Conectividade na Amazônia ainda enfrenta desafios estruturais e sociais, apontam debatedores no FIB

Conectividade na Amazônia ainda enfrenta desafios estruturais e sociais, apontam debatedores no FIB

 

Fonte: Bandeira



A conectividade e a inclusão digital na Amazônia brasileira estiveram no centro dos debates do terceiro dia do 16º Fórum da Internet no Brasil (FIB), nesta quarta-feira (27). A sessão reuniu pesquisadores, lideranças comunitárias e representantes de organizações da sociedade civil para discutir os desafios enfrentados pelas populações tradicionais da região no acesso à internet e os caminhos para garantir uma conectividade considerada “significativa” para esses territórios.


O Fórum da Internet no Brasil é uma atividade preparatória para o Fórum de Governança da Internet (IGF), promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU), e busca ampliar o debate multissetorial sobre os rumos da internet no país.


Pesquisa busca ampliar indicadores sobre inclusão digital na Amazônia


A sessão teve como foco a apresentação do estudo sobre conectividade e inclusão digital na Amazônia brasileira, desenvolvido pelo Cetic.br | NIC.br em 2026, com apoio da Câmara de Universalização e Inclusão Digital do CGI.br e suporte do Programa de Acesso Digital do Governo do Reino Unido (Digital Access Programme – DAP).


O estudo pretende aprimorar os indicadores sobre acesso à internet na região amazônica por meio de metodologias quantitativas e qualitativas, em diálogo com organizações locais e atores que atuam diretamente nos territórios.


Além da apresentação metodológica da pesquisa, o encontro abriu espaço para ouvir experiências e demandas de povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e comunidades tradicionais sobre os impactos da exclusão digital.


Exclusão digital limita acesso à educação e saúde


A coordenadora de operações da Rede Povos da Floresta, Sabrina Costa, destacou que a ausência de conectividade afeta diretamente direitos básicos das populações amazônicas.


“As comunidades tradicionais da Amazônia enfrentam essa ausência de inclusão digital e de conectividade significativa em seus territórios de diferentes formas. Uma das principais é a ausência de acesso à educação”, afirmou.


Sabrina Costa é coordenadora de operações da Rede Povos da Floresta (Foto: Ivan Duarte/O Liberal)


Segundo ela, a falta de internet compromete tanto o ensino formal quanto modalidades de educação a distância. Sabrina também ressaltou os impactos na área da saúde.


“Hoje a gente trabalha telemedicina e telessaúde, que é o atendimento à saúde por via digital. Então, essas comunidades, quando não estão conectadas à internet, acabam sendo excluídas desse acesso”, disse.


Para a representante da Rede Povos da Floresta, a conectividade deve ser compreendida como ferramenta de transformação social nos territórios amazônicos.


“A conectividade é um caminho para a justiça social nesses territórios. Ela possibilita ampliar o acesso à educação, à saúde e à proteção territorial dentro das comunidades”, declarou.


Quilombolas defendem internet com formação e segurança digital


O agricultor e integrante de movimentos sociais José Carlos Guerreiro Galiza alertou que a inclusão digital precisa acontecer com diálogo e participação das comunidades quilombolas.


“A inclusão digital afeta quando chega de qualquer forma, sem diálogo com a comunidade, sem escuta. Ela chega trazendo conteúdos que não contribuem para o desenvolvimento da comunidade”, afirmou.


José Carlos Guerreiro Galiza faz parte da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Quilombolas -(Conaq) (Foto: Ivan Duarte/O Liberal)


Galiza apresentou como exemplo o projeto Conexão Povos da Floresta, iniciativa construída junto às comunidades tradicionais da Amazônia.


“O Conexão Povos da Floresta é um modelo de internet significativa. É uma internet usada para estudar, acessar telemedicina, fazer monitoramento territorial e promover o bem viver”, explicou.


Segundo ele, as comunidades desejam acesso à internet em suas residências, mas defendem que esse acesso aconteça com segurança e formação adequada.


“Essa internet precisa trazer resultados, empoderar e atender aos anseios da comunidade”, acrescentou.


Infraestrutura ainda é principal obstáculo na região Norte


O jornalista e pesquisador Hemanuel Veras, doutorando em Comunicação pela UFRJ e integrante do Centro Popular de Comunicação e Audiovisual, avaliou que o principal desafio para ampliar a conectividade na Amazônia ainda é a infraestrutura.


“A gente tem uma questão séria de infraestrutura na região Norte. Existe uma disparidade no mapa de infraestrutura do Brasil em relação à região amazônica”, afirmou.


Hemanuel Veras é jornalista e pesquisador (Foto: Ivan Duarte/O Liberal)


Ele citou iniciativas como o programa Norte Conectado e projetos conduzidos por organizações sociais para ampliar o acesso à internet em comunidades ribeirinhas, tradicionais e indígenas.


“Torcemos para que esses projetos vinguem e consigam melhorar a conectividade dos nossos povos”, disse.


Apesar disso, Veras ressaltou que apenas levar conexão às comunidades não resolve o problema da exclusão digital.


“Não basta apenas levar os dispositivos de conexão e achar que a pessoa vai usufruir disso automaticamente. Isso seria apenas uma relação mercadológica”, afirmou.


Segundo ele, é necessário investir também em educação midiática, inclusão digital e apropriação social da tecnologia.


“O que a gente defende é uma relação social, coletiva, de pertencimento e apropriação das pessoas, para que isso realmente faça diferença na vida delas”, concluiu.