Copa sem delay? Em 1930, jornal do Rio transmitiu o 1º jogo do Brasil em Copas por cabo telefônico submerso

Copa sem delay? Em 1930, jornal do Rio transmitiu o 1º jogo do Brasil em Copas por cabo telefônico submerso

Fonte: Bandeira



Muito antes da televisão, da internet e das transmissões em tempo real por aplicativos, um jornal carioca conseguiu algo extraordinário: acompanhar e divulgar lance a lance a primeira partida da Seleção Brasileira em Copas do Mundo. O jogo foi disputado no Uruguai, em 14 de julho de 1930, contra a Iugoslávia.

Reportagens publicadas pelo Diário da Noite, em julho de 1930, acessadas pela CBN através da Biblioteca Nacional, mostram que o periódico montou uma megaoperação para transmitir ao público brasileiro as informações do jogo, disputado em Montevidéu. A conexão foi feita pela empresa italiana Italcable, que utilizou um cabo submarino de milhares de quilômetros, ligando o Uruguai ao Brasil.

Dias antes da estreia da seleção, o jornal anunciou com destaque que o telefone da redação estaria ligado diretamente ao campo onde a partida seria disputada.

O esquema funcionava da seguinte forma: um representante do Diário da Noite permanecia no estádio Parque Central, em Montevidéu, acompanhado de jornalistas e dirigentes brasileiros. De lá, as informações eram transmitidas por telefone até uma estação da Italcable na capital uruguaia. O sinal seguia por um cabo submerso no Rio da Prata até o Rio de Janeiro, chegando diretamente à redação do jornal. Na porta do edifício, foram instalados alto-falantes para que todos pudessem ouvir os anúncios.

O professor de telecomunicações do Instituto Mauá de Tecnologia, Eduardo Pouzada, explica que essa transmissão foi um marco para a tecnologia do período.

“Transmitir por um cabo muito, mas muito longo, era uma façanha. A instalação desse cabo não era algo simples de ser feito, mas sim um serviço profissional de longuíssima distância. Por meio dele, era possível captar um sinal a milhares de quilômetros de distância. Na década de 1930, isso era absolutamente revolucionário, porque a tecnologia no Brasil ainda estava engatinhando.”

Em uma das reportagens, o periódico descreve que a ligação permitia conversar com Montevidéu de forma clara, algo que impressionava os leitores em uma época em que chamadas internacionais ainda eram raridade. Houve até uma entrevista exclusiva com o técnico da seleção brasileira, Píndaro de Carvalho, detalhando quem jogaria naquele dia.

O jornal chegou a publicar uma arte mostrando o trajeto do cabo submarino e a estrutura utilizada para a transmissão.

Arte publicada em jornal mostrando a estrutura utilizada para a transmissão.

Acervo / Biblioteca Nacional

A estreia do Brasil na Copa do Mundo aconteceu em 14 de julho de 1930. Apesar da derrota, por 2 a 1 para a Iugoslávia, a partida entrou para a história por outro motivo: foi um dos primeiros eventos esportivos internacionais acompanhados quase em tempo real pelo público brasileiro.

Transmissão no Rio teve o dobro de espectadores que no estádio, no Uruguai

Segundo informações da CBF, cinco mil torcedores acompanharam a partida no estádio, no Uruguai. O Jornal da Noite estimou em 10 mil o público em frente ao prédio do periódico ouvindo nos alto-falantes a partida contra a Iugoslávia. Na edição do dia seguinte, uma foto comprova o apelo popular do esporte há quase cem anos.

Multidão na porta do prédio acompanhando a transmissão.

Acervo/ Biblioteca Nacional

Chama o VAR: erro de comunicação anulou gol do Brasil

O jornal conta que a transmissão foi um grande sucesso, exceto por um pequeno erro de informação: num dos gols da Iugoslávia foi informado como se fosse do Brasil. A correção foi feita minutos depois, cancelando a comemoração dos torcedores cariocas. Um banho de água fria, quase um VAR da época.

96 anos depois, torcedores buscam tecnologia para evitar segundos de delay

Se em 1930 o dilema era saber o resultado das partidas no mesmo dia, em 2026 torcedores estão buscando reduzir ainda mais o tempo de comunicação. Noventa e seis anos depois, o grande temor é ouvir o gol pela televisão do vizinho, devido ao delay entre as transmissões.

Diferentes formatos têm atrasos distintos. O professor de telecomunicações do Instituto Mauá de Tecnologia, Eduardo Pouzada, explica que o rádio ainda é imbatível nessa questão. Para acompanhar com imagens, a TV Digital oferece o melhor caminho.

“Sistemas analógicos são limitados apenas pelas características físicas do meio de transmissão e, por isso, são os mais rápidos que existem. A televisão digital vem em seguida, desde que o sinal seja captado diretamente por uma antena de TV aberta. Quando falamos dos serviços de assinatura, há um atraso maior, porque eles recebem o sinal de quem está gerando o conteúdo. Por fim, os serviços de internet são os que apresentam o maior atraso de transmissão.”

No caso da TV digital, é necessário ter uma antena específica para garantir o sinal. O equipamento pode ser adquirido por valores a partir de R$ 30. Caso o espectador possua TV analógica, é preciso adquirir um conversor de sinal.

O torcedor Rodrigo Mancha resolveu investir no equipamento para não correr riscos durante os jogos da Seleção.

“É a primeira Copa que a gente lida com esse tipo de situação. E a alternativa que eu encontrei foi ter uma antena digital para cada aparelho da minha casa. Não sei se vou assistir aos jogos em casa, mas, se for o caso, vou colocar na antena digital, porque não quero perder nenhum momento de emoção.”

O Brasil estreia na Copa do Mundo de 2026 no dia 13 de junho, contra o Marrocos, às 19 horas (horário de Brasília).