Uma obra rodoviária na Inglaterra revelou um cemitério com mais de 100 sepultamentos, muitos deles com características que intrigam os arqueólogos. Mais da metade dos corpos identificados até agora foi enterrada de maneira considerada atípica, incluindo pessoas decapitadas ou colocadas em posição fetal. A descoberta ocorreu durante as escavações para ampliar um entroncamento da rodovia M5, perto de Cheltenham, no condado de Gloucestershire. Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp O sítio funerário reúne vestígios associados aos períodos Paleolítico, Romano e Saxão, de acordo com reportagem da BBC.
Segundo Ada Torka-Lis, responsável pelo projeto da Archaeological Research Services, os achados incluem um cemitério provavelmente romano, mas também indicam a presença de pessoas de diferentes épocas, culturas e religiões. Moradores da região foram convidados, na quinta-feira, a conhecer as descobertas. Corpos enterrados de maneiras incomuns A proporção de sepultamentos fora dos padrões funerários habituais é uma das características que mais chamam a atenção dos pesquisadores. — O que torna o local único é que encontramos muitos sepultamentos fora do padrão; alguns corpos foram decapitados, outros estavam em posição fetal — afirmou Torka-Lis. A arqueóloga explicou que, em cemitérios romanos, enterramentos considerados atípicos costumam representar apenas uma pequena parcela do total. No sítio de Gloucestershire, porém, a proporção encontrada até agora é muito maior. — Normalmente, nos cemitérios romanos, encontraríamos apenas alguns por cento de sepultamentos fora do padrão. Até agora, em toda a área, provavelmente encontramos mais de 100 sepultamentos no total, [dos quais mais de 50 são fora do padrão], o que é bastante singular — explica. As razões para essas práticas funerárias ainda precisam ser esclarecidas. Os pesquisadores também buscam determinar a idade dos restos mortais e compreender quais culturas e religiões estavam representadas no local. Moedas, joias e objetos preservados Além dos restos humanos, as escavações revelaram broches ornamentados, pulseiras, fragmentos de cerâmica, moedas, ossos de animais e tijolos e telhas descritos como “belissimamente preservados”. O material será encaminhado a especialistas, que examinarão os ossos humanos e de animais, as moedas e os demais objetos. As análises poderão ajudar a estabelecer a idade dos vestígios e a reconstruir aspectos da vida das pessoas que passaram pela região. Torka-Lis considera que a descoberta pode ter importância para além de Gloucestershire, embora ainda não queira afirmar que o sítio receberá reconhecimento nacional. — Ainda não quero afirmar isso, mas é muito provável. Encontramos muitas coisas muito, muito singulares, que nunca vi em nenhum outro lugar do Reino Unido, então é muito, muito provável. Vestígios podem revelar histórias desconhecidas Julian Tooke, integrante do Conselho do Condado de Gloucestershire responsável pelas áreas de negócios, desenvolvimento econômico, planejamento e infraestrutura, destacou o potencial dos achados para ampliar o conhecimento sobre a história local. Ele afirmou estar “realmente entusiasmado” com a possibilidade de os vestígios indicarem que pessoas de três religiões diferentes viviam na região há cerca de 2 mil anos. Tooke também elogiou o trabalho da equipe de arqueologia, que, segundo ele, “fizeram um trabalho fantástico”. — Sua história está sob seus pés. O que adoro nisso é que está contando histórias; os mortos estão falando, de certa forma, e nos contando histórias sobre o passado que nunca imaginávamos conhecer — afirmou. As escavações começaram no início de 2026, como parte dos trabalhos preparatórios para a modernização do entroncamento 10 da M5, perto de Cheltenham. O projeto tem orçamento de £ 407 milhões e previsão de conclusão em 2029. Atualmente, os motoristas só conseguem acessar a rodovia no sentido norte pelo entroncamento. Com a conclusão das obras, será possível entrar e sair da M5 nos dois sentidos. A investigação arqueológica deverá ajudar a esclarecer a idade dos sepultamentos, a origem dos indivíduos e as possíveis razões para tantas práticas funerárias incomuns. Os pesquisadores também buscam entender quais culturas e religiões estavam representadas no local e se o sítio poderá ser reconhecido oficialmente como de importância nacional.
O Globo