Conecta Multimodal: Cabotagem brasileira vê nos biocombustíveis caminho para reduzir emissões

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Fonte da notícia: Folha de Pernambuco Folha de Pernambuco

As novas exigências para reduzir as emissões de gases de efeito estufa representam um dos maiores desafios já enfrentados pela cabotagem brasileira. A partir do fim da década, regras que estão sendo estruturadas pela Organização Marítima Internacional (IMO) deverão impor custos adicionais às embarcações que utilizarem combustíveis fósseis, pressionando empresas a acelerar a transição energética sem comprometer a competitividade do modal frente ao transporte rodoviário.

A avaliação é do diretor-executivo da Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac), Luiz Fernando Resano. O tema foi abordado na programação do Conecta Multimodal 2026, nesta quinta-feira (5), dentro da feira Multimodal Nordeste 2026. 

Segundo ele, embora a descarbonização seja inevitável, o processo precisa considerar as características do mercado brasileiro para evitar que o aumento do frete provoque a migração de cargas para as rodovias.

"O competidor do navio internacional é outro navio. Já na cabotagem, o concorrente é o transporte rodoviário. Se o transporte aquaviário ficar mais caro, dependendo da carga, ela migra para a estrada. Ninguém quer pagar mais apenas porque o transporte é verde", afirma.

A preocupação decorre do novo modelo regulatório que vem sendo discutido pela IMO. Diferentemente das metas climáticas assumidas pelos países no âmbito do Acordo de Paris, as medidas voltadas ao transporte marítimo terão caráter obrigatório e incluirão mecanismos financeiros para penalizar embarcações com maior intensidade de emissões.

Pelas projeções apresentadas pela entidade, navios que permanecerem utilizando combustíveis convencionais poderão pagar até US$ 380 por tonelada de dióxido de carbono equivalente emitida. Na prática, a medida tende a elevar significativamente o custo operacional das embarcações e, consequentemente, o valor dos fretes.

Biocombustíveis como vantagem competitiva

Se, por um lado, a descarbonização representa um desafio para a cabotagem, por outro ela abre uma oportunidade estratégica para o Brasil. Na avaliação de Resano, poucos países reúnem condições tão favoráveis para produzir combustíveis renováveis em larga escala quanto o mercado brasileiro.

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Entre as alternativas mais promissoras estão o etanol e o biodiesel, produzidos a partir da cana-de-açúcar, milho e soja. Segundo ele, esses combustíveis podem reduzir drasticamente as emissões do transporte marítimo e, dependendo do desempenho ambiental alcançado, até gerar compensações financeiras dentro do novo sistema regulatório.

"O Brasil tem matéria-prima para produzir etanol e biodiesel em grande escala. Essa pode ser uma grande oportunidade para o país como fornecedor de combustíveis para a navegação. Na cabotagem, nós temos uma solução muito próxima da nossa realidade", destaca. 

Etanol e biodiesel colocam Brasil em posição estratégica

Na avaliação da Abac, o Brasil reúne vantagens competitivas que poucos países possuem para atender às futuras exigências ambientais da navegação internacional. O país já dispõe de uma cadeia consolidada de produção de etanol e biodiesel, além de experiência no uso desses combustíveis em larga escala.

Resano destaca que o biodiesel pode ser utilizado em motores marítimos com poucas adaptações operacionais, enquanto fabricantes já estudam alternativas para ampliar o uso do etanol na propulsão naval. Para ele, o desafio não está apenas no desenvolvimento tecnológico, mas também no reconhecimento internacional desses combustíveis como soluções sustentáveis.

"Já conseguimos avançar na certificação do etanol de milho e seguimos trabalhando para que o etanol de cana também seja reconhecido. Se conseguirmos permanecer nas faixas de menor emissão previstas pela IMO, além de não pagar penalidades, poderemos até receber compensações", afirma.

Enquanto combustíveis como amônia verde e hidrogênio ainda demandam maior maturidade tecnológica e infraestrutura específica, o etanol e o biodiesel aparecem como alternativas mais próximas da realidade brasileira.

Incentivos e políticas públicas serão decisivos para a cabotagem

Além da adoção de novos combustíveis, a Abac defende que a transição energética da cabotagem seja acompanhada por políticas públicas capazes de preservar a competitividade do modal. Para a entidade, o foco dos incentivos deve estar nos embarcadores que optarem pelo transporte aquaviário, reconhecido como mais eficiente do ponto de vista energético e ambiental.

"Se estamos falando em mercado de carbono, precisamos criar créditos para o usuário. Não para a empresa de navegação, mas para quem escolhe utilizar a cabotagem. O embarcador deve ser beneficiado por optar pelo modal mais eficiente energeticamente", afirma Resano.

Segundo ele, ampliar a participação da cabotagem na matriz logística brasileira gera ganhos que vão além da redução das emissões. Entre os benefícios estão a diminuição do custo logístico, a redução de acidentes nas rodovias, menor consumo de combustíveis fósseis, mais previsibilidade nas operações e viagens rodoviárias mais curtas, permitindo que caminhões sejam utilizados na distribuição regional, onde apresentam maior eficiência.

O executivo lembra ainda que o transporte aquaviário responde por uma parcela reduzida das emissões do setor de transportes quando comparado a outros modais, reforçando seu potencial para contribuir com as metas climáticas do país.

Gargalos ainda preocupam o setor

Embora enxergue oportunidades na transição energética, a Abac alerta para desafios que continuam pressionando a cabotagem nacional. Entre eles está o fim da isenção do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM) para a cabotagem, previsto para janeiro de 2027. Caso o benefício não seja renovado, a estimativa é que os usuários passem a arcar com um aumento de aproximadamente 8% nos custos do transporte.

Outro problema apontado é a escassez de profissionais da Marinha Mercante. Segundo Resano, levantamento realizado pela entidade identificou cerca de 340 vagas para oficiais abertas por mais de dois meses sem candidatos qualificados. Para enfrentar o déficit, empresas associadas decidiram financiar a formação de novos oficiais, investindo cerca de R$ 65 mil por aluno, além da contratação como trainee durante o período de capacitação.

"Enquanto muitos enxergam apenas a água, nós vemos um caminho. A cabotagem pode contribuir para reduzir emissões, diminuir o custo Brasil e ampliar a eficiência logística, desde que existam condições para uma transição equilibrada", conclui Resano.  

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