Compass, da Cosan, estreia na Bolsa nesta segunda, após quebrar jejum de 4 anos sem IPOs no país

 

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A Compass, companhia de gás do Grupo Cosan, terá o início de negociação de suas ações nesta segunda-feira na B3. A inauguração acontece após um hiato de quatro anos e meio sem abertura de capital (IPO, na sigla em inglês) de empresas na Bolsa Brasileira. O movimento, afirmam analistas, veio para ficar e não deve parar tão cedo.

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A companhia confirmou na última quinta-feira a captação de R$ 3,2 bilhões com gestoras, que firmaram a operação. A venda das ações foi secundária, isto é, houve a venda de ações dos atuais sócios para um grupo de corretoras compradoras, sem criação de novos papéis. Diferentemente de uma oferta primária, quando uma empresa lança suas ações ao mercado e, com os recursos, se capitaliza.

A maior parte da venda das ações foi realizada pela atual controladora, a Cosan, que passa desde o ano passado por uma reestruturação do seu endividamento e chegou a receber uma injeção de capital de R$ 10 bilhões.

Fernando Siqueira, que chefia a casa de análise Eleven Research, afirma que o endividamento da Cosan após investimentos que não tiveram uma performance positiva foi crucial para a abertura de capital da companhia de gás acontecer neste momento:

— A situação da Cosan foi agravada pelas perdas com investimentos que eles tiveram, como participação na Vale, que não teve desempenho bom, e acabaram vendendo as ações a um preço mais baixo. Houve investimento em açúcar e álcool, em momento difícil, e preços razoavelmente baixos, a ponto de Raízen (empresa que possui parceria da Cosan com a Shell) ter que pedir recuperação extrajudicial — ele diz.

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Segundo o chefe de um banco de investimento envolvido na abertura de capital da Compass comentou em caráter reservado, a expectativa é que o dinheiro arrecadado pela empresa seja utilizado justamente para dar liquidez e contribuir no ajuste do endividamento da Cosan.

Inaugurada em 2020, a Compass, que tinha participação majoritária da Cosan, garantiu na quinta-feira passada a venda de parte das ações que a controladora detinha, além de outros sócios, a R$ 28 por ação. O valor era o piso do intervalo proposto aos investidores no fim de abril, que deveria estar situado entre R$ 28 e R$ 35.

A Compass passará a ter seus papéis ordinários (ON, com voto) negociados na B3 sob o código "PASS3".

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Hoje, a companhia tem sob seu guarda-chuva a Edge, a Comgas (a maior distribuidora de gás encanado do país) e Commit. Possui, segundo seu site, quase 28 mil quilômetros de rede de conexão, com 3,075 milhões de clientes entre as distribuidoras Comgas, Necta, Sulgás e Compagass. Possui ainda fatia minoritária na CegRio, SCGás e MSGás. Pela Edge, é capaz de comercializar o GNL (gás natural liquefeito) recebido pela companhia no terminal portuário de Santos.

Quebra de hiato de mais de quatro anos

A Compass é uma companhia do setor de utiities, atuando em gás natural e energia. Como tem demanda quase inelástica, previsibilidade de caixa e capacidade de crescimento na base de clientes, a empresa se torna atraente aos bolsos de investidores.

A abertura de capital da Compass encerra um hiato de quatro anos e meio sem IPOs na B3. O último, segundo a própria Bolsa, foi da Vittia, empresa de biotecnologia, que abriu seu capital em setembro de 2021. Em dezembro daquele ano, a fintech Nubank, com origem brasileira, foi listada na Nasdaq, em Nova York. Como mostrou O GLOBO, nos últimos meses, a Bolsa brasileira registrou ainda um fechamento ímpar de empresas abertas.

Neste ano, outras duas fintechs brasileiras abriram seu capital na Bolsa de NY. Em Janeiro, PicPay e Agibank inauguraram suas listagens na Bolsa americana.

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Mas os ventos parecem ter mudado, num movimento que começou a partir do meio do ano passado, com a já conhecida política econômica defendida por Donald Trump, de enfraquecimento do dólar. A diminuição da exposição a ativos de inteligência artificial e a chamada “rotação de carteira do investidor global”, que tem aportado mais em países emergentes, favorecem o momento.

Após a reunião do FMI com investidores, em abril, o banco americano Bank Of America divulgou um relatório afirmando que a Bolsa brasileira parecia ser “o novo ouro”. Dólar fraco, exposição alta à commodities e alocações de estrangeiros historicamente baixas eram um dos fatores para a valorização firme dos papéis aqui listados em 2026.

“Grande parte do movimento continua sendo impulsionada por fluxos estrangeiros, e a percepção é de que ainda há espaço para a continuidade dessas entradas de capital”, diz trecho do relatório. O banco vê espaço para o Ibovespa atingir os 210 mil pontos até o fim do ano, uma valorização adicional de cerca de 13%.

É este movimento, de investimento do estrangeiro na Bolsa local, que, segundo o chefe de um banco de investimentos ouvido pela reportagem, tem favorecido a abertura de capital de novas companhias. Até a última quarta-feira, os investidores internacionais já aportaram mais de R$ 55 bilhões no mercado acionário brasileiro.

De acordo com o executivo, na visão do investidor internacional, o Brasil é considerado democraticamente estável e, seja qual for o governo, o ajuste fiscal é considerado inevitável. Sob esta ótica, comparado a outros mercados emergentes, o país se destacaria como uma boa estratégia de alocação.

Ele estima que outras dez empresas sigam os passos da Compass com IPOs no Brasil ainda este ano, mesmo em um cenário de juros altos, com a Selic atualmente em 14,5% ao ano. Essa avaliação é compartilhada também por outros especialistas de mercado.

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Mas o que motiva o movimento? A escolha por abrir capital é também por volume, se comparado a uma transação de fusões e aquisições. Ele pondera que o tamanho do mercado de ações brasileiro é de US$ 700 bilhões, um patamar muito superior ao de fusões e aquisições, com registro de US$ 50 bilhões em volume por ano.

Segundo o executivo, o banco de investimento o qual chefia tem participação nas dez aberturas.

— Veremos IPO de empresas do setor bancário, como fintechs. Também empresas de saneamento, de geração e distribuição de energia, de equipamentos de energia, além de indústria do petróleo, mineração e telecomunicações — comentou em caráter reservado.

Siqueira, da Eleven, também vê a janela atual mais confortável para a abertura diante do ímpeto dos estrangeiros e da queda de juros.

— O momento é melhor do que há alguns meses, quando os juros estavam mais altos. Estamos caminhando para um momento mais favorável, que tem espaço para novas ofertas, mas não dá para descartar janela após as eleições — disse o chefe da casa de análise.

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