Contrariando Trump, Irã afirma que seu urânio enriquecido não será transferido 'para lugar nenhum'

 

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O Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou nesta sexta-feira que seu estoque de urânio enriquecido não será transferido "para lugar nenhum", apesar da alegação feita pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, um dia antes de que Teerã havia concordado em entregá-lo. Esta é uma das exigências impostas por Washington para firmar um acordo de paz e cessar os ataques ao território iraniano.

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"O urânio enriquecido do Irã não será transferido para lugar nenhum. Assim como o solo iraniano é sagrado para nós, esta questão é de grande importância", disse o porta-voz do ministério, Esmail Baqai, à televisão estatal.

A Casa Branca e o Pentágono, bem como as autoridades israelenses, já deixaram claro diversas vezes que a guerra entre os EUA, Israel e Irã, iniciada em 28 de fevereiro, tem como principal objetivo impedir que o regime iraniano tenha acesso a armas nucleares. Em seus comentários à imprensa na quinta-feira, Trump expressou repetidamente otimismo de que as partes estivessem perto de chegar a um acordo de paz.

— Eles concordaram em nos devolver o pó nuclear — disse o presidente americano a repórteres na Casa Branca, usando seu termo para se referir aos estoques de urânio enriquecido, acrescentando: — Há uma grande chance de chegarmos a um acordo.

Trump tem usado essa expressão para descrever o estoque de urânio enriquecido próximo ao grau necessário para bombas nucleares que o Irã acumulou nos últimos anos, estimado pela Agência Internacional de Energia Atômica em cerca de 440 quilos. Esse estoque tem sido um ponto crucial nas negociações pelo fim do conflito no Oriente Médio.

Nesta sexta-feira, o líder republicano chegou a reafirmar que não havia mais "obstáculos" para se chegar a um acordo. Trump também assegurou à AFP logo após o anúncio do Irã sobre a reabertura do Estreito de Ormuz, que não restam "pontos conflituosos" para concluir um acordo de paz.

— Estamos muito perto de chegar a um acordo — declarou o presidente americano por telefone. Perguntado se havia diferenças a resolver entre os dois países, Trump respondeu: — Não há pontos conflituosos em absoluto.

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Os Estados Unidos querem que o Irã transfira o material para fora do país, mas autoridades do regime iraniano não concordaram publicamente em fazê-lo. Também não está claro qual será o destino de toneladas adicionais de urânio enriquecido a níveis mais baixos que também fazem parte do estoque iraniano.

O Irã sustenta que seu programa atômico tem fins civis e, na quarta-feira, a chancelaria reiterou que ninguém pode "tirar" do país seu direito de usar a energia nuclear de forma pacífica, mas destacou que o nível de enriquecimento de urânio é "negociável". Israel também aumentou a pressão e o ministro da Defesa, Israel Katz, declarou que, se o Irã rejeitar uma proposta de Washington para renunciar ao "armamento nuclear", seu país lançará ataques "ainda mais dolorosos".

— O Irã está em uma encruzilhada histórica: um caminho consiste em renunciar ao terrorismo e ao armamento nuclear, em conformidade com a proposta americana; o outro leva a um abismo — afirmou o ministro durante uma cerimônia. — Se o regime iraniano escolher a segunda opção descobrirá muito rapidamente que Israel pode bombardear alvos ainda mais dolorosos.

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Negociações em curso

Washington e Teerã retomaram as negociações pelo fim do conflito com mediação do Paquistão após acordarem um cessar-fogo de duas semanas, anunciado publicamente por Trump na noite do dia 7 de abril e que entrou em vigor na manhã seguinte. Na ocasião, o presidente americano publicou o anúncio em sua rede social Truth Social horas após ameaçar "levar o inferno" para o Irã, diante do fim de mais um prazo pela reabertura do Estreito de Ormuz, bloqueado sob intimidação da Guarda Revolucionária iraniana (IRGC, na sigla em inglês).

O cessar-fogo de 14 dias está previsto para expirar em 22 de abril, na próxima quarta-feira, mas Trump, que anteriormente havia dito que estender o cessar-fogo poderia não ser necessário, reconheceu a possibilidade prorrogação do prazo caso estejam próximos de fechar um acordo de paz com Teerã. Além disso, afirmou ainda que consideraria viajar ao Paquistão para assinar o documento caso os Estados Unidos e o Irã cheguem a um consenso para encerrar a guerra.

— Eles estão dispostos a fazer coisas hoje que não estavam dispostos a fazer há dois meses — afirmou o presidente americano ontem, sem dar detalhes.

Ele acrescentou ainda que os paquistaneses "querem que ele vá" até Islamabad e elogiou as autoridades que atuam como intermediários nas negociações sobre a guerra, dizendo que eles "têm sido ótimos". O governo paquistanês tem cortejado Trump desde o ano passado, inclusive indicando-o para o Prêmio Nobel da Paz.