Coquetéis clássicos que só tem no Brasil; confira
Em poucos dias, o Guia Michelin Rio de Janeiro & São Paulo 2026 vai realinhar as órbitas da gastronomia brasileira. Até lá, o mundo dos sabores e da hospitalidade entra numa espécie de Mercúrio retrógrado, quando não se sugere fazer grandes movimentos, nem tomar decisões importantes. Não que isso vá mudar alguma coisa a esta altura do campeonato, mas é sempre bom ter alguém para culpar, caso estrelas mudem de lugar.
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A grande novidade desta edição é a chegada do Exceptional Cocktails Award, categoria que “valoriza a experiência gastronômica completa, celebrando profissionais que unem criatividade e técnica para proporcionar momentos únicos aos seus clientes”. Nada mais justo. Afinal, a coquetelaria já conquistou um lugar à mesa e deixou de ser exclusiva dos balcões faz tempo.
A nova ponta da estrela seria uma forma de “reconhecer a excelência na arte de misturar ingredientes frescos, ervas e especiarias, com diferentes métodos para criar sabores complexos que complementam pratos memoráveis”. A classificação já existe em países como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Irlanda. Os vencedores são bartenders aprumados, com paletós ou aventais impecáveis, sempre aparecendo com taças lindíssimas em balcões cinematográficos.
Mas no país das batidinhas, garrafadas e botequins, como isso funcionará? Os grandes clássicos da nossa coquetelaria não nasceram em grandes bares, mas de improviso, em lugares simples. Um dos maiores exemplos disso é o Macunaíma, astro total do Boca de Ouro, em São Paulo. Surgiu por acaso, e, hoje, a combinação de cachaça, Fernet, xarope de açúcar e limão, batida na energia para dar aquela nuvenzinha no alto do copo, é uma das mais reproduzidas pelo país. Poderia tranquilamente ser replicada mundo afora. Perfeito para acompanhar o bolovo servido lá desde que a casa abriu.
Por essas e outras, fico me perguntando em que fonte o Bibendum, o famoso boneco da Michelin, foi beber para chegar ao consagrado que receberá uma das mais importantes honrarias do setor de alimentos e bebidas na premiação que acontece no dia 13 de abril, no Copacabana Palace. Espero que tenha ido ao Nosso, que vive num flerte constante entre bar e cozinha e transformou o Tropicalismo em carta de coquetéis, combinando gim com maxixe, tequila com cajuína e vodca com cajá. Um dos balcões mais consistentes da cidade, com uma gastronomia tão robusta quanto.
Mas espero também que tenha rodado outros lugares. Que tenha ido até a Casa Porto tomar bênção do Tomé e pedir para ele explicar pela milionésima vez como se faz a mamata enquanto come uma moela à milanesa. Que tenha passado no Suru Bar naquele dia de ferveção total e, mesmo assim, tenha conseguido um espacinho para um Zé (Cynar, cachaça, limão, mel e hortelã) com frango a passaralho — calma, são só coxinhas de frango marinadas na cerveja, com aioli defumado. E ido ao Momo para refrescar a garganta e matar a fome depois do Samba do Trabalhador com batida de maracujá e bolinho de arroz.
Sei que não dá mais tempo. Mas da próxima vez que os inspetores estiverem por aqui, recomendo ir até a feira mais próxima, pedir um pastel de palmito com caldo de cana e dar um totozinho de Campari.
Excepcional, digno de estrela.
