Conheça os profissionais que fazem o rodeio de touros de Barretos - QTU Questões do Universo

Conheça os profissionais que fazem o rodeio de touros de Barretos

Fonte: Bandeira da fonte

O rodeio de touros é um espetáculo em que atletas montam animais pesados (superam o peso do competidor em mais de dez vezes), tentando se manter no lombo por oito segundos que parecem uma eternidade, segurando uma corda com apenas uma das mãos.
Peão e touro são os protagonistas do show, mas nenhum rodeio de primeira divisão acontece se não tiver pelo menos outras 70 pessoas trabalhando na arena, nos bretes e nos bastidores.
Jeremias Moraes, diretor da liga nacional da Professional Bull Riders (PBR) e filho do tricampeão mundial de montarias em touros Adriano Moraes, afirma que uma final de quatro dias como a do Campeonato Brasileiro da PBR, que será disputada até domingo (23/8), em Barretos, emprega 97 pessoas.
Além dos peões e do touros, ele cita como profissionais indispensáveis ao rodeio o diretor de arena, chefe de brete, juízes, salva-vidas de arena, laçadores a cavalo, locutor, comentarista, portereiros, tropeiros e equipe médica.
Profissionais e funções
Diretor de arena: controla o ritmo do rodeio, acelerando ou segurando montarias, sempre em contato com a produção pelo rádio.
Juízes: geralmente três (dois na arena e um nos bretes), são responsáveis por avaliar a montaria e dar as notas, que nascem a partir do desempenho do touro.
São avaliadas a verticalidade (coices) do animal, quanto ele levanta a pata dianteira, o giro, a intensidade e o grau de dificuldade que impõe ao peão.
O limite é 50 pontos para o touro e 50 para o peão.
Os pontos de ambos são somados para dar a nota final da montaria.
Notas acima de 90 pontos garantem bônus.
Tropeiro: é o dono dos animais, que fica responsável por levar os touros ao rodeio.
Nos rodeios de elite, participam as principais companhias do país, que investem em melhoramento e criam animais com aptidão para pular, escoicear e girar bem nas arenas.
Em Barretos, foram contratadas 13 boiadas, que têm uma média de 4 profissionais cada uma para cuidar dos animais.
Salva-vidas: também chamados de anjos de rodeio, se posicionam estrategicamente na arena para proteger o peão das patas, chifres e ataques do touro imediatamente após a queda ou quando o peão completa os oito segundos e pula do animal.
Laçadores a cavalo: também conhecidos como salva-vidas a cavalo, são responsáveis por laçar e imobilizar o touro quando ele não volta espontaneamente para os bretes após a montaria ou quando ocorre algum acidente com o peão.
Palhaço de rodeio: trabalha como animador da torcida, com a função de melhorar o espetáculo.
Locutor: tem a função de informar ao público o que está acontecendo na montaria.
Cada locutor desenvolve sua técnica de narração, podendo ser mais didático, técnico ou usando mais gírias dos rodeios e interagindo com o palhaço na diversão.
É acompanhado, geralmente, por um comentarista, que traz mais informações sobre o peão, o touro ou o estilo de montaria.
Portereiros: trabalham em dupla em sintonia com o peão e o touro, são responsáveis por abrir a porta dos bretes no momento exato (dar a solta, na gíria dos rodeios), evitando atrapalhar a saída do touro, que pode acarretar acidentes graves para o peão ou o animal.
Os profissionais recebem um cachê por evento, que varia de acordo com a função e o tamanho do rodeio.
A hospedagem e, em alguns casos, a alimentação são bancadas pelos organizadores.
Conheça a seguir a história de três personagens desse pacote de profissionais indispensáveis que trabalham até domingo na final da PBR em Barretos.
De peão regional a juiz titular da PBR
Ailton Bernardo de Lima, o Ailton Boy, de Dracena (SP), 54 anos, começou nos rodeios como peão.
Ele conta que sempre trabalhou com cavalos e bois e começou a montar com 15 anos em rodeios regionais, mas machucou o joelho em 2006 e teve que parar.
“Fiquei perdido depois do acidente e um amigo que tinha uma boiada de rodeios me chamou para ser sócio dele.
Trabalhei com ele descobrindo talentos e levando touros para muitos rodeios até que ganhei um curso de juiz de rodeio com o famoso Tião Procópio (pioneiro de montaria em touros).
Me interessei e comecei a carreira de brincadeira.”
Ailton Boy começou nos rodeios como peão antes de se tornar juiz
PBR/Divulgação
Em seu treinamento, ele diz que assistiu muitos vídeos de montaria, especialmente de peões brasileiros como Silvano Dias, tricampeão mundial, e João Ricardo Vieira, duas vezes vice-campeão.
Um convite para ser juiz no rodeio de Jaguariúna em 2012 mudou a vida de Ailton Boy.
As portas da nova carreira se abriram e ele viu que não seria viável ou ético se manter como dono de boiada e juiz.
Vendeu sua parte ao sócio e passou a ter chances em vários rodeios de elite como juiz reserva.
Em 2025, fez um curso com Adriano Moraes e recebeu convite para ser juiz titular da PBR.
Neste ano, vai julgar sua segunda final ao lado dos colegas Marcelo Pereira, Bruno Moraes e Wellington Barbosa, o Wellington Kibe.
Ailton conta que a final tem quatro juízes, um a mais que as etapas normais.
Dois ficam nos bretes e dois na arena, cobrindo os quatro ângulos para não perder nenhum detalhe da montaria.
Todos registram suas notas para o touro e para o peão em um tablet que vem da PBR americana e as notas vão direto para o ranking mundial.
A nota da montaria é a média da pontuação dada pelos quatro juízes.
Eles passam por treinamento no início do ano com a equipe da PBR Brasil e fazem curso de reciclagem com juízes americanos para que as notas sigam o padrão da PBR mundial.
“A variação das notas entre os juízes é mínima.
Uma diferença de 0,5 ponto já dá discussão.”
Além de dar as notas, o juiz é responsável por interromper a montaria jogando uma bandeira vermelha na arena quando há uma falha do touro ou o peão comete irregularidade na montaria, como tocar o animal.
No primeiro caso, o competidor tem a opção do repete, ou seja, pode montar novamente em outro touro.
Além da estreia como juiz titular da PBR, Ailton Boy cita como momento marcante da sua carreira o primeiro rodeio do tricampeão mundial José Vitor Leme em Tarumã pelo campeonato do Rancho Primavera.
“Ele era um menino magrinho que andava num gol vermelho e já tinha talento e estratégia de campeão.
Acompanhei toda a trajetória dele.”
O maior desafio, diz o juiz, é viajar e ficar o final de semana longe da família.
Quando não está trabalhando nos rodeios da PBR, Ailton Boy cuida das duas lojas de equipamentos náuticos, camping e pesca que tem em Dracena e Três Lagoas (MS).
Instinto de salva-vidas desde a infância
Carlos Nelson Bento, o Carlinhos, 31 anos, tinha 13 anos quando viu o irmão Bruno, três anos mais velho, cair de um touro e se jogou na frente do animal para proteger Bruno.
“Eu e ele sempre gostamos de montar.
Depois desse episódio, me interessei pela profissão de salva-vidas.
Eu ia nos treinos, mas não me deixavam entrar porque ainda era criança.
Quando tinha 15 anos, fiz amizade com um salva-vidas e pedi que fosse meu professor.
Ele me mostrou os caminhos.”
Carlos Nelson Bento, o Carlinhos, começou a se preparar como salva-vidas de rodeios aos 15 anos
Toscano Fotografias
Carlinhos se refere a Lucas Teodoro, o Gauchinho, único brasileiro que trabalha atualmente como salva vidas nos campeonatos de elite da PBR nos Estados Unidos.
Após as aulas, Carlinhos comprou equipamentos e começou a treinar todas as semanas com touros.
Em 2011, ainda menor, teve a primeira oportunidade de trabalhar em rodeios regionais e eventos abertos.
Fazia cinco ou seis rodeios por ano até 2013, quando recebeu convite para trabalhar como salva-vidas reserva em um rodeio da PBR em Lavras (MG).
Ficou três anos como reserva até receber em agosto de 2016 a mensagem de que tinha ficado entre os três salva-vidas mais votados pelos peões e por isso iria atuar pela primeira vez como titular em uma final da PBR.
A votação também o credenciou para ser titular dos rodeios da primeira divisão da liga na temporada seguinte.
“Aí trabalhei até 2023 e decidi tentar a carreira nos Estados Unidos, seguindo os passos do Gauchinho.
Fiquei lá quase um ano, trabalhei em eventos abertos, mas tive que voltar em 2025 porque meu visto de trabalho foi negado.
Tirei, então, um ano de folga das arenas para cuidar do corpo e da família e voltei como titular da PBR neste ano.”
Carlinhos conta que, com a missão de “proteger a integridade física dos peões e de quem está na arena, como locutores, diretor, juízes e portereiros”, o salva-vidas “liga uma antena” quando entra no espaço e só desliga na saída do último touro.
O traje que o protege é um colete específico para salva-vidas que tem uma fibra de plástico (que protege o peito no caso de ataque do touro, já que o chifre escorrega no colete e não fura), um short de proteção das coxas, um par de joelheiras importadas, uma chuteira de beisebol que não escorrega na areia e chapéu.
“Eu machuquei algumas vezes, tive costelas quebradas e sofri uma fratura no pescoço em 2023 quando um touro me jogou para cima e caí de cabeça, mas nunca pensei em desistir.
A gente sabe que está exposto ao risco.
Por semana, trabalhamos em umas 200 montarias e tentamos ao máximo deixar o competidor em segurança, sem descuidar da nossa segurança.
Quando o peão cai, ele corre do touro.
O salva-vidas corre ao encontro do animal.”
Ele viveu a pior situação na carreira em 2018, em Maringá (PR), quando o atleta Gilliard Antonio, de 24 anos, morreu na arena depois de cair embaixo do touro e ter o peito pisado.
“Me senti muito impotente.
Não tivemos oportunidade de trabalhar.”
As viagens (percorreu 8.000 km desde julho) e a distância da mulher e do filho de 4 anos são os maiores desafios para Carlinhos, que, de segunda a quarta-feira trabalha em uma fazenda em Mococa (SP) treinando cavalos para provas de laço e três tambores.
Em Barretos, ele vai trabalhar ao lado dos salva-vidas Ramon Damasceno, do Paraná, e Mauro Araújo, de Americana (SP).
Ramon é filho do primeiro salva-vidas de rodeio do Brasil.
Os laçadores são Danilo Queiroz, Thiago Mega e Washington Scatolin.
Campeão de locução em gincana
Rafael Vilella, 51 anos, filho de produtor rural de Pindamonhangaba, esteve envolvido com feiras do agro desde a infância.
Ele conta que os rodeios nessas feiras sempre o encantaram, mas lhe faltava coragem para montar touros.
“Quando eu tinha uns 17 anos, houve uma gincana na minha escola e uma das provas era imitar um narrador esportivo.
Um imitou o Galvão Bueno narrando a Fórmula 1.
Outro imitou um narrador de futebol e eu disse para minha equipe: deixa comigo.
Peguei o microfone e imitei o Asa Branca (pioneiro da locução de rodeios), usando o nome dos professores como peões.”
Rafael Vilella começou as narrações imitando Asa Branca na escola
PBR/Divulgação
Sua equipe ganhou a gincana, ele se empolgou e passou a pedir chance como locutor nos pequenos rodeios da região.
Em 1994, já tinha feito alguns trabalhos, mas sem ganhar nada.
“Em 1º de maio de 1995, lembro bem porque foi o dia em que o (Ayrton) Senna morreu, um amigo (Noel Homem de Melo Junior) me convidou para narrar uma prova de laço em rodeio.
Ele me pagaria com uma camisa de caubói.
Fui, narrei dois dias e não recebi a camisa até hoje”, conta entre risos.
A narração fez sucesso, Rafael começou a receber convites e formou dupla com o amigo Noel, que era juiz de rodeio.
Com 19 anos, já estava narrando provas de laço em grandes rodeios.
Em 2001, convidado pelo então bicampeão Adriano Moraes, fez a primeira experiência na PBR Brasil, trabalhando em 4 etapas.
“Adriano me contratou para fazer uma narração mais didática, técnica e me mandou para os EUA para acompanhar algumas etapas da PBR mundial.
Em 2009, parei de narrar provas de cronômetro e desde 2011 me dedico aos torneios da PBR.”
A carreira de locutor de rodeios de Rafael, que mora atualmente em Jaguariúna, se desenvolveu junto com a profissão de leiloeiro rural.
Incentivado pelo pai, ele se credenciou e passou a narrar leilões de genética de gado de rodeio e de cavalos quarto-de-milha.
Na pandemia, ganhou mais espaço como leiloeiro online e atualmente se dedica mais a essa profissão.
No ano passado, por exemplo, fez 4 rodeios e 200 leilões.
Na carreira, narrou muitos rodeios ao lado de Adriano Moraes, que atua como comentarista em eventos especiais.
Dois filhos deles, João Vilella e Antonio Moraes, seguem o exemplo dos pais e formam dupla de narrador-comentarista de rodeio.
Rafael também mantém há cinco anos o podcast Agro 360, em que entrevista personalidades do setor.
Os únicos três tricampeões mundiais de montaria em touros da PBR, Moraes, Silvano Dias e José Vitor Leme, todos brasileiros, foram entrevistados no programa.
Em Barretos, ele divide o microfone nas finais ao lado do locutor Marco Cruz e do comentarista André Metzker.
Os portereiros da primeira divisão que trabalham na final são João Vitor, Carlos Eduardo e Helder Eré.
Na direção de arena, estará Luiz Fernando Patrola.
Dionísio de Freitas é o chefe de brete, Paulo Henrique Bueno atua como chefe de produção e Diuli Damasceno é a produtora geral do rodeio.