Conheça a história de brasileiros que 'invadiram' os gibis americanos
Em 1995, a Comic-Con de San Diego, na Califórnia, era o maior evento de quadrinhos do mundo. Naquela edição, um grupo de quadrinistas brasileiros, praticamente sem saber inglês, fez sua primeira aparição aos fãs americanos. Hoje, 30 anos depois, a atuação de artistas nacionais nas grandes editoras, especialmente DC Comics e Marvel, é imensa, numa jornada vencedora de talento, adaptação e reconhecimento internacional.
IA ensina? Especialista apresenta estudo no LED que mostra como usar ferramenta na educação
Entenda: ECA Digital também vai valer para vendas on-line, e varejistas terão de se adaptar
Essa turma inicial formou estrelas da HQ, como Mike Deodato Jr., Roger Cruz, Marcelo Campos e Luke Ross, este último pseudônimo de Luciano Queiroz, que desenhou Homem-Aranha e Liga da Justiça, entre outros.
Segundo Ivan Costa, um dos organizadores da CCXP, o evento anual paulistano que é hoje a maior convenção de quadrinhos e cultura pop do planeta, os brasileiros adotavam nomes americanizados para serem recebidos no mercado.
—Hoje ninguém esconde nada. Num mundo globalizado, de redes sociais, as pessoas sabem quem são os artistas — diz Costa.
O episódio em San Diego foi o início da ocupação brasileira nesse mercado. A cada década, novas gerações de artistas entraram no elenco de Marvel, DC e outras editoras. A ponto de hoje, com dezenas de brasileiros por lá, um dos filmes mais esperados da temporada ter origem em um trabalho com DNA daqui.
“Supergirl”, com estreia mundial em 26 de junho, é uma superprodução de Hollywood baseada numa saga da DC Comics de 2021, “Supergirl: A Mulher do Futuro”. Os textos do americano Tom King foram desenhados por Bilquis Evely e colorizados por Mat Lopes, uma dupla brasileira. Esses 30 anos de presença verde e amarela nos gibis americanos podem ser conectados pelo fato de Deodato também ter desenhado a Supergirl por um tempo.
Já naquela convenção de 1995, leitores americanos faziam fila para ter um autógrafo do paraibano Deodato, que tinha feito sucesso desenhando a Mulher Maravilha para a DC. Desde 1991, ele desenhava para editoras menores nos Estados Unidos, e seu trabalho viajou para lá conduzido por uma agência em São Paulo.
Odair Braz Junior, jornalista especializado em cultura pop e um dos nomes que naquele mesmo 1995 começava a tocar a revista Herói, uma bíblia nerd, destaca a importância da Art & Comics nesse processo. Hélcio de Carvalho, Dorival Vitor Lopes e Jotapê Martins eram donos da empresa criada para agenciar brasileiros nos EUA.
— O Brasil tem uma cultura forte de HQ, principalmente Marvel e DC. Hélcio e Jotapê cuidavam de quadrinhos na Editora Abril e criaram uma cronologia brasileira da Marvel, alterando os gibis originais. Cortavam histórias, adaptavam os balões em português mudando diálogos, suprimiam quadros, tudo para que os leitores daqui entendessem o rumo das histórias — explica o jornalista.
Deodato conta que Hélcio e Dorival entraram em contato com ele, que aceitou o trabalho imediatamente.
— Eu aceitei e nunca mais parei. A primeira história que peguei tinha 30 páginas, e eu tinha três empregos, em dois jornais e numa agência de publicidade. Mesmo trabalhando para esse povo, eu consegui fazer no prazo — lembra.
Mitos e fatos da educação digital: Festival LED debateu a importância da formação para lidar com novas tecnologias
Preconceito inicial
O artista tem sua teoria para explicar o sucesso:
—Acho que os brasileiros que foram para lá foram com fome, né? Tínhamos que entregar um trabalho bom e no prazo, para vencer um preconceito que eles tinham com desenhistas de outros países. Nos anos 1970, eles tiveram problemas com filipinos, espanhóis, que atrasavam demais.
No caso dele, o reconhecimento foi quase imediato:
— Em 1994, eu soube que Marcelo Campos estava desenhando a Liga da Justiça. Fiquei com inveja e falei que queria fazer alguma coisa para a DC. Falei que adorava a Mulher Maravilha, mas eu odiava. Fiz a personagem por um ano. Depois disso já tinha editora brigando pelo meu passe.
O paraibano Mike Deodato Jr. desenha em sua prancheta: quadrinista ficou conhecido pelos seus traços de personagens da DC e da Marvel
Divulgação
Deodato chegou a ficar 24 anos na Marvel. Hoje, alterna jobs para as grandes editoras com trabalho autoral. Segue gigante no mercado, à frente de uma nova geração brasileira. Gabriel Picolo, por exemplo, é elogiado pelo visual light e moderninho dos Jovens Titãs, heróis adolescentes da DC.
Bilquis Evely não parou na Supergirl. Em 2024, ela lançou um quadrinho autoral pela Dark Horses Comics: “Helen of Wyndhorn”, história de fantasia que no ano seguinte deu à brasileira a vitória na categoria melhor desenhista no Eisner Award, principal premiação dos quadrinhos.
Salário em dólar
Rafael Grampá conseguiu algo raríssimo. Assinou com a DC para uma minissérie do Batman, com um roteiro também feito por ele.
—Embora aberto a desenhistas de todo o mundo, o mercado americano praticamente só contrata roteirista de língua inglesa — diz Odair Braz Junior. — Grampá fez um acordo ótimo, porque ele criou alguns vilões. Se a DC usá-los em outros gibis, ou em séries e filmes, o artista pode ganhar muito com eles.
Initial plugin text
Nesse quesito de conquista financeira, Gabriel Bá chegou a uma elite. Após anos de trabalho autoral ao lado do seu irmão, Fábio Moon, em 2007, ele se juntou ao roteirista Gerard Way (que também é vocalista da banda de rock My Chemical Romance) e criou o grupo de heróis The Umbrella Academy. O gibi da Dark Horse fez sucesso e, em 2019, deu origem à série da Netflix de mesmo nome, que já teve quatro temporadas. Bá faz parte da produção.
A remuneração dos artistas de HQ não é divulgada pelas editoras, e certamente tem uma variação muito grande. Novatos podem ganhar US$ 150 por cada página. Um astro como Frank Miller, que fez fases geniais de Batman e Demolidor, já teria recebido até US$ 10 mil por uma capa.
— O artista da capa pode ser famoso, com apelo de venda maior. Então ele ganha mais do que o cara que faz as páginas internas — explica Ivan Costa.
Deodato está rico? Ele ri da pergunta:
—Gostaria de dizer isso, mas eu tenho uma família grande, ajudo meus pais, meus irmãos... Nunca juntei dinheiro, não posso parar amanhã. Estou com 63 anos. Ainda bem que gosto de trabalhar e cuido da saúde.
