Como uma avalanche matou uma lenda do alpinismo — e uma geração recordista - QTU Questões do Universo

Como uma avalanche matou uma lenda do alpinismo — e uma geração recordista

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O alpinista britânico-nepalês Nirmal Purja, que liderou a expedição ao Broad Peak, era mais conhecido por escalar em alta velocidade as '14 montanhas'
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PAO alpinista britânico-nepalês Nirmal Purja, que liderou a expedição ao Broad Peak, era mais conhecido por escalar em alta velocidade as '14 montanhas'
Juntos, eles chegaram ao topo do monte Everest dezenas de vezes e alcançaram feitos antes considerados impossíveis, como escalar montanhas de mais de 8.000 metros sem oxigênio suplementar e escalar o K2, uma das montanhas mais letais do mundo, em pleno inverno.
Mas, além dessas conquistas, os seis nepaleses que morreram em uma avalanche no Broad Peak, no Paquistão, na semana passada, também ajudaram a mudar a forma como os guias de montanha do Nepal — conhecidos como sherpas — são vistos pelo mundo.
Antes, eles eram vistos como simples auxiliares de expedições.
Entre os mortos estava o alpinista britânico-nepalês Nirmal Purja, um dos mais conhecidos do mundo por ter escalado as 14 montanhas mais altas do planeta, todas com mais de 8.000 metros de altitude, em pouco mais de seis meses.
Seus colegas de profissão dizem que as mortes representam um golpe devastador para a comunidade de montanhismo do Nepal.
'O melhor de sua geração'
Purja, de 43 anos, também conhecido como Nims, liderava a equipe internacional de dez integrantes que escalava o Broad Peak, a 12ª montanha mais alta do mundo, quando a avalanche ocorreu.
"Nims [Purja] era uma figura icônica e, sem dúvida, um dos melhores alpinistas de sua geração", disse Ben Ayers, repórter especializado em Everest da revista Outside.
Kili Pemba Sherpa e Pur Bahadur Gurung, que também atuavam como guias na expedição ao Broad Peak, eram "alpinistas muito experientes e com um currículo sólido", afirmou Ayers.
Kili Pemba Sherpa, de 46 anos, havia acabado de conquistar o cobiçado Grand Slam do montanhismo ao completar, no início de julho, a escalada de seu último "oitomil", nome dado às 14 montanhas com mais de 8.000 metros de altitude.
Mesmo antes dessa conquista, Kili Pemba já era considerado um dos principais nomes do montanhismo.
Em janeiro de 2021, integrou a equipe nepalesa liderada por Purja que realizou a primeira escalada do K2 durante o inverno.
Na época, o K2, a segunda montanha mais alta do mundo, era o único dos "oitomil" que ainda não havia sido escalado no inverno.
No entanto, com 8.611 metros de altitude, é considerado mais íngreme, imprevisível e letal do que o Everest, com 8.849 metros.
Muitos descrevem Kili Pemba como uma pessoa humilde e profundamente dedicada aos clientes.
Em ocasiões diferentes, ele conduziu dois alpinistas com amputação bilateral das pernas até o cume do Everest e do Manaslu, a oitava montanha mais alta do mundo.
"Essa foi uma das missões mais difíceis que um guia pode enfrentar.
[Kili Pemba] fez isso com muito cuidado", disse Gyanendra Shrestha, funcionário do governo que estava no acampamento-base do Everest durante uma dessas expedições.
O Nepal lamenta a morte de seis dos maiores nomes de seu montanhismo
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Getty ImagesO Nepal lamenta a morte de seis dos maiores nomes de seu montanhismo
Já Pur Bahadur Gurung, de 37 anos, havia escalado 12 das 14 montanhas mais altas do mundo e era um dos cerca de 100 guias nepaleses certificados pela Federação Internacional de Associações de Guias de Montanha (IFMGA, na sigla em inglês).
"É preciso muito dinheiro, paixão e dedicação para se tornar um guia certificado pela IFMGA.
Isso diz muito sobre o comprometimento de Pur Bahadur [Gurung] com o montanhismo", disse Himal Gautam, porta-voz do Departamento de Turismo do Nepal.
"Também mostra a dimensão da perda sem precedentes que sofremos no Broad Peak", acrescentou Gautam.
Em 2024, Gurung integrou a equipe que encontrou, no Everest, uma bota com cerca de cem anos, que se acredita ter pertencido ao alpinista britânico Andrew Irvine, desaparecido na montanha em 1924.
Os outros três guias nepaleses que morreram no Broad Peak na semana passada foram Gyaljen Sherpa, mais conhecido por escalar três vezes, em uma única temporada, o Kanchenjunga, a terceira montanha mais alta do mundo — feito que, segundo alguns colegas, merece entrar para o Guinness, o livro dos recordes.
Também morreram Nima Sherpa, de 36 anos, que escalou quatro "oitomil" apenas em 2026, e Nawang Thindu Sherpa, que, ainda na faixa dos 20 anos, era considerado uma das promessas da nova geração de guias de montanha do Nepal.
Colocando o Paquistão no mapa do montanhismo
A cada primavera, os guias de montanha nepaleses conduzem clientes internacionais às montanhas mais altas do Nepal, atuando como guias ou carregadores.
Entre junho e setembro, durante a temporada de monções, parte deles segue para o extremo norte do Paquistão, onde ficam algumas das montanhas mais altas do mundo, incluindo cinco "oitomil".
O número de visitantes estrangeiros nessa região montanhosa ainda é relativamente pequeno, mas a procura vem crescendo.
Enquanto mais de 1 milhão de turistas de aventura visitam o Himalaia todos os anos, a cordilheira de Caracórum, no Paquistão, recebe cerca de 15 mil montanhistas e trilheiros por ano.
Alguns atribuem a Purja o mérito de colocar o Paquistão no mapa do montanhismo com o feito de escalar as 14 montanhas mais altas do mundo em pouco mais de seis meses, conquista retratada no documentário 14 Montanhas, 8 Mil Metros e 7 Meses, disponível na plataforma de streaming Netflix.
"O sucesso de Nims [Purja] deu a muitos [guias] e alpinistas estrangeiros a confiança de que essa conquista no montanhismo era realmente possível", disse Iswari Paudel, presidente interino da Associação de Montanhismo do Nepal.
"Isso transformou o Paquistão em uma importante base de trabalho no exterior para os sherpas nepaleses.
E, enquanto ajudam os montanhistas estrangeiros a realizar seus sonhos, muitos desses guias também conseguiram completar as 14 montanhas", acrescentou Paudel.
Ayers, repórter especializado em Everest, afirma que Purja ajudou a "popularizar uma nova era do montanhismo", que, em muitos aspectos, contribuiu para "democratizar a escalada em montanhas", mas também "impulsionou a comercialização e aumentou os riscos".
Por causa do isolamento das montanhas do Paquistão, organizar expedições no país é muito mais desafiador — tarefa que, segundo os sherpas ouvidos pela BBC, apenas os guias mais experientes conseguem assumir.
"Temos de instalar as nossas próprias cordas, abrir degraus no gelo e montar os acampamentos ao longo da subida", disse Nima Rinji Sherpa.
Em 2024, aos 18 anos, ele se tornou o alpinista mais jovem a escalar as 14 montanhas mais altas do mundo.
"Mesmo na era do montanhismo comercial, ainda vivemos [no Paquistão] uma experiência de montanhismo no sentido mais tradicional da palavra", afirmou Nima Rinji.
As montanhas do Paquistão são muito mais remotas do que as do Nepal
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Getty ImagesAs montanhas do Paquistão são muito mais remotas do que as do Nepal
Mas, por causa da dificuldade de acesso à região, os alpinistas costumam tentar escalar duas ou três montanhas em uma mesma viagem, o que torna o cronograma bastante apertado, acrescenta Nima Rinji.
No Nepal, em contraste, a infraestrutura para o montanhismo é muito mais desenvolvida.
As principais trilhas que levam ao Everest são repletas de pousadas familiares que oferecem hospedagem, refeições quentes e outras comodidades.
Os resgates de emergência também costumam ser mais fáceis no Himalaia, que conta com uma rede integrada de helicópteros de resgate e postos de apoio em grandes altitudes.
Já a cordilheira do Caracórum, por ser mais isolada, dispõe de menos áreas adequadas para pouso.
"Nas montanhas do Paquistão, só para levar os helicópteros até o acampamento-base já é preciso um esforço muito maior, quanto mais fazê-los voar acima dos acampamentos de altitude.
"Por isso, são os sherpas capazes de trabalhar sob pressão e que reúnem experiências diversas e múltiplas habilidades que acabam atuando no Paquistão", disse Nima Rinji.
Os riscos fazem parte do atrativo
Embora a tragédia no Broad Peak possa levar a pedidos por normas de segurança mais rígidas, muitos acreditam que ela terá pouco impacto sobre o montanhismo de alta altitude.
"Em geral, tragédias como essa provocam um momento de preocupação, mas depois tudo volta ao que era antes.
É difícil afirmar com convicção que um acidente nas montanhas poderia ser evitado, porque o risco inerente a esse tipo de escalada é muito alto… e isso também faz parte do seu atrativo", disse Ayers, repórter especializado em Everest.
Segundo Medhavi Gulati, pesquisadora especializada em montanhismo de alta altitude, quem pratica esse esporte costuma ser atraído justamente por atividades de alto risco.
"Muitas vezes, são o perigo e o risco de morte que atraem as pessoas", afirmou.
Ela acredita que a atual geração de guias continuará em busca do reconhecimento internacional e dos recordes conquistados por seus antecessores.
"Não acho que esse fascínio vá desaparecer", disse Gulati.
"Já vimos tragédias como essa antes, e nada mudou", afirmou o alpinista e escritor Alan Arnette, especialista em montanhismo.
Ele citou como exemplo a avalanche de gelo que matou 16 sherpas no Everest, em abril de 2014, e o acidente no K2, em 2008, quando o desprendimento de um enorme bloco de gelo provocou a morte de 11 alpinistas.
"Considerando o histórico, duvido que o acidente no Broad Peak tenha um impacto significativo.
Espero estar errado", afirmou Arnette.
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