No quarto dia da série de entrevistas da TV Globo com os candidatos ao Planalto, nesta quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recorreu à sua própria experiência na Operação Lava-Jato para rebater suspeitas de corrupção que envolvem aliados e um de seus filhos por conta de episódios no atual mandato.
Como o presidente se saiu na entrevista? Veja as notas dos colunistas do GLOBO para o desempenho de Lula
Lula também apostou no discurso de herança maldita deixada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do senador Flávio Bolsonaro (PL), que aparece como seu principal adversário nas pesquisas, e minimizou preocupações com indicadores econômicos em seu governo.
Veja a seguir os principais pontos da entrevista:
1- Avaliação sobre filho e ex-assessor
Ao ser questionado sobre inquéritos da Polícia Federal que apuram suspeitas de tráfico de influência envolvendo seu filho, Fabio Luis, conhecido como Lulinha, o presidente afirmou que conversas encontradas em seu telefone “não justificam” as acusações.
Lula afirmou “ter certeza de que não vai ter” nenhum registro de dinheiro público destinado pelo governo para empresas ligadas à lobista Roberta Luchsinger, que era próxima a Lulinha.
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O presidente também chamou de “imbecilidade” as conversas em que a lobista alardeava proximidade com ele próprio e negou conhecê-la.
— São ilações criadas a partir de telefonemas.
Eu conheço isso muito bem porque já vivi isso (...) na Lava-Jato, a maior mentira criada nesse país para evitar que eu fosse presidente — afirmou Lula, que também procurou reiterar o discurso de que seu filho “terá que pagar se cometeu erro”.
Embora tenha criticado “vazamentos” de investigações atuais da PF e comparado o expediente ao da Lava-Jato, Lula disse que o filho "sabe que não tem direito de cometer esse erro".
Ele também chamou de “inadequado” e “totalmente errado” o diálogo entre Luchsinger e seu ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Ribeiro Santana, o Marcola.
O inquérito apontou que a lobista, ligada a personagens envolvidos no escândalo de desvios do INSS, pagou despesas pessoais do ex-assessor.
O presidente disse tê-lo repreendido por isso, e se disse “deprimido e chateado” pelo caso, mas afirmou que mantém a confiança em pessoas de seu entorno “até que esse faça o julgamento”.
2- Críticas a adversários
Lula também fez referência velada a movimentos do governo Bolsonaro, relatados em 2020 pelo então ministro Sergio Moro, de que o presidente havia tentado modificar o comando da PF para frear investigações contra Flávio.
— Não vou afastar delegado da Polícia Federal, não farei qualquer movimento para acobertar filho, como outros já fizeram.
Em outros momentos, o presidente referiu-se a Moro como “mentiroso” pela condução de processos da Lava-Jato que o levaram à prisão em 2018.
As sentenças foram posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
3- Discurso de "herança maldita"
Na tentativa de afastar de seu governo os desvios do INSS, Lula afirmou que sua gestão restituiu R$ 3,5 bilhões a aposentados e que buscará ressarcimento “com bens apreendidos dessa quadrilha, que foi montada em 2019”, em outra menção ao governo Bolsonaro.
Em outros esforços para se contrapor a seu antecessor na Presidência, Lula afirmou ter reduzido significativamente a fila de espera do INSS deixada ao fim da gestão Bolsonaro, e também comparou indicadores de endividamento com o antigo governo.
O atual presidente disse não se preocupar com a atual trajetória da dívida pública, que já chegou ao patamar de 80% do Produto Interno Bruto (PIB), e a atribuiu a taxas de juros herdadas da antiga gestão do Banco Central, chefiada por Roberto Campos Neto.
Apesar da fala de Lula, a taxa básica de juros do início de seu mandato, que estava em 13,75%, é inferior à taxa atual, de 14%.
— A mim não preocupa a dívida pública.
Parte dessa dívida é por causa da taxa de juros.
Eu entrei e fiquei dois anos com o presidente do Banco Central do Bolsonaro — argumentou Lula.
— Quando eu voltei, o país estava destruído.
O déficit (primário) era de 2,8% do PIB.
No último ano, fizemos 0,8%, e agora vamos fazer superávit primário.
4- Sem privatizar os Correios
Lula também minimizou problemas nos Correios, e disse que “não considera vender” a estatal.
Segundo o presidente, os Correios precisam “se adaptar aos novos tempos”, marcado pela proliferação de empresas privadas que fazem entregas, e afirmou que, “se necessário”, pretende fazer “associações com empresas brasileiras ou estrangeiras” para equilibrar as finanças da estatal.
— Os Correios são muito importantes porque estão presentes em todos os municípios.
A crise é porque não se adaptou aos novos tempos.
Mas garanto que vai sair dessa crise — argumentou.
5- Aposta em minerais críticos
O presidente também argumentou a favor da própria decisão de concorrer a um quarto mandato presidencial, prestes a completar 80 anos de idade.
Lula, cujo mandato atual teve dificuldades para produzir uma nova “marca” de gestão diferente de passagens anteriores, buscou projetar a regulação sobre minerais críticos e terras raras como uma possível vitrine de sua Presidência, caso seja reeleito.
Ele argumentou que o Brasil é um dos países com maiores reservas conhecidas desses tipos de minerais, que são cruciais para a produção de chips e baterias.
Segundo Lula, é preciso organizar essa cadeia produtiva no próprio país.
— Se a gente souber extrair, transformar e produzir dentro do nosso país, vamos abrir caminho para a juventude brasileira ter condições de estudar, trabalhar e construir sua vida.
Por isso quero o quarto mandato — afirmou Lula.
O presidente também aproveitou a entrevista para defender o legado de gestões petistas em indicadores de educação, e projetou elevar a taxa de alfabetização na idade certa para 80% dos jovens até o fim de seu próximo governo, caso seja reeleito
6- Segurança pública
Questionado ainda sobre segurança pública, tema que aparece em pesquisas como uma das principais preocupações do eleitorado neste ano, Lula buscou relativizar a alta de índices de criminalidade na Bahia, estado governado pelo PT há duas décadas.
O presidente argumentou que “nenhum governador” conseguiu resolver problemas nessa área, e defendeu a aprovação da PEC da Segurança Pública, que confere mais atribuições ao governo federal.
O presidente voltou a condicionar a criação do Ministério da Segurança Pública, sua promessa na campanha de 2022 e por ora não cumprida, à aprovação da PEC pelo Congresso.
Lula afirmou ainda que está disposto a “trabalhar junto” com o governo de Donald Trump, nos EUA, “para combater o narcotráfico” e “recuperar o território do povo” — em outros momentos, Lula já criticou a gestão americana por classificar facções criminosas como “terroristas”.
