOBO, o historiador Thiago Gomide definiu a tarefa como uma “prova de resistência”.
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Desordem no Galeão: abordagens insistentes intimidam passageiros no desembarque
O GLOBO esteve no terminal em dois dias de março para acompanhar essa dinâmica que mais causa transtornos do que facilita a vida dos usuários. No setor de desembarque, os passageiros saem numa área cercada, onde ficam representantes das cooperativas de táxi credenciadas pelo aeroporto. Essa é a primeira abordagem.
Fora desse espaço, é um salve-se quem puder, com passageiros recebendo uma enxurrada de ofertas duvidosas ao mesmo tempo, de pessoas não identificadas, como homens vestidos com uma blusa amarela apenas com a inscrição “táxi”, sem indicação de cooperativa, e outros que oferecem carros de aplicativo fora das plataformas. E não basta dizer “não”. Após a negativa, eles vão andando atrás dos “clientes” tentando convencê-los, prometendo, por exemplo, o mesmo valor que seria cobrado oficialmente, o que não é garantido. O aeroporto tem uma área destinada para táxis credenciados e um Uber Lounge no desembarque, mas quem cai na lábia desses homens é levado para o setor de embarque, onde carros atuam no paralelo.
Gringos no alvo
Os estrangeiros desavisados são presas fáceis. Há duas semanas, numa quarta-feira de manhã, uma turista asiática se aproximou de um grupo de passageiros perguntando se falavam inglês. Um dos “vendedores” aproveitou a oportunidade e disse que poderia levá-la aonde ela quisesse e já foi direcionando-a para a escada rolante, em direção à área de embarque. Minutos depois, ela retornou, precisou ir se esquivando de outras abordagens, até que recorreu ao balcão de informações.
Insistência. Dois homens, observados por um terceiro, tentam convencer passageiras a aceitar o serviço de transporte por aplicativo fora da plataforma oficial
Gabriel de Paiva
Horas depois, ocorreram duas situações que chamaram a atenção. Numa delas, ao recusar um carro de aplicativo, um turista ouviu de quem fez a oferta: “Seu babaca. Viadinho!”. Em seguida, foi a vez de uma carioca ser importunada. A advogada Mariana Bogado, de 46 anos, estava acompanhada da mãe, de 73, quando, ao ser intimidada, reagiu: “Isso é assédio!”, gritou.
— Já cheguei a ser abordada por seis homens ao mesmo tempo num percurso mínimo. Eles têm a audácia de perguntar para onde você vai. Desta vez, eu disse que não tinha que dar satisfações da minha vida. Meu sangue ferveu quando ele falou: “Vai com Deus”, em tom de deboche e continuou falando por trás de nós duas. Eu disse que iria chamar a polícia. É um corredor de assédio para quem só quer deixar o aeroporto em paz. Eles enrolam turistas. Já vi cobrarem US$ 300 (mais de R$ 1,5 mil) daqui para Copacabana. Isso tem que acabar — reclamou Mariana.
'Fuck you'
Outra aproximação que gera incômodo é a de limpadores de tênis, que chegam apertando a mão e puxando conversa, com perguntas como: “De onde você é?” e “Chegou agora?”, para tentar seduzir os clientes. Então, ofertam o serviço e jamais se contentam com o primeiro “não”. Em muitos casos, agacham e começam a escovar o calçado mesmo com a recusa do passageiro.
Cerco impertinente. Passageira deixa a área restrita no setor do desembarque e já se depara com pelo menos quatro pessoas no caminho: um deles invade até a área cercada para fazer a abordagem
Gabriel de Paiva
Numa quinta-feira, um deles gritou para um turista: “Fuck you”. O alvo do insulto foi um americano, que conversou com O GLOBO sobre o episódio, mas preferiu não se identificar. Economista de 60 anos, ele frequenta o Brasil há uma década, a trabalho, e contou que já conhecia um dos homens que o abordaram:
— Eu estava tentando fazer uma ligação, e ele me interrompeu bruscamente. Pedi que se afastasse, porque eu estava ocupado. E, então, ele me xingou. Eu não sou contra esse tipo de serviço, mas precisa haver um mínimo de respeito. Também não sou contra mantê-los dentro do aeroporto, desde que sejam treinados, identificados e registrados — opinou. — Eu ainda pensei em voltar lá, dar dinheiro só ao rapaz que me abordou com educação e deixar uma mensagem para o outro. Mas estou muito ocupado.
Disputa por clientes
O clima de tensão vai além. Afora as importunações, os passageiros são obrigados a presenciar discussões acaloradas por disputa de clientes. A reportagem testemunhou um limpador de tênis gritando para outro que iria “estourar a cara” dele e para ele “tirar onda com outras pessoas”. Em outro caso, uma briga entre um homem que oferecia carro de aplicativo e um carregador de bagagem quase chegou à agressão física. Um colega precisou intervir.
Homem aborda passageiros no desembarque do Galeão para oferecer carro por aplicativo fora da plataforma oficial
Gabriel de Paiva
O carregador de bagagem, aliás, é um personagem à parte. O que menos ele faz na área de desembarque é transportar malas. Sua função primordial ali, que persiste há anos, é o câmbio ilegal de moedas. Discretamente e pelos cantos do saguão, eles se aproximam dos viajantes e perguntam: “Já fez o câmbio? Eu tenho um preço melhor que o de lá de dentro”, referindo-se às casas de câmbio do aeroporto. A reportagem viu diversas transações, usando Pix e cédulas. Numa delas, um maleiro pagou R$ 250 por 50 dólares. Em outra situação, um turista que falava espanhol precisava trocar mil pesos, mas o maleiro se recusou, porque havia notas rasgadas.
Somente instituições financeiras e agências de viagens credenciadas podem fazer troca de moeda estrangeira, seguindo normas do Banco Central, como exigir documentos do cliente e reter o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
Nas barbas das polícias
O festival de desordem e as ilegalidades acontecem diante de autoridades públicas, como agentes da Polícia Militar e da Guarda Municipal que circulam pelo saguão — as polícias Civil e Federal também têm postos fixos no local, além da segurança privada do aeroporto. E da segurança privada do aeroporto, que é implacável com situações menos graves — a reportagem viu agentes acordando passageiros que ocupavam mais de um banco enquanto dormiam para aguardar seu voo —, mas nada fazem em relação às abordagens agressivas.
Para entidades do setor de turismo, o cenário depõe contra a imagem do Rio.
— A pessoa chega cansada do voo e ainda tem que enfrentar essa aporrinhação. Isso gera desconfiança e demonstra uma certa falta de estrutura da cidade no acolhimento ao turista — alerta Alfredo Lopes, presidente do HotéisRIO, sindicato dos meios de hospedagem da capital fluminense.
Questionada, a RIOGaleão diz que atua junto aos órgãos públicos responsáveis pela segurança para que situações como as relatadas não ocorram e que está comprometida com a busca de soluções. Já a nova concessionária, a espanhola Aena, que venceu leilão na semana passada e deve assumir o aeroporto no segundo semestre, informou que trabalha no planejamento da transição e se pronunciará futuramente sobre os planos para o Galeão.
A Polícia Federal apura a questão do câmbio ilegal, mas diz que não divulga informações sobre investigações em andamento. A Polícia Civil afirma que todas as práticas criminosas são apuradas com rigor, e a Guarda Municipal explica que atua no entorno do aeroporto, dando fluidez e fiscalizando irregularidades no trânsito. A Secretaria municipal de Transportes (SMTR), por sua vez, ressalta que faz ações para garantir que os passageiros de táxis e carros de aplicativo sejam atendidos com respeito, segurança e transparência na cobrança das corridas.
