Conflito no Irã esvazia Teerã, isola brasileiros e dificulta acesso a informações, diz embaixador
Fortes explosões foram ouvidas em bairros de Teerã no terceiro dia de guerra. Até o momento, não foram identificados os alvos das ações. O Exército de Israel informou ter iniciado um novo ataque de grande envergadura no coração da capital iraniana. Em um comunicado divulgado nesta segunda-feira (2), a ONG Crescente Vermelho Iraniano informou que um total de 555 pessoas foram mortas em todo o Irã nos ataques conjuntos dos EUA e de Israel desde o início no sábado (28).
Os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã já causam no mundo o temor de um conflito generalizado e impactam a economia global afetando os preços do petróleo e cancelando centenas de voos.
A nota oficial do Itamaraty sobre o conflito adotou um tom de cautela, condenando os ataques norte-americanos e pedindo a interrupção das operações militares. A ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, chamou a ação autorizada por Donald Trump de irresponsável, e afirmou que nada justifica a ofensiva militar contra populações civis, principalmente quando havia negociações diplomáticas em curso. Já o vice-presidente, Geraldo Alckmin, disse que o Brasil se manteve na postura tradicional de sempre defender a paz.
Em entrevista ao Jornal da CBN, André Veras Guimarães, embaixador do Brasil no Irã, falou sobre a situação de brasileiros no país após os ataques dos Estados Unidos e Israel neste final de semana.
Cerca de 200 brasileiros estão no Irã. André Veras Guimarães, afirmou que muitas pessoas já deixaram Teerã por recomendação das autoridades e os outros moradores permanecem em casa. O embaixador explica a situação difícil para ter mais informações concretas.
‘É muito difícil identificar valores ou números porque todo o sistema de comunicação está desconectado. Só estou conseguindo falar com vocês por meio de comunicação satelital. Não temos informações das autoridades iranianas, que também não divulgam dados, possivelmente por estratégia. Os ataques são generalizados na cidade; no sul houve uma grande ofensiva agora e eles ocorrem praticamente todos os dias, às vezes duas vezes por dia. Muitas vezes sentimos o impacto mesmo quando a explosão acontece a cerca de um quilômetro de distância, por causa do deslocamento de ar.’
Apesar das dificuldades de comunicação e das restrições de circulação impostas pela escalada dos ataques, a embaixada brasileira mantém canais ativos para orientar e prestar assistência à comunidade no país. Segundo o embaixador, o contato com os brasileiros tem sido feito de forma limitada, enquanto o clima de insegurança mantém a população recolhida:
‘Nós temos um canal de comunicação que é por WhatsApp e por telefone, telefone ainda de linha aqui, o fixo ainda funciona, nós temos um plantão na embaixada, eu estou próximo também da Embaixada, se alguém chegar lá num horário fora do normal, eu tenho como atender a pessoa, mas as pessoas estão em suas casas, ninguém está saindo às ruas, porque há também um grande contingente de militares nas ruas e as pessoas têm medo de serem, por alguma forma, confundidos ou percebidos como um inimigo e serem feridas por conta de um engano.’Ele também afirmou que a residência do embaixador mexicano ficou danificada em razão de um ataque.
"Acabei de saber agora que a residência do embaixador do México foi muito danificada por conta de estar próxima de um dos ataques e isso é só para mostrar que os ataques, mesmo sendo cirúrgicos, eles não são jogos de videogame, eles atacam e matam pessoas, sejam militares, sejam civis e, aparentemente, isso se torna uma normalidade."
O embaixador conta que o clima em Teerã, capital do país, é de muita apreensão, com os habitantes com medo de saírem às ruas, que estão "vazias".
"Embora toda essa noção que se criou que o Irã é um estado exportador de violência, é exportador de terrorismo, eles não são um povo acostumado a serem atacados. Os prédios aqui não têm proteção, não são bunkers como tem em Israel. Eles têm uma tradição de arquitetura e de engenharia muito grande. Então, os prédios são muito modernos, prédios com muito vidro. As pessoas estão tentando se abrigar da melhor maneira possível, mas ninguém sabe qual será o alvo e até quando deve-se buscar uma estação de metrô ou um abrigo subterrâneo, porque ninguém sabe quando será e onde será o ataque. Não há sistema de sirenes de ataques."
O chefe de segurança do Irã afirmou nesta madrugada que o país não negociará com os Estados Unidos. A declaração contradiz o presidente Donald Trump, que antes havia dito que a nova liderança tinha interesse em retomar as negociações.
