Conceição Evaristo é reverenciada na Sapucaí e emociona público no desfile do Império Serrano
Era 0h59 quando Conceição Evaristo se posicionou em seu lugar no carro abre-alas do Império Serrano, quarta escola a cruzar a Marquês de Sapucaí. Com a ajuda de um guincho, a escritora acomodou-se no trono confeccionado no segundo andar da alegoria. Cerca de 10 minutos depois, ao atravessar o setor 1, a homenageada da verde e branca de Madureira demonstrou toda a alegria e disposição que a acompanharam ao longo do desenvolvimento do enredo. Ficou de pé, cantou o samba com fervor e interagiu com o público, que a reverenciou.
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Ao longo do percurso, Conceição Evaristo alternava entre emoção e euforia. Com a letra do samba-enredo na ponta da língua, cantava em direção ao público, acenava com as mãos e lançava beijos, esbanjando carisma.
Ora em pé, ora sentada no trono do abre-alas, era saudada pelo público com gritos de “maravilhosa”, “deusa”, “ícone” e “te amo”, que retribuíam o carinho da homenageada. Celulares a postos registravam cada momento da escritora.
— O acolhimento do público foi o que mais me emocionou — revelou.
Na dispersão, foi a última a descer do carro, exatamente uma hora depois de ter embarcado no veículo. No chão, o corpo já demonstrava cansaço. Ainda assim, ao se dirigir para fora da área, auxiliada pelo irmão e por uma integrante da escola, Conceição manteve o olhar enérgico e o sorriso sereno, que remetem à calmaria das serras mineiras.
— Estou com uma expectativa imensa em relação à posição que a escola vai conquistar. É um prazer muito grande ver um texto literário, criado a partir da perspectiva de uma mulher negra, tornar-se uma aula pública. Isso me faz refletir e desejar, cada vez mais, a literatura como um direito. O livro e a escrita precisam pertencer a todos — completou.
Entre gargalhadas e resistência, Arranco reverencia a mulher por trás do palhaço Xamego
Terceira escola a pisar na Avenida no segundo dia da Série Ouro, o Arranco do Engenho de Dentro desfilou com o enredo “A Gargalhada e o Xamego da Vida”, uma homenagem à trajetória de Maria Eliza Alves dos Reis, a mulher por trás do palhaço Xamego. A artista brilhou no circo em um tempo em que mulheres enfrentavam fortes barreiras de gênero e racismo para atuar na arte circense. O pioneirismo feminino também esteve presente em outros segmentos da escola, como no caso da mestre de bateria Laíssa.
Desfile Arranco do Engenho de Dentro
Luiza Monteiro | Riotur
— Esse é o desfile da minha vida. Foi muito trabalho, muita luta e chegar aqui, nessa noite, é um sonho realizado. Agora eu espero que mais mulheres tenham oportunidades — disse a mestre de bateria.
A carnavalesca Annik Salmon desenvolveu um desfile que transformou a Sapucaí num picadeiro de circo, lembrando o papel do humor e da alegria como formas de resistência.
O desenvolvimento do desfile apostou em cores fortes, como o azul e o vermelho, movimentos coreografados em diferentes alas que evoquem o ambiente circense e fantasias que remetem a homenageada.
Além do matriarcado da escola, foi destaque o samba-enredo que caiu na boca do público que longo do desfile.
O último carro, que contava com um palhaço no balanço ao topo da alegoria, também animou o público. No entanto a escola teve alguns pequenos problemas de evolução. Contudo, a escola fechou o desfile em 53 minutos.
Fé, força feminina e superação marcam desfile da Em Cima da Hora
A Em Cima da Hora colocou na avenida o enredo "Salve todas as Marias- Laroyê, Pombagiras!", uma exaltação pombagiras — entidades femininas que representam força, independência, resistência e sensualidade no imaginário das religiões de matrizes africanas. O desfile misturou elementos místicos, cores vibrantes e a energia de um samba que celebra a vida dessas figuras que, historicamente, foram marginalizadas e estigmatizadas.
Em Cima da Hora no desfile da Sapucaí
Luiza Monteiro | Riotur
Fantasia e ambientação destacaram elementos de gira de candomblé e umbanda, encruzilhadas, cores fortes e símbolos ligados à devoção dos fiéis, tudo isso com tratamento carnavalesco Rodrigo Almeida.
Mas no começo do desfile um fato chamou atenção do setor 1 e preocupou o torcedor de Cavalcanti. Igor Pitta, interprete da Em Cima da Hora, chegou na Marquês de Sapucaí com o dedo da mão quebrado após sofrer acidente no caminho da Avenida. Mesmo assim, ele não se desanimou:
— Esse problema não vai atrapalhar o desempenho do automóvel de som, muito menos da escola. Pelo contrário, dá mais disposição e concentração para colocarmos a energia no alto — disse Igor Pitta minutos antes de entrar na avenida.
O presidente da escola, Heitor Fernandes, falou brevemente no microfone da Sapucaí, mas ao GLOBO comentou situação do intérprete.
— Ele é um profissional muito comprometido que sabe utilizar a voz como poucos. Tenho certeza que o problema não vai atrapalhar nosso desfile. Vamos brigar pelo título — disse o presidente.
Comissão de frente
Com um tripé de grandes proporções e coreografia de Marcio Moura, a Comissão de frente da Em Cima da Hora causou empolgação nos primeiros setores da Sapucaí.
— Fazer uma Comissão de frente para um enredo tão importante quanto esse foi um desafio e tanto. Além de exaltar as entidades, estamos exaltando toda força feminina — disse Marcio Moura.
A escola buscou transmitir liberdade, coragem e a quebra de preconceitos, transformando a avenida em um espaço de festa e reflexão sobre identidade e espiritualidade.
Botafogo Samba Clube teve homenagem a Burle Marx e aposta em virada artística
A Botafogo Samba Clube abriu a segunda noite de desfiles na Série Ouro com um enredo que homenageou o paisagista e artista Roberto Burle Marx, referência do modernismo e da botânica brasileira. A agremiação apostou no desfile após receber críticas sobre a forte ligação com o futebol.
Botafogo Samba Clube abriu o segundo dia da Série Ouro
João Salles/ Riotur
— Depois do carnaval do ano passado conversamos internamente e reconhecemos que estava na hora de apostar em algo diferente do futebol. Nossos carnavalescos vieram com essa proposta maravilhosa e resolvemos seguir. Vamos mostrar que sabemos fazer carnaval distante do futebol — disse Felipe Yaw, vice-presidente da escola.
Mesmo tendo sido fundada apenas em 2018, a escola vinha recebendo críticas por sempre apresentar enredos ligados ao futebol. Neste ano, os carnavalescos Alexandre Rangel e Raphael Torres são os responsáveis por uma mudança no estilo.
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— A gente já queria ter mudado o perfil dos desfiles da escola no ano passado, quando homenageamos o clube. Infelizmente, não foi possível, mas nesse ano apresentamos um novo perfil da Botafogo. Desfile com muita cor e segurança — revela Sandro Lima, presidente da agremiação.
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A escola levou para avenida um abre-alas inspirado em jardins abstratos e composições artísticas, refletindo o olhar e a riqueza cromática que marcaram a obra de Burle Marx.
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— Estou voltando para escola nesse ano e assim como a escola estou mais maduro para desenvolver um excelente desfile. Nossa bateria vai passar com calma e segurança — pontuou Marfim, mestre de bateria da escola.
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