Conflito no Iêmen deixa 125 mil deslocados enquanto houthis avançam pela costa e atacam a Arábia Saudita, que promete revidar

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Ao menos 125 mil pessoas foram deslocadas dentro do Iêmen desde a retomada dos combates entre os Houthis, rebeldes apoiados pelo Irã, e as forças do governo no início de setembro, informou nesta terça-feira o subsecretário-geral da ONU, Khalid Kyari, em uma reunião do Conselho de Segurança da organização. No mesmo período, o Escritório de Direitos Humanos da ONU registrou 40 vítimas civis no país — oito mortos e 32 feridos. Mulheres e crianças representam metade dos mortos e mais da metade dos feridos. A ofensiva dos Houthis avançou pela costa do Mar Vermelho e chegou ao estratégico Estreito de Bab el-Mandeb, enquanto o grupo intensificou os ataques contra a Arábia Saudita, que prometeu reagir "firmemente" e passou a contar com uma força-tarefa dos Estados Unidos para compartilhar inteligência e apoiar o planejamento militar.

Contexto: Houthis disparam dezenas de mísseis contra a Arábia Saudita; Riad faz contato com os EUA após dano a oleoduto estratégico Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países Segundo um comunicado divulgado nesta terça-feira pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), "a rápida escalada das hostilidades ao longo da costa oeste do Iêmen" também forçou milhares de pessoas a buscar refúgio no Djibuti, país localizado do outro lado do Estreito de Bab el-Mandeb.

Os Houthis já controlavam grande parte do norte do Iêmen, incluindo a capital, Sana, e Hodeida, no oeste. Nos últimos dias, porém, avançaram pela costa e, na quinta-feira, tomaram a cidade portuária de Moca. Em seguida, ocuparam ilhas no Mar Vermelho e o Estreito de Bab el-Mandeb, por onde passa o tráfego marítimo de e para o Canal de Suez. Os confrontos das últimas semanas deixaram centenas de mortos, segundo a ONU. O Acnur, por sua vez, afirma temer "novos deslocamentos" caso as hostilidades se intensifiquem. Nos últimos quatro dias, mais de 2.400 pessoas atravessaram o mar do Iêmen em direção ao Djibuti, das quais "mais de 60% são mulheres, crianças e idosos", de acordo com a organização. Refugiados do Iêmen conversando com funcionários da OIM ao chegarem — após fugirem de combates entre forças governamentais e autoridades Houthis apoiadas pelo Irã — nas proximidades de um posto da Guarda Costeira do Djibuti em Khor Angar, em 13 de setembro de 2026 HANDOUT / IOM DJIBOUTI / AFP Muitas chegaram “exaustas, em situação de angústia” e sem recursos, segundo Sandrine Desamours, representante do Acnur no Djibuti. Entre as necessidades mais urgentes estão "abrigo, alimentação, água potável, assistência médica e serviços de proteção". Segundo a agência, comunidades e campos de deslocados estão “saturados”. Guga Chacra: Tudo dá errado para a Arábia Saudita na guerra no Irã As operações humanitárias também são prejudicadas pela insegurança, estradas danificadas, interrupções nas telecomunicações e restrições de circulação. O Acnur alertou ainda que a crise pode afetar a logística humanitária internacional, já prejudicada pelas perturbações no Estreito de Ormuz. O Bab el-Mandeb conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden, e a instabilidade na região pode afetar o transporte de ajuda e de mercadorias destinadas ao Iêmen, ao Sudão e a outras áreas de crise. Entenda: Arábia Saudita e Houthis trocam ataques pelo Estreito de Bab el-Mandeb, que contorna Ormuz; rebeldes saem à frente por controle de rota do petróleo Os Houthis tomaram Sana em 2014, no início da guerra civil, e expulsaram o governo para Áden, no sul. No ano seguinte, a Arábia Saudita liderou uma coalizão para intervir em apoio às forças governamentais, em um conflito que se transformou em uma das maiores crises humanitárias do mundo. Após anos de trégua, os combates foram retomados em julho. Desde então, os Houthis avançaram sobre áreas estratégicas do litoral e passaram a atacar também o território saudita. Pressão sobre a Arábia Saudita Enquanto o número de deslocados aumenta no Iêmen, os Houthis também intensificaram os ataques contra navios e infraestrutura petrolífera da Arábia Saudita, país que apoia o governo vizinho no Iêmen e que está sob bloqueio marítimo do grupo rebelde. Os Houthis reivindicaram um ataque de "grande escala", com "dezenas de mísseis balísticos e drones", contra a base aérea King Khalid, em Khamis Mushait, no sul do país. Alerta: ONU diz que 46 mil fugiram do Iêmen após escalada de Houthis na região; Trump revela que rebeldes pediram para EUA não intervirem A coalizão liderada por Riade confirmou que ataques com mísseis e drones ocorreram na segunda-feira contra Khamis Mushait, Abha e Taif, deixando 13 civis feridos. Os Houthis afirmaram que a Arábia Saudita respondeu com mais de 50 ataques aéreos no Iêmen. A coalizão prometeu reagir “firmemente” para proteger a soberania do reino e adotar “todas as medidas operacionais necessárias” para impedir a ofensiva do grupo. Nas primeiras horas desta terça-feira, a Defesa Civil saudita emitiu alertas de ataque aéreo em seis regiões, posteriormente suspensos. Um dos alertas citados em outro comunicado envolveu Meca, além de áreas próximas a Jidá e Taif. Veja também: Brics pede 'máxima prudência' no Oriente Médio, e presidente do Irã diz que região 'não precisa de um policial' em referência aos EUA No oeste do Iêmen, um ataque dos Houthis matou oito soldados das forças governamentais na segunda-feira, segundo duas fontes militares. No domingo, as forças do governo haviam afirmado ter retomado posições na província de Taiz, no sudoeste do país, e realizado ataques aéreos que teriam matado pelo menos 10 combatentes Houthis, segundo a agência oficial Saba. Diante da escalada, o Comando Central dos EUA (Centcom, na sigla em inglês) criou uma força-tarefa na Arábia Saudita para ampliar o compartilhamento de informações de inteligência e o apoio ao planejamento das forças armadas do país, segundo um oficial americano que falou sob condição de anonimato. Entenda: Arábia Saudita fecha oleoduto que contorna Estreito de Ormuz após ataques com drones lançados do Iraque O príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, recebeu na segunda-feira, em Jeddah, o comandante do Centcom, almirante Brad Cooper, para discutir os “últimos acontecimentos na região”. Segundo o site americano Axios, Cooper havia viajado à Arábia Saudita na quinta-feira para reuniões urgentes de coordenação. Liberdade de navegação A tomada de Bab el-Mandeb aumentou a pressão sobre a Arábia Saudita e outros países da região porque o estreito é uma das principais passagens marítimas entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden. A rota, que também é importante para o transporte de hidrocarbonetos no Oriente Médio, ganhou ainda mais importância em meio ao bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã e pelos EUA. Bab el-Mandeb: Conheça estreito alternativo a Ormuz também ameaçado no Oriente Médio Arábia Saudita e Egito defenderam nesta terça a garantia da liberdade e da segurança da navegação pelos dois estreitos. Mohammed bin Salman viajou ao Cairo para se reunir com o presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi. Segundo a Presidência egípcia, os dois líderes “enfatizaram a importância de garantir a liberdade e a segurança da navegação marítima” nas duas passagens. Al-Sisi também reafirmou o apoio do Egito às medidas adotadas por Riade para proteger sua segurança e estabilidade. O fechamento de Bab el-Mandeb pode ter impacto especialmente relevante para o Egito, que depende das receitas do Canal de Suez para obter divisas. Ilha de Perim: Houthis avançam com ofensiva e tomam controle de ilha estratégica no Estreito de Bab el-Mandeb O Catar, por sua vez, advertiu que o fechamento do estreito poderia ter consequências “catastróficas”. Disputa com o Irã A escalada no Iêmen também afetou uma reunião entre os países do Golfo e o Irã sobre o futuro do Estreito de Ormuz. O encontro, que estava previsto para segunda-feira em Omã, foi adiado a pedido da Arábia Saudita. Teerã acusou Riade de usar a situação no Iêmen como “pretexto” para postergar as negociações. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baqaei, afirmou que o Irã “não interfere nos assuntos iemenitas” e classificou os Houthis como “atores totalmente independentes que tomam suas decisões em função de seus próprios interesses”. Leia mais: Houthis conquistam cidade portuária no Iêmen e firmam posição estratégica perto do Estreito de Bab el-Mandeb O Irã apoia há anos os Houthis, inclusive com armas e tecnologia, mas analistas divergem sobre o grau de influência de Teerã na retomada dos combates. A reunião deveria discutir o futuro de Ormuz, outra passagem crucial para o comércio mundial de hidrocarbonetos, que permanece bloqueada pelo Irã em meio à guerra com os EUA. (Com AFP)

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