Adalberto de Queiroz Especial para o Jornal Opção
Nem todos amaram Veneza como Joseph Brodsky (1950-1996 — viveu 55 anos. Recebeu o Nobel de Literatura em 1987).
Eu mesmo amo a Veneza de “Marca de Água”, a de Brodsky, pois para mim a cidade não passa de uma Disneylândia de arquitetos e marchands. O poeta russo diz que Goethe chamou a este lugar “República dos Castores”, e Montesquieu foi terminante: “Un endroit où il ne devrait n’avoir que des poissons” — um lugar onde não deveria haver senão peixes¹.
A Itália, dizia a poeta russa Anna Akhmátova, “é um sonho recorrente, que nos persegue até ao fim dos nossos dias”². Brodsky retoma a frase da mestra de Leningrado com o seu humor seco: a chegada dos sonhos é imprevisível, e a sua interpretação “inspira bocejos”; se alguma vez forem classificados como gênero, o seu principal processo estilístico será “sem dúvida o ‘non sequitur’”, o “não se segue” dos lógicos, a conclusão que não decorre das premissas.
É um aviso ao leitor e também uma licença: o livro que vem a seguir não promete lógica, promete retorno. Quem ama a Veneza de “Marca de Água” ama, antes de tudo, um sonho que volta.
Livro do poeta e ensaísta russo Joseph Brodsky, Prêmio Nobel de Literatura de 1987 | Foto: Divulgação Joseph Brodsky nasceu em Leningrado (que o mundo civilizado conhece como São Petersburgo), em 1940, numa cidade de canais e de luz cinzenta.
Condenado em 1964 a cinco anos de trabalhos forçados, foi expulso da União Soviética em 1972 e fixou-se nos Estados Unidos. Em Veneza, achou uma espécie de paraíso: voltou durante dezessete invernos, quando os turistas se vão e a cidade ficava quase só dele, como compensação por tudo o que o exílio lhe tirara.
‘Ah, a luz do inverno nesta cidade!’: ela ‘tem a extraordinária capacidade de intensificar o poder de resolução do nosso olho até à precisão microscópica’. De manhã, a luz encosta-se à janela e, depois de abrir os olhos, corre à nossa frente dedilhando com os seus longos raios o perfil de arcadas, colunatas, chaminés de tijolo vermelho, santos, leões
Em Veneza, tudo começa pelo olfato do poeta. Na primeira noite, de inverno e de vento frio, ao descer os degraus da estação, antes que a retina registrasse qualquer coisa, Brodsky foi tomado por uma felicidade absoluta que, para ele, sempre teve o cheiro de algas geladas: o cheiro da infância nas margens do Báltico, pátria da enguia do poema de Eugenio Montale, “a sereia/ dos mares frios que deixa o Báltico”, na tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti³.
Brodsky parece se sentir essa enguia. A infância não foi feliz, porque “as infâncias raramente o são, sendo antes uma escola de insegurança e desamor-próprio”, e dela, para escapar, “só mesmo se fosse uma enguia”4.
Depois do olfato, vem a luz. “Ah, a luz do inverno nesta cidade!”, exclama o poeta: ela “tem a extraordinária capacidade de intensificar o poder de resolução do nosso olho até à precisão microscópica”.
De manhã, a luz encosta-se à janela e, depois de abrir os olhos, “como se abrisse conchas, corre à nossa frente dedilhando com os seus longos raios o perfil de arcadas, colunatas, chaminés de tijolo vermelho, santos, leões…”. Brodsky duvida de que o cérebro dê conta de tanta beleza e recorre à máquina Kodak, tudo para obedecer ao “Pinta!” que a luz lhe segreda, uma luz de inverno, sem calor nem energia, cuja única ambição é alcançar um objeto e torná-lo visível.
É a de Giorgione ou de Bellini, e não a de Tiepolo ou de Tintoretto, quando “a cidade demora-se nela, saboreando o seu afago, a carícia do infinito”. Daí a conclusão: “o objeto de arte não é senão aquilo que torna íntimo o infinito”5.
De todos os sentidos, é a visão que move o poeta. Para ele, “o olho é o mais autônomo dos nossos órgãos e a vista é o instrumento de adaptação ao meio que permanece hostil, por muito bem que a ele nos adaptemos”.
E “nessa cidade que não serve para ser um museu, sendo ela própria uma obra de arte, a maior obra-prima que a nossa espécie criou”, Brodsky foge das hordas de turistas e vândalos e mantém os olhos bem abertos à beleza que o rodeia6. Brodsky conta que se tornou ‘um ser de passagem’ e que o que mais o desanimava era ‘a impossibilidade de convencer o sonho da minha presença nele’.
Julga que se poderá falar de fidelidade ‘quando alguém volta ao lugar do seu amor, ano após ano, na estação errada, sem garantia de ser correspondido’ O homem que se rende assim à beleza da cidade desconfia, porém, de quem a persegue como fim.
Em novembro de 1977, convidado pela Bienal sobre a Dissidência, acompanha a ensaísta americana Susan Sontag, hospedada no Gritti, à casa de Olga Rudge, que ele chama de “a mulher do Pound”. Ezra Pound: poeta, crítico americano e “guia” intelectual de uma geração nos Estados e na Europa | Foto: Reprodução
Na juventude traduzira poemas de Pound para o russo, “imprestáveis”, admite; gostara dos originais pela “frescura bombástica”, mas os “Cantos” não o entusiasmaram: o erro era a busca da beleza, que “é sempre um subproduto de outras demandas, muitas vezes banalíssimas”7. A casa ficava na Salute, e a primeira coisa que viu, quando “a mulherzinha de olhos penetrantes” tomou forma na soleira, foi o busto do poeta, “pousado no chão da sala”.
A ofensiva do tédio, conta, foi “repentina, mas irresistível”. Mal servido o chá, a anfitriã ergueu o dedo afilado e entoou “uma ária cuja partitura é do domínio público pelo menos desde 1945”: Ezra não era fascista, não sabia de nada, não havia alemães em Rapallo.
Um disco, pensou o visitante, “a voz do dono”, e concentrou-se nas bolachas. Foi Susan Sontag quem virou a agulha: se fossem só os programas de rádio, “o Ezra seria apenas mais uma Rosa de Tóquio”.
“Então o que foi?”, perguntou Olga. Foi “o antissemitismo de Ezra”, respondeu a escritora e crítica, e o dedo da velha senhora, “agulha de corindo”, encaixou de novo na espira.
A segunda face durou outro tanto, com um almirante veneziano entre os amigos judeus, e então era tempo de partir. Brodsky não sentiu a tristeza de deixar a casa de uma viúva: ela tinha “o reconforto das suas convicções”, e o chá lhe “acendeu no espírito, por assim dizer, uma luz”, pois já lidara com muitos velhos comunistas.
Joseph Brodsky: poeta russo que viveu apenas 55 anos e deixou uma obra decisiva | Foto: Reprodução Dois minutos depois, na Fondamenta degli Incurabili, o mesmo homem que ouvira um disco repetir-se por três quartos de hora celebra a outra face da palavra: “Ah, o bom velho poder de sugestão da linguagem!” O nome do cais “remonta, evidentemente, ao tempo das pestes, das epidemias que varriam meia cidade, século após século, com a regularidade de um agente recenseador”, e evoca os moribundos “espalhados pelas lajes de pedra”, à espera da carroça, “ou melhor, do barco”, “que os levaria dali”8.
Com seu humor seco, Joseph Brodsky escreveu: ‘Entre as mulheres dos pescadores, as Parcas nunca precisam pôr anúncio para que as vagas sejam preenchidas’. Texto e tecido têm a mesma raiz, e quem passou a vida a ler e a escrever sabe o preço dessa renda
Brodsky conta que se tornou, “gradualmente, um ser de passagem em ambos os reinos”, e que o que mais o desanimava era “a impossibilidade de convencer o sonho da minha presença nele”. Daí a página que mais me tocou.
Julga ele que se poderá falar de fidelidade “quando alguém volta ao lugar do seu amor, ano após ano, na estação errada, sem garantia de ser correspondido”, e que, como qualquer virtude, ela só vale se for “instintiva ou idiossincrática, e não racional”. Depois, vem a frase que sublinhei: “Quando se chega a uma certa idade, e se pratica, já agora, um certo ofício, não é propriamente imperioso ser-se correspondido”.
A Veneza de Brodsky não era a dos turistas, e sim uma Veneza íntima | Foto: Reprodução O amor, conclui o poeta, “é um sentimento desinteressado, uma rua de sentido único”, e por isso podemos amar as cidades, a arquitetura em si, a música, os poetas mortos.
Leio isso aos 71 um anos, no ofício de que ele fala, e dou-lhe razão: “os objetos não fazem perguntas”, e “o sonho é a fidelidade do olho fechado”. E, por fim: “É a confiança que falta à nossa própria espécie, embora sejamos também parcialmente de água.9”
Na página seguinte, a água assume o palco. Se o mundo fosse um gênero literário, o seu principal recurso estilístico seria “sem dúvida a água”, fórmula que repete a do sonho e do non sequitur; e acrescenta que “o próprio pensamento tem uma configuração aquática”.
Se somos, “de facto, parcialmente sinónimos da água, que é totalmente sinônima do tempo”, os sentimentos que nos ligam a este lugar enriquecem o futuro, contribuindo para esse “Adriático ou Atlântico do tempo” que armazena as nossas imagens refletidas “para quando há muito tivermos deixado de existir”.
A partir delas, “como de velhas fotografias cor de sépia”, talvez o tempo consiga compor, “à maneira de uma colagem, uma versão do futuro melhor do que sem elas”. Somos, assim, “venezianos por definição”, porque lá longe, ao largo, o tempo-água “entretece, em croché ou ao tear, as nossas reflexões”, “isto é, o nosso amor por este lugar”, “em desenhos irrepetíveis”, à imagem das “velhinhas mirradas, vestidas de negro” que povoam as ilhas do litoral, “eternamente absortas na confecção dessas rendas que lhes arruínam os olhos”.
Brodsky acrescenta que as rendeiras ficam “cegas ou loucas antes de chegarem aos cinquenta”, mas “são então substituídas pelas suas filhas e sobrinhas”, e, com o seu humor seco: “Entre as mulheres dos pescadores, as Parcas nunca precisam pôr anúncio para que as vagas sejam preenchidas.” Texto e tecido têm a mesma raiz, e quem passou a vida a ler e a escrever sabe o preço dessa renda10.
Nem sempre o paraíso de inverno foi clemente. Num apartamento alugado, o aquecimento deixou de funcionar, e Brodsky e a namorada, para ele a moça de olhos cor de mostarda e mel, agasalhavam-se como podiam.
Ela, com a cabeça e o pescoço embrulhados no cachecol, dizia muito a sério que só discordava de Dante na descrição do Inferno: “Para mim, o Inferno é frio, muito frio”, e concluía: “O Inferno é o Ártico”. Com a friagem e a umidade, o poeta adoeceu.
Brodsky chama ao que veio a seguir “a fuga para o Egito”: ela fazia os papéis da mulher e da criança, ele o do seu homônimo, José, e o do burro. Embora adorasse a fachada do hospital Giovanni e Paolo, não tinha confiança nos hospitais venezianos, e tomaram o trem aquecido para Paris, onde um eletrocardiograma saiu razoável e ele pôde voltar de avião aos Estados Unidos11.
Era a fuga da cidade amada para uma que lhe devolvia a saúde. A volta definitiva, essa, só viria depois da morte, de barco, a San Michele.
Brodsky morreu em Nova York, em 1996, e no ano seguinte o corpo foi levado para San Michele, a ilha-cemitério de Veneza, como era seu desejo. Na mesma ilha repousa Pound — a morte lhes pregou uma boa peça.
O visitante de dezessete invernos tornou-se, enfim, habitante permanente da laguna. No entanto, esta estada no Paraíso, o Éden que Veneza foi para Brodsky, parece ter um fim anunciado: “Sendo as coisas o que são, esta cidade é a menina dos nossos olhos.
Depois dela, tudo nos desilude. A lágrima é uma premonição do futuro do olho”12.
E mais haveria a dizer, mas não caberia nestas linhas. Por ora, enxugo as lágrimas destes olhos cansados, parentes dos olhos das Parcas venezianas, as velhinhas de preto que Brodsky vê rendando nas ilhas da laguna, e dos de quem passou a vida a recolher no papel os fios da memória.
Fontes consultadas 1 BRODSKY, Joseph.
Marca de Água: sobre Veneza. Tradução de Ana Luísa Faria.
Lisboa: Relógio D’Água, 2018. p.
83. 2 BRODSKY, 2018, p.
94. 3 MONTALE, Eugenio.
Poesias. Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti.
Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Record, 1997.
4 BRODSKY, 2018, p. 11.
5 BRODSKY, 2018, p. 64-66.
6 BRODSKY, 2018, p. 84.
7 BRODSKY, 2018, p. 58-61.
8 BRODSKY, 2018, p. 61-62.
9 BRODSKY, 2018, p. 96.
10 BRODSKY, 2018, p. 97-98.
11 BRODSKY, 2018, p. 93.
12 BRODSKY, 2018, p. 87.
Quase uma elegia Joseph Brodsky
Também eu aguardei na colunata da Bolsa, outrora, o fim da chuva fria.
Julgava-a dom de Deus. E era sensata
minha suposição. Pois algum dia
também eu fui feliz. Fui prisioneiro
dos anjos. Combatia monstro horrendo.
Feito Jacó, fitava sorrateiro uma beldade -rápido- descendo
a escada principal. Aonde tudo
se foi. Sumiu.
Olho janela afora: o “aonde” acima, eu o escrevi, contudo,
sem ponto de interrogação. Agora
é setembro. Um trovão distante invade
meu ouvido. Eis um horto.
Pêras pensas, cheias de seiva nas ramagens densas,
parecem signos de virilidade. E o ouvido admite, como gente avara
parentes na cozinha, um som assíduo de chuva que, na mente, sem chegar a
música ainda, é mais do que ruído. (Outono 1968)
Tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher
Jornal Opção