Companhias aéreas e transportadoras correm para se proteger da disparada do petróleo
Companhias aéreas e outros grandes compradores de combustível ampliaram, nos últimos dias, a contratação de derivativos de petróleo para se proteger da alta dos preços, à medida que a guerra entre EUA e Irã leva as cotações a máximas de muitos anos. Traders e corretores afirmam que a busca por proteção por parte dos consumidores aumentou desde o início do conflito, embora as compras tenham sido mais graduais do que os movimentos agressivos feitos por produtores no começo da semana para travar preços.
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Grande parte do avanço aparece no maior volume de opções de compra, já que companhias aéreas, transportadoras rodoviárias e empresas de navegação buscam proteção contra uma nova perna de alta na disparada do querosene de aviação, que levou os preços na Europa ao nível mais alto desde 2022.
A demanda por proteção ocorre enquanto o petróleo Brent subiu cerca de 12% em três dias, superando US$ 80 por barril, com o impasse militar entre EUA e Irã ameaçando uma interrupção prolongada dos fluxos pelo Estreito de Hormuz.
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A ameaça a essa rota vital de transporte de petróleo reacendeu a preocupação entre consumidores sobre uma nova escalada no preço de uma commodity que normalmente representa sua maior despesa individual.
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Consumidores dificilmente sentirão eventuais economias com combustível, já que ganhos com operações de proteção são realizados gradualmente e podem diminuir caso os preços do petróleo recuem.
— Os riscos geopolíticos e de política seguem elevados nos principais países produtores de petróleo, nas rotas de transporte e no petróleo sob sanções — afirmou Richard Thomson, diretor financeiro da Air New Zealand, em teleconferência de resultados na semana passada.
Ele continuou:
— Isso significa volatilidade e incerteza contínuas sobre preços do petróleo e margens de refino que podem afetar nossos custos com combustível, e vimos isso na última semana em níveis elevados tanto no Brent quanto nos spreads de refino.
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A companhia reestruturou parte de suas operações de proteção de janeiro e fevereiro, migrando de contratos atrelados ao Brent para swaps de querosene de aviação. Embora menos negociados, esses swaps oferecem melhor proteção quando a diferença entre o preço do querosene e o do petróleo bruto, conhecida como “crack spread”, dispara.
Tradicionalmente, companhias aéreas utilizam produtos como Brent e gasóleo (diesel), por meio de instrumentos como opções e swaps, para se proteger da volatilidade, já que têm maior liquidez. Nos últimos anos, algumas grandes empresas passaram a proteger diretamente a exposição ao crack spread após prejuízos relevantes ao depender apenas de contratos atrelados ao Brent, já que oscilações nas margens de refino, em alguns momentos, foram o principal fator de disparada do querosene.
Um grande operador de derivativos, que pediu anonimato ao comentar a atividade de clientes, disse que, após semanas tentando garantir níveis mais favoráveis, uma companhia foi forçada a assegurar proteção perto do pico da alta de terça-feira por receio de nova disparada.
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A IAG, controladora da British Airways, informou no fim de fevereiro que sua conta anual projetada com combustível subiu para cerca de € 7,4 bilhões (US$ 8,6 bilhões), ante € 7 bilhões no fim de dezembro, em resposta às recentes tensões no Oriente Médio.
A proteção contra a alta do combustível é muito mais comum entre companhias da Europa, Oriente Médio e África do que entre suas pares dos EUA. Muitas aéreas americanas reduziram o uso de derivativos após sofrerem perdas pesadas durante as oscilações do petróleo na crise financeira global de 2008.
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A Southwest Airlines, uma das últimas grandes resistentes, encerrou formalmente seu programa de proteção no ano passado. Como resultado, as companhias dos EUA estão, em geral, mais expostas à volatilidade do petróleo do que as concorrentes estrangeiras.
“Nossa abordagem de proteção continua focada no curto prazo, com o objetivo de oferecer alguma defesa contra volatilidade às receitas já vendidas”, afirmou John Di Bert, vice-presidente executivo e diretor financeiro da Air Canada.
