Convocado por Ancelotti, Neymar terá 'last dance' com a seleção nos EUA depois de dividir novamente o Brasil
Aconteceu. Quando a bola rolar para a Copa do Mundo de 2026, Neymar estará mais uma vez no centro das atenções. Convocado oficialmente por Carlo Ancelotti entre os 26 jogadores que representarão o Brasil no torneio disputado nos Estados Unidos, México e Canadá, o camisa 10 do Santos chega ao último capítulo de sua trajetória em Mundiais novamente como protagonista, quer jogue, quer fique no banco.
A presença do atacante na lista do treinador italiano encerrou meses de especulações sobre sua condição física e espaço dentro da nova geração da seleção brasileira. Aos 34 anos, Neymar disputará sua quarta Copa do Mundo, carregando um peso diferente das edições anteriores: além da despedida definitiva do principal palco do futebol internacional, a questão é: como será a sua última participação com a seleção brasileira, redenção e glória ou melancolia mais uma vez?
Desde que surgiu no Santos, ainda adolescente, Neymar foi apontado como herdeiro natural da tradição brasileira de camisas 10. Mais de uma década depois, tornou-se o maior artilheiro da história da seleção, acumulou protagonismo global e uma carreira marcada tanto pela genialidade técnica quanto pelas frustrações em Mundiais com o Brasil. Mas a história de Neymar com a camisa verde e amarela extrapola o futebol.
Principalmente a partir de 2018, o atacante passou a ocupar também um espaço de polarização pública. Em um país atravessado por divisões políticas nas duas últimas eleições, as relações e posicionamentos de Neymar e a forte exposição nas redes sociais o transformaram em uma figura constantemente comentada além do campo. O debate deixou de ser apenas esportivo.
Genialidade atrapalhada por lesões
Dentro de campo, é quase unanimidade que o craque segue como o maior talento brasileiro desde Ronaldo Fenômeno e um dos jogadores mais decisivos de sua geração. Mas fora das quatro linhas, Neymar representa os excessos da era das celebridades esportivas e uma imagem distante da identificação popular construída por ídolos históricos da seleção.
As lesões em momentos decisivos ajudaram a alimentar essa relação complexa conforme Neymar foi "perdendo para o próprio corpo". Em 2014, deixou a Copa após sofrer uma grave contusão nas quartas de final. Em 2018 e 2022, conviveu novamente com problemas físicos e terminou os torneios sem conseguir conduzir o Brasil ao tão esperado hexacampeonato, ainda que não tenha tido outros nomes de peso semelhante para dividir a responsabilidade em um jogo coletivo.
Ainda assim, diferentes técnicos e ciclos da seleção mantiveram o camisa 10 como referência da equipe. Agora sob o comando do italiano Carlo Ancelotti, ele chega à Copa em um contexto diferente: como liderança experiente, mas desgastada, de um grupo em renovação. Se o Brasil conquistar o título, Neymar poderá encerrar a trajetória na seleção com o troféu que perseguiu durante toda a carreira e mudar definitivamente a forma como será lembrado pela torcida brasileira. Se não vier a taça, 2026 ainda representará o encerramento de uma era em que poucos atletas mobilizaram tantas expectativas, paixões e divisões quanto o maior artilheiro da seleção brasileira.
O debate na era Ancelotti
A possibilidade de Neymar aparecer entre os 26 convocados para a Copa acompanhou praticamente todo o ciclo de Carlo Ancelotti desde sua chegada à seleção brasileira, no ano passado. Mesmo nas listas largas, Neymar só foi convocado esta vez. Longe de sua melhor sequência física e convivendo com dúvidas sobre ritmo competitivo, o camisa 10 do Santos permaneceu no centro das discussões sobre a montagem do elenco para o Mundial de 2026. A cada convocação, entrevista coletiva ou lista preliminar divulgada pela comissão técnica, o nome de Neymar voltava ao debate.
Nos bastidores da CBF, havia o reconhecimento do peso histórico do atacante dentro da seleção. Até o presidente Samir Xaud tentou uma aproximação pessoal. Além da liderança técnica construída ao longo de mais de uma década, Neymar carregava experiência de quatro Copas do Mundo e status de principal jogador brasileiro de sua geração, tendo o nome pedido por todos os atletas no ciclo.
Havia, porém, vozes contrárias na seleção. A comissão de Ancelotti discutia até que ponto a presença do camisa 10 justificaria uma vaga entre os 26 em um elenco pensado para ter maior intensidade física e menos dependência individual. O debate rapidamente extrapolou o ambiente interno da seleção. Ex-jogadores, comentaristas e torcedores passaram meses divididos entre dois argumentos principais: de um lado, a defesa de que um talento do tamanho de Neymar deveria disputar uma última Copa independentemente das limitações físicas; do outro, a visão de que o Brasil precisava encerrar definitivamente a dependência construída em torno do atacante nos últimos ciclos.
Ancelotti evitou transformar a situação em novela pública, mas não fugiu do tema. Em diferentes entrevistas, o treinador italiano reforçou o respeito pela trajetória de Neymar e deixou claro que a convocação seria baseada no momento esportivo, na condição física e no encaixe coletivo. A presença do atacante na lista final acabou indo de encontro à tendência que já ganhava força nos últimos meses dentro da seleção: a de que o ciclo de Neymar em Copas havia chegado ao fim. Mais do que uma escolha individual, a decisão de Ancelotti simboliza também a força de Neymar no grupo, apesar da tentativa de abrir espaço para uma nova configuração da seleção brasileira, após mais de uma década orbitando em torno do camisa 10.
