Conheça Henrique Casttro, o autor de ouro do sertanejo que se redescobriu no samba
Uma piada interna no mundo da música sertaneja sobre o cantor e compositor Henrique Casttro, de 33 anos, é que “se a depressão der nele, ela morre de autoestima”.
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Nascido em Pedro Afonso, no Tocantins, o rapaz chegou a Goiânia em 2011, aos 18 anos, com muitos sonhos, um violão e apenas R$ 30 no bolso. Depois de muito sufoco, ele se tornou um dos autores de “Liberdade provisória”, música gravada pela dupla Henrique & Juliano, a mais ouvida no Brasil de 2020 no YouTube e no Spotify. E ano passado, assinou a autoria da canção mais escutada no país: “P do Pecado”, do Grupo Menos é Mais com a cantora Simone Mendes.
E 2026 começou fervendo para Henrique: na última sexta-feira, ele lançou “Nem pagando”, música em que retomou a sua carreira de cantor, com feat-retribuição do Menos é Mais. Em poucos dias, esse samba sertanejo teve mais de 600 mil execuções no Spotify e mais de 4,8 milhões no YouTube (na terça-feira, ele estava no número 12 entre as músicas em alta no Brasil na plataforma).
Nada mau para uma composição surgida, sem maiores pretensões, num encontro com o velho parceiro Elvis Elan, mais Márcia Araújo, Thiago Alves, Samuel Alves e Marcos Buzzo.
— Eu falo que o compositor já sai de casa armado. Ele sai pronto para qualquer coisa, é igual policial, e a caneta é a nossa arma é a caneta porque a gente chegou no churrasco e já foi rolando a conversa. E tem frases que desencadeiam a música inteira. Quando veio o “agora que eu já tô quase te odiando / não volto nem pagando”, eu falei: “Pô, velho, isso aqui todo mundo quer falar quando termina!” — anima-se Henrique, em entrevista por Zoom, na qual revelou ter arrematado a composição com o time em menos de meia-hora. — Foi tipo quebra-cabeça.
Cantor que “tinha a ingenuidade de achar que todo mundo fazia a sua própria música”, Henrique Casttro conta sempre ter tentado fazer coisas diferentes do que encontrava no mercado.
— Sempre me dou essa porcentagem de ousadia de escrever coisas que a galera tem medo de escrever, mesmo sabendo que eu posso pagar um preço alto quando erro — diz.
Para ele, “P do pecado” foi nada menos que um divisor de águas. Sua música chegou aos intérpretes por intermédio do produtor Dudu Borges, numa tentativa de Henrique de gravar a música como cantor, com o Menos é Mais. Dudu, no entanto, achou que aquela era a composição certa para eles gravarem com Simone.
Henrique disfarçou sua frustração, mas não se abateu (“vi que estava rolando um acontecimento, fiz uma oração, pedi orientação são discernimento espiritual para Deus e me senti paz de passar a música para eles” conta). Com o grupo e a cantora, “P do pecado” chegou ao tipo das paradas em 2025.
— Ela mudou o jeito de a galera pensar música, de achar que a música só vai acontecer de Norte a Sul do país, no Norte e Nordeste, se for sertanejo ou se for forró. Eu acho que a gente quebrou alguns paradigmas que a Marília Mendonça já vinha quebrando, de fazer misturas — conta Henrique, que na pandemia estourou a música “Você me usava” com o Kamisa 10, grupo de pagode de Goiânia. — (Os artistas de samba) não quebravam algumas barreiras de linguajar, muitas pessoas não entendiam o que eles estavam falando. E aí eu fui e fiz um pagode em que falei de bebida, de sentimento diferente e aí chamei essa galera da banda. Viramos amigos ali e a banda saiu do barzinho e começou fazer shows no Brasil inteiro.
Essa foi uma das muitas reviravoltas na vida do menino que foi para Goiânia morar num cortiço, sem cama, e que dormia apenas com um edredom e um travesseiro, num chão fio, “com sete goteiras”. Nascido em família católica (e mais tarde convertido à crença evangélica), ele rezava muito. Em 2019, já dono de hits com Henrique & Juliano, Wesley Safadão e Jorge & Mateus, Henrique Casttro ia se lançar em carreira solo como cantor, num projeto gravado na casa de H&J.
— Veio a pandemia e acabou comigo, ninguém ouviu a música. Só consegui me reestruturar dessa ventania toda em 2021, eu tinha gastado muita grana para gravar tudo. No meio dessa bagunça toda, eu mostrei o “Apartamento 119” para a Marília Mendonça e ela falou: “Ó, grava rápido, porque vão voltar os shows e eu quero que você vá comigo”.
A música com a dupla fez sucesso, mas Marília faleceu no fim daquele ano. Depois, Henrique Casttro lançou uma póstuma com a cantora, “Experiência”, que acabaria se tornando a 20ª música mais tocada do rádio no Brasil em 2024 e que, para ele, “pode não ser uma música rápida de pegar, mas é difícil de esquecer”.
‘Provocar o raciocínio’
Henrique tem algumas regras na hora de compor, como a de que a música “tenha um meio muito recheado de coisas em que eu vou provocar o seu raciocínio”.
— Eu desejo que uma música minha seja um remédio para uma pessoa que está triste hoje, para que ela possa dar risada. Eu não gosto de falar só de bebida, só de sofrimento. Eu até falo, mas eu tento falar de um jeito um pouco mais descontraído, porque já tem muita gente fazendo isso — considera. — Quero você me enxergue não como um cara arrogante falando que sou bonito, mas como um cara engraçado, audacioso. Toda vez que eu vejo meus amigos sofrendo, eu falo: “Cara, olha o tanto que você é um cara incrível, o tanto que você é bonito!” Então, eu quero que as pessoas cantem isso na primeira pessoa, sem medo.
O segredo na hora de compor, para Henrique Casttro, está em “ter essa empatia de me colocar ficar num lugar do outro, de me colocar no meu passado”.
— Graças a Deus, hoje eu tenho dinheiro de pagar terapia, mas não é todo mundo que tem. Então eu preciso entender as dependências emocionais dos casais, das pessoas, o porquê de algumas coisas — entrega. — E no pagode, percebi que as pessoas escrevem para as pessoas muito refinadas. O povão, que gosta de tomar um, não tem preconceito, eles querem que você acesse o sentimento deles. No pagode, a melodia é um pouco difícil, às vezes muito quebrada, e o papo é muito inteligente. Eu falei que para sair do Rio de Janeiro, a gente precisa colocar uma sanfona, e tem que abrir um pouco a mente. Se você parar para analisar, nos anos 1990, os caras faziam isso e foi no maior momento do pagode e do samba. As letras eram mais simples, mais diretas, e foram se dificultando ao longo do tempo.
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Henrique Casttro faz terapia há quatro anos.
— Ela me ajudou a ficar um pouco mais no presente, a deixar o futuro para o futuro e o passar passado no passado. Eu queria as coisas muito no meu tempo, entendi que tem que deixar na mão de Deus e cuidar as coisas e cuidar das coisas que estão ao meu alcance hoje — diz. — A terapia ajudou a higienizar um pouco a minha mente, me deixou um pouco mais eclético musicalmente. Passei a estudar, a tentar entender o que as pessoas estavam falando. E passei também a entender mais a dor da minha equipe, porque eu queria muito as coisas assim para ontem. A terapia me ajudou a abrir os olhos pro trauma do outro.
Seu parceiro de fé, Elvis Elan, ele conheceu em 2013, na época da dureza. Das mais de 1 mil músicas que têm gravadas, 90% foram feitas com o amigo.
— O Elvis chegou lá em casa e a gente fez uma música em 5 minutos. Ele sabia fazer coisas no violão que eu não sabia, eu era muito quadrado e ele já era muito muito djavanizado. Eu falei assim: “Cara, você é muito sofisticado, eu acho que a gente tem que estragar você um pouco musicalmente e eu preciso evoluir um pouco. Se a gente encontrar esse ponto em comum, a gente vai fazer muito sucesso.” — recorda-se. — Depois, virei para ele e falei: “Mano, se você colar em mim e acreditar nas minhas ideias, eu vou te deixar rico.” Ele estava devendo a parcela do carro, eu devendo o aluguel, mas a gente tinha o brilho e o tesão de fazer música e acabou fazendo coisas incríveis.
O cantor e compositor Henrique Casttro (ao centro) com o Grupo Menos é Mais
Divulgação/Jhonnatas Franco
Hoje, Henrique Casttro aposta em uma série de músicas inéditas, que acabou de compor, e em algumas que ainda vai compor, no qual espera abarcar do trap ao gospel. Este ano, pretende investir no projeto Som da Casa, misturando “músicas que eu escuto em casa com músicas que eu faço em casa” e no qual vai de Bruno & Marrone e Reginaldo Rossi a Sandy e Junior.
— Eu me conectei esses dias com uma turma de 15 anos, fui no rolê deles para ver como é que eles pensam, o que eles escutam, como vive essa galera. Daqui a quatro anos, eles vão ter 19 e vão estar saindo para o show do Henrique Casttro. Então, eu já preciso ir conquistando eles, e até já fiz a música “Solteiro demais” pensando neles — revela.
