Computação quântica: entenda por que Donald Trump investiu US$ 2 bi na área

Computação quântica: entenda por que Donald Trump investiu US$ 2 bi na área

 

Fonte: Bandeira



Depois de passar os últimos dois anos encantando com inteligência artificial (IA), o governo Trump voltou a sinalizar que planeja estar à frente de avanços em tecnologias quântica, área que carrega alto potencial disruptivo para a economia e a geopolítica.

Nesta quinta (21), a gestão do republicano anunciou que vai conceder subsídios de US$ 2 bilhões a nove empresas de computação quântica, incluindo participações acionárias do governo americano — a IBM vai receber metade do montante.

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Caso se tornem realidade, computadores quânticos podem alterar profundamente diversos setores, como pesquisa de materiais, medicina, logística e mercado financeiro. Isso acontece porque, na computação quântica, as informações são armazenadas e processadas por qubits, ou bits quânticos. Ao contrário da computação clássica de PCs e smartphones, cujo bit pode ser processado por 0 ou por 1, o qubit expressa o 0 e o 1 ao mesmo tempo por um fenômeno chamado superposição.

Em vez de analisar opções sequencialmente, algoritmos quânticos tiram vantagens das propriedades da mecânica quântica para observar diversos cenários de uma vez só — essa diferença na eficiência de resultados entre máquinas clássicas e quânticas é chamada de “vantagem quântica”.

Isso eleva o potencial para a realização de cálculos complexos, que hoje são impossíveis de serem realizados até pelos supercomputadores mais potentes do mundo. Assim, essas máquinas podem ser grandes aliadas de setores que vivem no topo da lista de preferências do republicano.

— Petróleo e mineração demandam uma quantidade astronômica de recursos computacionais. As máquinas atuais podem ficar anos processando dados para saber se vale a pena ou não furar um poço numa determinada região. São problemas que envolvem grandes quantidades de dados e são difíceis de resolver. Então, existem algoritmos quânticos que prometem resolver em alguns minutos o que levaria anos — explica Ivan Oliveira, pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.

Além disso, caso se tornem funcionais, esses computadores podem abrir novos horizontes em IA, dando a infraestrutura para algoritmos e modelos impensáveis atualmente. As máquinas quânticas poderão operar de maneira híbrida, com supercomputadores clássicos, mas já existem áreas científicas se debruçando sobre temas como “aprendizado de máquina quântico”.

Segundo o banco de investimentos Jefferies, o mercado quântico pode se tornar uma oportunidade de US$ 198 bilhões em 2040. Já a consultoria McKinsey, estima que quatro setores (indústria química, ciência, finanças e mobilidade) podem ter um acréscimo de US$ 2 trilhões até 2035 como resultado dessas tecnologias.

Gigantes e startups esfregam as mãos para destravar o potencial da tecnologia e o governo americano tenta se antecipar a um possível replay do sucesso da Nvidia na infraestrutura de IA — a companhia estava fora do radar quando, no começo da década de 2010, pesquisadores passaram a usar GPUs para rodar modelos de IA.

Ao se tornarem viáveis, computadores quânticos farão parte dos serviços oferecidos por grandes gigantes da nuvem — não é uma coincidência que Amazon, Google Microsoft e IBM façam grandes investimentos na área.

Além do US$ 1 bilhão que receberá do governo americano, a IBM investirá valor semelhante na construção de uma fábrica de chips quânticos em Albany, Nova York. Em 2029, a companhia imagina que terá em funcionamento o processador Starling, que deverá ter 200 qubits lógicos e será capaz de solucionar mais de 100 milhões de operações quânticas — um qubit lógico é a união de alguns qubits físicos, que tornam a máquina resistente a erros.

Disputa com a China

O movimento americano também é visto como uma resposta aos avanços da China no setor, que segundo especialistas, detém a dianteira na tecnologia. No 15º Plano Quinquenal da China (2026–2030), aprovado em março, a computação quântica aparece não apenas como prioridade de pesquisa, mas como prioridade industrial.

Embora não seja possível precisar o tamanho dos investimentos do país, a China estabeleceu no ano passado um fundo nacional de capital de risco de US$ 138 bilhões para tecnologias de fronteira, incluindo computação quântica, estruturado como parceria público-privada.

— O movimento dos EUA é de soberania nacional, porque tecnologias quânticas incluem criptografia, comunicação e sensoriamento. Sem uma infraestrutura única, o país pode ficar vulnerável — explica Bárbara Amaral, pesquisadora de informação quântica do Instituto de Física da Universidade de São Paulo.

Na avaliação dela, não é apenas a possibilidade de ter que importar componentes no futuro que movem os EUA. É uma questão de segurança nacional. Em teoria, máquinas quânticas têm capacidade de decodificar os algoritmos criptográficos usados atualmente no ambiente digital, como o RSA, o que poderia, por exemplo, expor dados confidenciais de governos e toda a segurança que envolve o sistema financeiro global. Além disso, comunicações feitas por meio de tecnologias quânticas não podem ser violadas nem por máquinas quânticas.

— Tecnologias quânticas podem afetar até áreas menos faladas, como agro. Com sensoriamento, você pode aumentar a produção e ter mais autonomia alimentar. A estratégia da China é de longo prazo, o que é difícil de replicar em qualquer país — diz Bárbara.

O anúncio desta quinta é uma tentativa de Trump retomar o olhar sob a tecnologia. Em 2018, o republicano sancionou uma lei que comprometia o governo a destinar US$ 1,2 bilhão para financiar atividades de tecnologia quântica durante um período de cinco anos. Em janeiro de 2024, a gestão também publicou um relatório para guiar os interesses quânticos do país — o documento dizia que os americanos não podiam esperar por um “momento Sputnik” para catalisar investimentos.