Como uma pessoa cega pode perceber se é dia ou noite se não consegue ver a luz?

 

Fonte:


Por que pessoas cegas conseguem distinguir entre dia e noite, mesmo sem detectar luz? A chave está nas células ganglionares da retina (CGRs), um tipo de neurônio especializado do qual já foram descritas mais de 25 variedades. Essas células nervosas são responsáveis ​​por transportar a informação captada pelos fotorreceptores — os conhecidos cones e bastonetes — dos nossos olhos para o cérebro, onde é processada pelos centros dedicados especificamente à visão.

A mensagem de Albert Einstein para viver feliz: "Não podemos resolver um problema da mesma forma que o criamos"

Entrevista: 'os primeiros 1.000 dias do bebê são o período mais importante da vida do ser humano', diz pediatra Daniel Becker, que lança guia

Para responder a essa pergunta com precisão, no entanto, precisamos nos concentrar em um grupo muito especial de células ganglionares da retina. Chamadas de “células ganglionares da retina intrinsecamente fotossensíveis” (ipRGCs), esses neurônios são capazes de produzir seu próprio pigmento fotossensível: a melanopsina. Essa substância permite que eles detectem a luz diretamente, independentemente dos cones e bastonetes, e enviem a mensagem para a região do cérebro que controla os ritmos circadianos, o relógio biológico interno que nos diz quando é dia ou noite. Recentemente, descobriu-se que as ipRGCs também controlam funções como o ciclo sono-vigília e a temperatura corporal.

O mais surpreendente é que esse subtipo de neurônio continua funcionando e captando luz mesmo quando as pessoas estão cegas devido a várias patologias: seja porque têm fotorreceptores danificados, como acontece na retinose pigmentar; ou porque parte de seus neurônios ganglionares morreu devido ao aumento da pressão intraocular, como ocorre no glaucoma, a principal causa de cegueira irreversível no mundo.

Nem todos os neurônios da retina param de funcionar ao mesmo tempo

A especialização dos nossos neurônios visuais também explica por que nem todos reagem da mesma forma aos danos. Assim, as células ganglionares que possuem melanopsina são as mais resistentes em doenças como o glaucoma.

Dia Mundial do Rim: os alimentos que podem afetar o funcionamento dos órgãos

Nessa doença, os canais da retina (CRR) morrem progressivamente, começando pelos da periferia. E aqui reside o principal problema: a perda da visão periférica muitas vezes passa despercebida até atingir a região central, e aí já é tarde demais. É por isso que o glaucoma é conhecido como o "ladrão silencioso da visão".

Além de ser silenciosa, é irreversível, pois os neurônios que param de funcionar não podem se regenerar nem ser substituídos. Daí a importância de identificar as características das células ganglionares mais sensíveis, a fim de tentar protegê-las antes que morram e o dano se torne irreparável.

Elena Vecino Cordero é professora de Biologia Celular (UPV/EHU), Bacharel em Belas Artes, Membro Vitalício do Clare Hall Cambridge (Reino Unido), diretora do grupo de Oftalmobiologia Experimental (GOBE), Universidade do País Basco / Euskal Herriko Unibertsitatea. Noelia Ruzafa Andrés é investigadora de Pós-Doutorado no Grupo de Oftalmo-Biologia Experimental (GOBE), Universidade do País Basco / Euskal Herriko Unibertsitatea.

*Este artigo foi republicado do The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.