O Conselho de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), composto por 35 países, aprovou uma resolução que encaminha o Irã ao Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) pela primeira vez em 20 anos por violar suas obrigações de não proliferação, disseram diplomatas nesta quarta-feira.
A resolução dá continuidade a uma anterior, aprovada em 12 de junho do ano passado — um dia antes de Israel começar a bombardear as instalações nucleares do Irã, sendo logo seguido pelos Estados Unidos —, que considerou o Irã em “descumprimento” dessas obrigações. Para encaminhar o caso ao Conselho de Segurança por essa violação, era necessária outra resolução.
Embora seja improvável que o Conselho de Segurança tome medidas concretas contra o Irã, uma vez que seus aliados Rússia e China são membros permanentes com poder de veto, a medida representa uma escalada no impasse diplomático entre o Irã e as potências ocidentais.
O Irã advertiu na segunda-feira que retaliaria caso a resolução fosse aprovada.
Uma reação inicial da missão iraniana junto à AIEA, no entanto, não mencionou retaliação. “Mais uma vez, uma resolução política sobre o Irã é aprovada sem consenso pelo Conselho de Governadores da AIEA”, afirmou a missão no X, referindo-se ao fato de a resolução ter sido submetida a votação, em vez de aprovada sem objeção de nenhum país.
“A situação atual foi criada exclusivamente pelos atos criminosos de agressão dos EUA e do regime israelense. O objetivo delirante dos EUA de forçar a grande nação iraniana à ‘rendição’ e saquear seu petróleo jamais será alcançado”, acrescentou.
O texto da resolução, proposto por Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha, foi aprovado por 23 votos a favor, três contra e oito abstenções, disseram diplomatas presentes na reunião a portas fechadas. Rússia, China e Níger votaram contra, acrescentaram.
“[O Conselho] solicita ao diretor-geral [da AIEA] que comunique esta resolução e as resoluções anteriormente aprovadas (...) a todos os membros da Agência e ao Conselho de Segurança e à Assembleia Geral das Nações Unidas, de acordo com as disposições pertinentes do Estatuto da AIEA”, diz o texto.
Embora a constatação de descumprimento seja anterior à guerra entre Estados Unidos e Irã e diga respeito à incapacidade de Teerã de explicar vestígios de urânio encontrados em locais não declarados, que a agência passou anos investigando, há agora outro impasse sobre o acesso da AIEA às instalações bombardeadas por Israel e pelos EUA. O logotipo da AIEA é exibido em frente à sede da agência em Viena, na Áustria, em 5 de junho de 2026 REUTERS/Elisabeth Mandl/Foto de arquivo
Falta de acesso a instalações é ‘grave preocupação com proliferação’ O Irã não permitiu que os inspetores da AIEA retornassem às instalações bombardeadas, incluindo as três usinas de enriquecimento de urânio no centro de seu programa nuclear, que foram destruídas ou seriamente danificadas nos ataques militares.
Teerã também não prestou contas sobre seu estoque de urânio enriquecido, parte do qual havia sido enriquecido a até 60% de pureza, pouco abaixo dos cerca de 90% necessários para uso em armas nucleares.
“A falta de informações da Agência sobre essas instalações e o material nuclear associado, assim como nossa incapacidade de realizar atividades de verificação nessas instalações, é motivo de grave preocupação em relação à proliferação”, disse o diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, ao Conselho de Governadores da agência na segunda-feira.
“A situação precisa ser corrigida com a máxima urgência”, acrescentou.
A AIEA estima que o Irã possuía 440,9 kg de urânio enriquecido a até 60% antes dos ataques de Estados Unidos e Israel. Essa quantidade seria suficiente, se enriquecida a níveis mais altos, para dez armas nucleares, segundo um parâmetro utilizado pela AIEA. Não está claro quanto desse material sobreviveu aos ataques, embora a agência tenha afirmado acreditar que mais de 200 kg permanecem em uma das instalações.
A resolução desta quarta-feira mencionou especificamente duas anteriores: o texto de 12 de junho de 2025 que considerou o Irã em descumprimento de suas obrigações e a resolução mais recente, de junho deste ano, que determinou que o Irã declarasse seus estoques restantes de urânio enriquecido e permitisse que inspetores os verificassem.
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