Conheça músico brasileiro que Michael Jackson considerava 'o maior percussionista do mundo' e vai ganhar estrela na calçada da fama
O documentário “The groove under the groove”, de Oscar Rodrigues Alves, se concentra na vida daquele que é o-mais-famoso-músico-do-qual-você-nunca-ouviu-falar: o percussionista carioca Paulinho da Costa, de 77 anos.
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Radicado em Los Angeles desde 1972, quando se juntou à banda do pianista Sergio Mendes, ele tocou em hits perenes do pop mundial dos 1970 e 80. Do “Off the wall” e do “Thriller”, de Michael Jackson (que o considerava “o maior percussionista do mundo”), passando pelos LPs que trouxeram “(I’ve had) The time of my life” (da trilha do filme “Dirty Dancing”), “La isla bonita” (Madonna), “September” (Earth Wind & Fire) e “All night long” (Lionel Ritchie).
Foram 6.716 músicas de 972 artistas, das quais 161 indicadas ao Grammy — e 59 ganharam. No dia 13 de maio (por coincidência, Dia da Abolição) ele vai ganhar a sua estrela na calçada da fama de Hollywood — até agora, entre os brasileiros, só Carmen Miranda (portuguesa de nascimento) recebeu a distinção.
A tal coincidência traz à memória uma das histórias mais impactantes contadas por Paulinho em “The groove under the groove”. Certa vez, chegando ao estúdio em Los Angeles, um funcionário o impediu de entrar com seu kit de percussão porque achou que ele fosse o carregador.
— Disse “Faz o seguinte: eu vou para casa, para a minha piscina, e você liga para o Herb Alpert (cofundador da gravadora A&M Records) e fala com ele que eu estive aqui e fui embora.” — conta o músico. — Isso ajudou outras pessoas que tiveram esse tipo esse problema e não tinham condições de fazer o mesmo porque estavam precisando do trabalho.
Segundo Oscar, foram 17 anos — “seis para convencer o Paulinho e 11 para fazer o filme” — até que “The groove under the groove” se tornasse realidade. Aspirante a percussionista em uma família de músicos (a irmã, Flávia, se casou com o pianista e arranjador César Camargo Mariano), o diretor diz ter se apaixonado por Paulinho quando comprou o disco “All n’ All” (1977), do Earth, Wind & Fire (dos hits “Fantasy” e “Brazilian Rhyme (Interlude)”) e viu o nome do percussionista nos créditos:
— Virei rato de crédito de vinil, e ele estava em todos que eu mais curtia: Michael Jackson, George Benson, Anita Baker, todo mundo. Veio uma fase em que não precisava nem mais olhar para o crédito do disco. Eu ouvia a linha da conga dele, e só dava aquela checada final, para ver se não era ninguém imitando — recorda-se Oscar, que ficou amigo de Paulinho nos anos 2000.
Mesmo depois de Oscar ter dirigido clipes de artistas da MPB e o documentário dos Titãs “A vida até parece uma festa”, de 2008, o percussionista seguia reticente às propostas para um doc. As portas começaram a se abrir em 2013, no Festival de Montreux, quando o produtor Quincy Jones organizou um show em homenagem a Claude Nobs, criador do evento, que tinha acabado de morrer. Paulinho estava na banda e Oscar, em Montreux, em um outro trabalho. “Leva a câmera!”, pediu o músico.
Tempos depois, Oscar, que vivia entre Vancouver (no Canadá) e Los Angeles, foi convidado para um jantar com Paulinho e Quincy, produtor de Frank Sinatra, entre tantos mitos da música. Um papo entre ele e o percussionista iniciou os trabalhos para “The groove under the groove”.
O diretor Oscar Rodrigues Alves, o produtor Quincy Jones e o percussionista Paulinho da Costa, durante as filmagens de “The groove under the groove”
Divulgação
Paulinho ficou com Sérgio Mendes até 1976, quando gravou “Love machine”, do grupo The Miracles, que chegaria aos primeiros lugares da parada americana. Na época, o trompetista Dizzy Gillespie o apresentou a Norman Granz, fundador dos selos Verve e Pablo, que lançou dois de seus discos solo, garantindo as condições para que ele ficasse nos EUA.
— O Norman, branco, protegia muito a classe negra. Com ele, era sempre tudo do bom e do melhor para a gente — recorda-se Paulinho.
O percussionista conheceu Quincy por um telefonema o convidando a participar da trilha do filme “O mágico inesquecível” (1978), estrelado por Michael Jackson e Diana Ross. Eles se tornariam amigos, e Quincy o chamaria para gravar com artistas como George Benson e Michael, com quem gravaria cerca de 40 faixas (MJ dizia que o ritmo do brasileiro, de largo sorriso, “estava nos dentes”).
Momentos mágicos
Alguns momentos mágicos do doc são depoimentos de integrantes do Earth, Wind & Fire, de Benson e do renomado jazzista e compositor Lalo Schifrin, que tocou piano, apesar de já debilitado pelo Parkinson, entre outros.
O documentário também tem depoimento de brasileiros: Zeca Pagodinho, que assim como Paulinho também é de Irajá, montou uma roda de samba em que compareceu Alcione, colega do percussionista nos shows da boate Number One, onde Sergio Mendes o viu se apresentar.
— Eu levei meu pandeiro para a casa do Zeca, um especial que uso. Só que o Zeca tinha um dele, que ele mesmo toca, com a foto do neto. Fiquei naquela posição de ter que dizer “pô, tô com o meu pandeiro ali”. Mas saí tocando o dele, o Zeca ficou numa alegria tremenda — conta Paulinho, que em 2015 foi recebido por Roberto Carlos em seu especial de fim de ano na TV Globo (o Rei também dá depoimento no doc, assim como Carlinhos Brown e Ivete Sangalo).
Só em 2021 Oscar Rodrigues Alves conseguiu chegar a um dos maiores fãs de Paulinho, o rapper e produtor Will.I.Am, que sampleou uma música de um dos discos solo do brasileiro em um dos primeiros sucessos dos Black Eyed Peas.
— Fiquei muito contente em saber que eu estava oferecendo algo que eles podiam usar. E isso (o rap) me trouxe muito mais trabalho. As máquinas não têm o que nosso que o coração tem. Até ajuda, mas falta o nosso molho — lembra Paulinho, que não se sente ameaçado pelos samples e programações eletrônicas do rap.
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Depois de mais de meio século de Los Angeles, Paulinho da Costa diz falar “mais ou menos” o inglês. Com mulher (a brasileira Arice, companheira desde pouco antes de ir para os EUA), dois filhos e dois netos por lá, ele não pensa em voltar a morar no Brasil.
— Consegui colocar a minha vida em uma posição de tocar por prazer, não preciso mais ir ao estúdio para receber um dinheirinho, deixei que o dinheiro trabalhasse para a gente. Minha finalidade agora é aproveitar a vida. Seria bom que as pessoas conhecessem meu trabalho (no Brasil). Não que eu seja revoltado com isso, ao contrário. Mas espero que o filme ajude a ver que elas estão dançando com meu ritmo há anos e nem sabem disso.
