Contaminadas pela lógica dos clubes associativos, SAFs de Atlético-MG e Botafogo mergulham na crise

 

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Atlético-MG e Botafogo se enfrentam hoje, às 16h, na Arena MRV, em busca de uma guinada no Brasileiro, campeonato em que nos últimos anos entraram como favoritos. Colados na tabela com 17 pontos, os clubes vivem momentos semelhantes também fora de campo: viraram SAFs recentemente e viram suas dívidas ultrapassarem R$ 2 bilhões.

Os balanços referentes a 2025 de mineiros e cariocas colocam em xeque não o modelo de SAF em si, mas como parte dele foi implementado no futebol brasileiro. Depois de ciclos de investimento agressivo, aumento da competitividade e títulos relevantes (o Botafogo foi campeão brasileiro e da Libertadores em 2024), os clubes agora convivem com aumento do endividamento, problemas de caixa e necessidade de reorganização em meio ao avanço do fair play financeiro no país.

Em contextos diferentes, Atlético e Botafogo se tornaram exemplos do mesmo fenômeno: SAFs que buscaram acelerar a performance esportiva sem ter lastro suficiente de capital e receitas que sustentem o nível de gastos. Para o economista Cesar Grafietti, que faz parte do conselho da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol, a herança do modelo associativo atrapalhou o processo em ambos os casos:

— São duas gestões de SAF que permaneceram com a mentalidade equivocada do modelo associativo: gastar antes para conquistar (títulos) e depois ver o que fazer com a dívida. Mas chegou um deadline que não permite mais que os clubes continuem atrasando pagamentos. Eles passam a ser geridos por um fair play financeiro que controla isso.

A lógica adotada por Galo e Botafogo partiu da expectativa de que o aumento de competitividade produziria receitas suficientes para compensar os investimentos elevados. Algo que não se sustenta no futebol brasileiro, segundo Grafietti.

— Todo mundo usa o exemplo europeu, de que conquistar vaga na Champions retorna o investimento. Mas lá se distribui dezenas de milhões de euros por ano. Aqui, a diferença de receita entre ser campeão e terceiro colocado é relativamente pequena — pondera.

Os números das SAFs de Atlético-MG e Botafogo

Editoria de Arte

O diagnóstico aparece refletido nos balanços. No caso dos cariocas, o crescimento da folha salarial e dos investimentos em contratações foi acompanhado por aumento do endividamento e da dependência da venda de atletas para cobrir o rombo. Após Luiz Henrique, Igor Jesus e Thiago Almada, negociados no ano passado, outro nome importante das conquistas de 2024 está prestes a deixar o clube: o zagueiro Alexander Barboza foi vendido ao Palmeiras por R$ 18 milhões, divididos em quatro parcelas a serem pagas até o fim do ano que vem. A primeira delas, de R$ 5,5 milhões, já foi quitada para que o Botafogo consiga honrar com os salários de maio dos atletas.

Já o Atlético, depois de aportes iniciais relevantes e reestruturação parcial de passivos, continuou ampliando despesas operacionais e custos do futebol acima da capacidade de geração de caixa recorrente. Com uma dívida bancária de mais de meio bilhão de reais, o clube deve receber um aporte de R$ 500 milhões da Galo Holding, controlada pelos 4Rs (Rubens Menin, Rafael Menin, Ricardo Guimarães e Renato Salvador), que comandam a SAF como investidores internos.

Desafio está na gestão

Apesar das dificuldades enfrentadas pelos rivais desta tarde, especialistas rejeitam a ideia de que os problemas sejam consequência direta do modelo SAF.

— Ele tem uma proteção maior para que isso não aconteça. Há regras de governança e transparência melhores que na associação. O problema é gestão — diz o advogado de direito desportivo Cristiano Caús, destacando que muitas SAFs brasileiras nascem em meio à urgência financeira dos clubes e sem tempo para a construção de estruturas sólidas de compliance e análise de investidores.

A implementação do fair play financeiro pela CBF tende a mudar esse cenário nos próximos anos. A regulamentação visa a ampliar o controle sobre atrasos salariais, dívidas e compromissos financeiros assumidos, diminuindo a possibilidade de perpetuação de déficits. Os clubes terão que se ajustar ou serão sancionados, como já vem acontecendo com o transfer ban aplicado pela Fifa ao Botafogo.

Além disso, ao contrário das associações, as SAFs podem ir à falência. E, apesar da existência de recursos como a Recuperação Judicial, elas têm fins lucrativos e, por isso, não se enquadram nas medidas governamentais que costumam ajudar os clubes associativos.